O silêncio sagrado do escritório m*l iluminado corrompia-se a medida que o dedo indicador de Danya pressionava os dígitos do cofre de seu avô. A cor verde iluminada em volta do pequeno teclado seguido de um rápido bip precedeu a a******a da porta maciça.
A garota já tinha visto aquele cofre aberto por diversas vezes, sempre que o avô o abria e fechava para guardar documentos e dinheiro, até mesmo barras de ouro ela o vira estocando lá dentro, mas nunca se sentira verdadeiramente interessada em seu interior como se sentia agora.
A primeira coisa que sua mão alcançou foi a pilha de passaportes. Haviam vários. Apressadamente ela pegou os de coloração azul, encontrando primeiro o de seu avô, de Helena, a esposa de seu avô e o seu. Depois de conferir seu nome e a validade, constatou novamente se era o passaporte americano e quando percebeu que tudo parecia regular, colocou seu passaporte escondido entre a saia e a barriga. Depois disso, voltou-se novamente para os outros passaportes e pegou outros quatro que encontrara com o seu nome, sem se dar ao trabalho de conferir a que países pertenciam.
Medo era algo que Danya jamais sentira. Estava sempre protegida e vigiada aonde quer que fosse, contudo, agora era diferente, seu coração batia acelerado, as mãos estavam úmidas em um suor frio e a respiração difícil de controlar, pois tinha medo de que alguém entrasse no escritório naquele momento. Guardando todos os passaportes que encontrara com seu nome no cós da saia, ela pegou um maço de dinheiro com lacre. As notas de cem euros impecavelmente novas.
Enfiou o maço de dinheiro entre os dois s***s, presos com a ajuda do sutiã e depois pegou outros dois e os acomodou na curvatura das costas. Precisava de bastante dinheiro para se manter assim que fugisse dali.
Haviam algumas barras de ouro, joias e até uma pequena bolsinha de veludo preto de diamantes, que ela algumas vezes pegara e contara, pela simples curiosidade de brincar com algo tão valioso.
Fechando a porta do cofre, a garota ajustou as roupas no corpo com cuidado e deu um profundo e lento suspiro, depois seguiu até as janelas de vidro semi fechadas pelas pesadas e escuras cortinas e observou os jardins, onde os seguranças permaneciam posicionados em seus pontos de vigia. Ela sabia que seu avô havia viajado para a Alemanha aquela manhã, mas ainda sim conferiu o movimento do lado de fora, constatando que tudo permanecia monótono como costumeiro.
Por um momento ela tentou retomar a calma e manter seu semblante indiferente e tranquilo, entretanto, quanto mais tempo permanecia no escritório, mais suas mãos gelavam e suas pernas fraquejavam. Decidida, ela deixou a sala, passando pelo segurança que estava sempre à porta, como parte da mobília.
- O que estava fazendo no escritório do papai? – Olga perguntou sem tirar os olhos do livro que tinha nas mãos. As pernas jogadas sobre o braço do sofá, enquanto a cabeça repousava em uma das almofadas.
Ignorando a tia, que era apenas um ano mais velha que ela, Danya seguiu para as largas escadas que davam acesso ao andar superior.
“сука” (p**a) – Danya ouviu a voz de Irina, a irmã de Olga, também filha de seu avô, que sentada na outra poltrona a fitava com olhos de coruja.
- Eu podia aproveitar que o papai não está aqui e dá uma surra nela – Falou Irina olhando para Danya subir as escadas.
- Cala a boca. Da última vez que tentou bater nela, foi você que saiu com a cara rasgada.
- Se você me ajudar, eu consigo dar uns bons tabefes nela.
- Não estou a fim e cale a boca, está atrapalhando a minha leitura - Olga passou a folha do livro.
Aborrecida, Irina bufou e seguiu para a cozinha. Ainda estava terrivelmente irritada por Danya ter dedurado seu caso com um dos seguranças ao pai e sentia-se inconformada por não poder retribuir o ato na mesma moeda.
Trancando a porta do quarto, Danya retirou os maços de dinheiro e passaportes das roupas, depois puxou a mochila de dentro do closet e enfiou tudo dentro. Retirando uma pasta cheia de documentos, ela colocou os passaportes e dinheiro dentro.
Além das roupas do corpo, ela só carregava uma muda de roupas dentro da mochila, três calcinhas, um sutiã e produtos de higiene pessoal. Aquilo se resumia a tudo que levaria com ela.
Olhando para o relógio no pulso, a garota percebeu que já estava atrasada, então se enfiou no uniforme do colégio interno e prendeu os cabelos loiros e compridos, em um r**o de cavalo.
- O segurança já está aguardando – A criada criteriosamente uniformizada informou a jovem, sem notar nada de diferente.
- Está certo – Danya desceu as escadarias observando os detalhes da mansão que estava deixando para trás. Ela certamente sentiria saudades dali, saudade de seu avô, de seus primos, dos criados, dos cachorros e até das duas tias, que mais pareciam suas irmãs, pois haviam crescido todas juntas.
Ter consciência de que magoaria seu avô, lhe doía o coração e isso, sem dúvida, era o mais difícil. Danya não concordava com a vida enjaulada que tinha, odiava o fato de não ter permissão nem mesmo para estudar em uma escola normal, ou sair sem ter que pedir permissão. Seus únicos amigos se resumia a família que tinha. Seu avô não cansava de repetir isso.
“quero ir para a faculdade” – Danya lembrou-se de seu pedido de aniversário de dezessete anos.
“Por que quer fazer faculdade?” – Alexander Anatolewitsch Zamarov a aconchegou no colo, como se a neta ainda fosse uma garotinha de cinco anos.
“Quero estudar e adquirir conhecimento” – Danya respondeu esperançosa.
“Assim que as aulas do colégio terminarem, prometo que providenciarei todos os professores que precisar” – Ele garantiu paciente.
“Mas eu quero um diploma”
“Providenciarei para que receba o diploma da faculdade mais renomada do país”
“Eu queria...”
“Danya” – Alexander chamou a neta em um tom um pouco mais duro, em sinal de alerta. Ele sabia exatamente o que ela queria com aquela conversa.
“Jamais arriscaria a sua segurança e a segurança de suas tias em uma universidade. Não há nenhum motivo para que se preocupem com nada. Se quiserem estudar, lhes darei estudos, se quiserem um diploma, lhes darei um diploma”
“Entendo” – Danya fitou os olhos verdes e firmes do avô pensativa, julgando uma grande tolice tentar argumentar com ele.
As coisas seriam sempre como seu avô dizia, a menos que ela tomasse uma atitude - concluiu aquele dia, decidida a seguir seu próprio caminho e viver a sua vida.
Atravessando a sala grande, recoberta por caríssima tapeçaria, Danya passou por suas tias sem se despedir, as ignorando como sempre fazia, entrando no carro preto, que a aguardava no pátio, com o motorista ao lado da porta aberta.
Em silencio, ela acompanhou da janela, as fileiras de pinheiros que se perdia até os portões da propriedade, fortemente vigiada pelos homens armados de seu avô. O semblante entediado e indiferente, nem de longe demonstrava os planos que levava consigo.
Com os olhos fixos na paisagem, ela observa as arvores, que tinham suas folhas ainda verdes, mas que logo ficariam amarelas, vermelhas e por fim cairiam mortas, anunciando a chegada do rigoroso inverno russo, mas desta vez, ela não estaria ali para ver.
Apesar do que estava prestes a fazer, a mente da garota seguia vazia, os olhos perdidos na paisagem, dispersa e alheia aos próprios problemas. Nisso, duas horas se passaram em um piscar de olhos e quando ela se deu conta, já estava diante do colégio em que deveria passar o próximo semestre.
Descendo do carro, ela saiu antes que o segurança conseguisse abrir a porta, como sempre fazia, apesar do incansável esforço do homem em cumprir suas obrigações. Aquela era a maneira sutil que encontrava de demonstrar a sua falta de afeto pelos seguranças de seu avô, que a estavam sempre vigiando.
Entrando no corredor principal do colégio, uma antiga igreja que fora reconstruída, Danya deixou que o segurança cuidasse de suas bagagens, seguindo para seu antigo quarto dentro da propriedade.
O corredor estava cheio de alunos, freiras e pais de alunas que aquele dia traziam de volta as filhas e as ajudavam nas acomodações.
Retornando para o pátio, Danya conferiu as placas dos carros, até encontrar o carro que a aguardava e sem relutar entrou nele.
- Para o aeroporto Domodedova – Ordenou ao motorista com o máximo de tranquilidade que conseguira exibir.
Foi somente quando estava prestes a passar os seus pertences pela máquina de fiscalização de bagagens pequenas, que Danya se deu conta do erro que estava fazendo e apressada, correu para o toalete e se trancando em um dos banheiros, retirou os maços de dinheiro da mochila e os escondeu nas roupas, por baixo de seu moletom. Para seu alivio, conseguiu passar pela fiscalização sem nenhum problema.
Deitada na poltrona confortável, dentro da aeronave rumo a Boston – USA, ela suspirou aliviada por saber que ninguém mais a impediria de viver a vida que queria