Capítulo seis

2389 Palavras
Quando entraram na recepção do prédio, Liam aper­tou o braço de Sarah com a mão.— Richard — disse baixinho. — Onde? — Depois daquela mesa. Sarah viu Richard Laithwaite no exato momento que ele os viu também. Seu rosto iluminou-se com um am­plo sorriso. — Estava indo para seu escritório nesse instante, Liam — disse indo em direção do amigo. — Queria ver Sarah e saber como tinha sido sua primeira manhã de trabalho. Como você está, minha querida? — Bem — respondeu enquanto ele lhe dava beijos no rosto. — Você me parece bem. — E estou — na verdade parecia estar realmente sau­dável. Se Sarah não soubesse do problema de coração, não poderia adivinhar o estado de saúde do padrinho. Richard a pegou pelo braço e a levou em direção às escadas. — Vamos beber um café na sala de Liam. Não te vejo desde a Páscoa. E foi somente uma visita ligeira, porque Sonya não estava passando bem para ir comi­go. Você se lembra? Em todo o caminho da ampla recepção coberta de mármore, Sarah estava atenta às pessoas olhando para ela. Sentiu-se muito pouco à vontade. Nunca se sentiu daquela maneira antes ao lado do padrinho. Tudo que ela podia pensar era no par de p****s enormes de Sonya pulando fora da jaqueta fúcsia naquela manhã. — Almocei com Seb mês passado — continuou, completamente alheio às preocupações de Sarah. — A produção da companhia deslanchou, segundo seu in­forme. Ele escreveu análises muito boas no último relatório. Sarah olhou para Liam, feliz de saber que ele estava bem atrás deles. — Creio que sim. — E Luke? — Anda bastante ocupado. Seus dois anos na África terminam em dezembro. Pelo que sei, ele pretende vol­tar para casa. — Que bom. Temos uma desesperada necessidade de bons pediatras. Não sei por que ele foi se meter num lugar tão distante. — Vou pegar o café — disse Liam atrás deles. Os olhos de Richard brilharam. — Esteja certo de que trará aqueles biscoitos com gotas de chocolate que Bárbara compra especialmente para você — voltou-se para Sarah. — Ninguém mais tem estes biscoitos. Tenho certeza de que Bárbara pensa que nós não sabemos que ela os esconde no alto do armário da copa. Liam sorriu. — Vou contar a ela que você já sabe. — Só não fale nada para a minha secretária. Ela pensa que eu deveria cuidar melhor de meu colesterol. — Ri­chard guiou Sarah pelo corredor até a sala de Liam. — Agora sente-se aqui e me conte tudo sobre o que está achando de Londres. — Não vi muita coisa ainda — respondeu, esperando desesperadamente que Liam não demorasse em trazer o café. Como ele lidava com isso, dia após dia? Ela estava preocupada se, de repente, não deixasse escapar alguma coisa sobre Sonya. — Liam me disse que você está procurando um apar­tamento. — Espero conseguir um. Estou guardando tanto quanto possível do que eu ganho aqui para oferecer como depósito. — Não se preocupe com isso — disse, segurando sua mão. — Verei se está tudo bem para você. Não consigo compreender por que seu pai não pensa nisso. Acredi­to que ele tenha outras coisas em mente. — Sim. Os olhos astutos de Richard falaram por ele. — Lynda não gosta de compartilhar. Eu deveria ter pensado nisso — disse. Era estranho como ele podia ser tão observador para certas coisas e tão obtuso com seu próprio casamento. Talvez por que precisasse de Sonya? Talvez realmente a amasse? Sarah mordeu o lábio. Se fosse isso mesmo, era muito triste. Ele iria se magoar. — Já era hora de você deixar a casa de sua mãe. Exis­tem memórias demais habitando aquele velho lugar e nem todas são boas. Liam abriu a porta. — Alguém já tinha fervido uma chaleira há pouco tempo. — É como estava dizendo — Richard insistiu, pas­sando a Sarah uma bonita xícara de porcelana chinesa — já é hora de Sarah vender aquele bangalô — ele pegou um biscoito. — Saia de Henley. Devem restar muito pou­cos da velha turma, imagino. — A mãe de Liam ainda está lá. — Ah, sim, Moira — concordou com uma ponta de tristeza na voz. — Não sei como ainda não se mudou de lá. Você sabe, Liam? Ele balançou a cabeça. — É improvável. — Depois que seu pai morreu, tentei persuadi-la a se mudar para Londres, mas ela não queria saber disso — Richard voltou para o presente. — Desejo lembrá-la de que está começando hoje. Deveria trazer Sonya para lhe dar um alô. Mas ela está ocupada fazendo compras na cidade para a festa. Sorriu e Sarah sentiu seu estômago se mexer. Ela não ousava olhar para Liam. — Talvez nós possamos nos encontrar para jantar uma noite dessas? Nós quatro. Liam colocou a xícara sobre a mesa do café. — E você vai ter tempo antes da festa? — Provavelmente não — respondeu contrariado. — Mas depois que Sonya e eu voltarmos da Flórida... — Será maravilhoso — Sarah cortou rapidamente. De­pois da viagem isso não teria mais importância. Liam poderia se acertar com Sonya e ela já teria se mudado para o próprio apartamento. Assim esperava. Richard deu uma olhada no relógio de pulso. — Você vai à festa? — Sim, Liam... — Vai levar você até lá. Excelente. Disse a ele para fazer isso. Era covardia, mas Sarah não tinha coragem de enca­rar o padrinho e lhe dizer que estava indo como a namorada de Liam. Aparentemente Liam também não estava com muita pressa de contar isso a ele, porque também não falou nada. Richard não notou. — Sonya está tendo muito trabalho com os arranjos. Ela não fala de outra coisa há semanas — ele pôs a xíca­ra sobre a mesa. — Sonya acha difícil fazer tudo sozi­nha. Será bem melhor quando eu finalmente tiver me aposentado. Ele sorriu e Sarah sentiu que estava prestes a chorar. Richard não tinha idéia de que sua mulher era perfeita­mente feliz encontrando diversão em qualquer lugar. — Certo, de volta ao trabalho. Tenho que terminar até sexta-feira — disse, saindo. Assim que a porta fechou atrás dele, Sarah assobiou. — Isso foi péssimo. Liam levantou-se abruptamente. — Essa é a razão porque estamos fazendo isso. — Eu sei. Mas ele não consegue ver como Sonya é realmente? — Ela é muito cuidadosa em como se comportar na frente dele. Você chega a pensar que ela o está idola­trando. É h******l, concordo — disse. Aproximou-se e carinhosamente acariciou o rosto dela. — Mas estamos fazendo tudo o que podemos. Mesmo assim, temo que será inevitável que no fim de tudo ele vá sofrer. Sarah olhou Liam desaparecer em sua sala. Ele es­tava certo. Era inevitável que Richard sofresse. Pela primeira vez desde que chegou à Harpur-Laithwaite, ela estava verdadeiramente feliz de estar ali.    *** — Senhorita Winston? — perguntou um jovem rapaz à porta do escritório, durante a tarde. — Sim — respondeu Sarah por cima da tela do com­putador. — Desculpe-me, mas nós extraviamos duas cartas para o Dr. Balfour na entrega desta manhã. Elas foram misturadas com outras e só agora as recebemos de vol­ta. Uma delas está com o carimbo de "confidencial", então nós ficamos um pouco preocupados porque po­deria ser importante, acho. — Não se preocupe com isso. Pode deixá-las comi­go — disse esticando a mão. — Obrigada. O homem deu as costas e saiu do escritório como se tivesse falado com a realeza. Se ela tivesse certa era simplesmente por conta do status de secretária de Liam Montgomery, então ela se divertiria com isso. Mas a outra opção a magoava. As fofocas de que estava dormindo com o chefe tinham obviamente se espalhado como Liam dissera. Ela se sentia enganada e desconfortável nesta situação. Não tinha mais dúvidas de que o cartei­ro voltou para a sala de correspondência comentando a seu respeito, "Ela é muito baixinha" ou "Não é tão bo­nita quanto a outra." Rasgou o topo dos envelopes com uma grande régua e observou o conteúdo. Eram propagandas sem im­portância, predestinadas a se tornar papel reciclado. Mas o pacote estava com o endereço escrito à mão, firme­mente selado e com algo macio em seu interior. Ela apertou mais com os dedos. Estava escrito "Confiden­cial. Entregar em mãos". Seu estômago deu uma volta completa de ansiedade. Se aquilo não tivesse sido en­viado por Sonya, ela já estava se sentindo m*l. Soltou o papel com a tesoura e abriu o pacote. Jogou o con­teúdo sobre a mesa. Fascinada, viu algo brilhoso, roxo, cair. Seu primeiro pensamento foi, "Mais calcinhas", mas então ela viu que estava errada. Um sutiã! Quase. Aquilo não fora desenhado para sustentar nada. Tinha sido desenhado com o único pro­pósito de ser removido. Cruzes! Ela apertou os lábios e examinou o sutiã, pensando no que Liam fazia com os presentes de Sonya. Esperou até que a luz que indica­va telefone ocupado na sala de Liam tivesse se apaga­do. Abriu as portas e, com a ponta do dedão e do indi­cador, levou o sutiã para a outra sala. — Isto estava temporariamente perdido na sala da correspondência. Suponho que combine com as calci­nhas. Liam olhou por cima de seu livro caixa. Fechou rapidamente os olhos e olhou de volta para Sarah. — Isso explica o que ela veio fazer aqui hoje de ma­nhã. Era para perguntar se eu tinha gostado do presente. — O que você fez com as calcinhas? — Estão no arquivo "C", de calcinhas — respondeu, sentando-se de novo na cadeira, cruzando os dedos atrás da cabeça e esticando a coluna. — Onde você quer isso, então? Na letra "S" de sutiãs? — A menos que você tenha uma sugestão melhor. Sarah cruzou a sala e foi até os arquivos. Puxou a gaveta da letra "C" e encontrou um tecido brilhante. — Isto não são calcinhas, mas ligas. Deveriam estar na letra "L". — Realmente não me importa. Ela foi saindo e parou na porta. — Você não pode manter estas coisas aqui. Existe alguém a quem queira enviá-las? — Você tem alguma sugestão? — Não pode jogar fora simplesmente. — Adoraria ver a cara do faxineiro na hora que ele fosse esvaziar a lixeira. — Não pensei nisso. Leve para casa e então se livre disso. — Não vou levar isso para casa — disse firmemente, as linhas de expressão ficando rígidas. Ela não poderia realmente condená-lo por aquilo. — Tudo bem então. É melhor você me deixar cuidar disso. Vou guardar no armário de Bárbara e depois ela pensa no que fazer com isso. — Sarah saiu jovialmente, balançando os dois presentes. — Se alguém encontrar estas coisas, vão imaginar que são minhas. Bem, quase. Caso eu passasse por um drástico aumento de s***s — disse, segurando o sutiã transparente. Liam riu com obediência, mas era um riso forçado. Dentro de sua cabeça, alarmantes imagens foram sur­gindo com Sarah vestida apenas com calcinhas e sutiãs. Não que ela precisasse de acessórios, de maneira algu­ma. Tinha s***s firmes e m*****s bem salientes. Den­tro da camiseta preta que estava usando naquele dia, ela decidiu usar algo. O efeito era diferente, e o decote era maravilhoso. Mas o que estava acontecendo com ele? Forçou os olhos para outro lugar, mas a imagem de Sarah com lingerie não saía de sua mente. Ele a conhecia há anos, mas nunca tinha sentido nada por ela. Não desta ma­neira. Sonya sem roupas não era uma imagem que frequentasse as fantasias de Liam, mas se você pudesse trocá-la por Sarah — então seriam outras possibilidades. Na verdade, mais que possibilidades. Seria fácil ficar fissurado se ele não parasse de pensar no assunto o mais rápido possível. Estava sob pressão. Este era o problema. Depois que esta festa de despedida passasse, a vida poderia voltar ao normal e todos os desejos voltariam para os costumeiros locais. Sarah balançava a lingerie com a mão. — Não posso entender por que ela está fazendo isso. Certamente ela deve achar tudo embaraçoso. Liam manteve os olhos nos papéis que estavam a sua frente. — Ela não acha nada embaraçoso. — Isso soava mais imprevisível do que ele gostaria que fosse, mas não ousava olhar para frente. Não de novo. Não queria sentir as coisas que acabara de sentir. Liam ouviu Sarah fechar o armário. Ele se espichou e tentou ver por alguns instantes aquele belo traseiro. Como ele nunca tinha reparado nisso? Não havia nada vulgar, nada indecente nas roupas que ela tinha esco­lhido para vestir. Nada parecido com Sonya. Nem mesmo com Tillie. Callie se vestia para ser vista, mas das roupas de Sarah você não teria muito o que comen­tar. Ela era inesperadamente bonita. Simplesmente sur­preendente. E era vulnerável. Até para pensar em transformar aqueles impulsos em ações, Liam tinha de manter a cabeça no lugar. Sarah nasceu "para o melhor e o pior", para o tipo de relacionamento que ele sabia não ser capaz de manter. Não queria isso. — Liam? — Sarah voltou-se de repente. Sentia-se um i****a. Pego olhando feito um adoles­cente. — Sim? — É só com você que ela faz isso? — ela segurava a calcinha e o sutiã no alto. — O que você quer dizer? Sarah balançou a cabeça. — Não sei realmente. Só imaginei se ela faz isso por­que... bem, porque talvez ela acha que você goste des­se tipo de coisa. Ou então ela faz isso porque faz mes­mo. E, se ela faz, então talvez você não seja o único. Entende agora o que quero dizer? — Faz alguma diferença? — Pode fazer para Richard. Foi tudo o que ela disse. Então fechou a porta. Ele batia o lápis na mesa e ficou com o que ela disse rodo­piando em sua cabeça. Era um ângulo do problema que ele não havia considerado até então. E era uma possi­bilidade. O que ele não sabia era se isto poderia mudar alguma coisa. Tentou se concentrar nos números diante dele. Não faziam muito sentido e, então descansou o lápis com irritação. Levantou-se e caminhou até a janela. Tinha de recuperar a concentração. O mais importante era pro­teger Richard e a si mesmo. E para fazer isso ele preci­sava de Sarah. Eles iriam para aquela festa, iriam embora e nunca mais se aborreceriam com aquilo. Nada mais a se preo­cupar.  
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