tó ferrada

1018 Palavras
Amélia A porta do alojamento rangeu devagar quando Amélia a empurrou, com passos leves e olhos cansados. O lugar estava silencioso, iluminado apenas pela luz fria da manhã que atravessava as janelas. O lençol jogado no sofá e a caneca vazia no balcão indicavam que Laís ainda não tinha saído. Assim que entrou, ouviu um pigarro forçado atrás de si. Amélia se virou lentamente tentando não ri do jeito Laís estava, esperando como se fosse sua mãe. — Vai me explicar ou quer que eu finja que você não passou a noite fora com aquele mafioso lindo e perigoso? Amélia suspirou, largando a bolsa na mesa e tirando os sapatos. Virou-se para a amiga, que estava de braços cruzados, sentada na beirada da cama com cara de quem não dormira. — Bom dia pra você também — resmungou. — Amélia, eu passei a noite preocupada! Você desaparece, não responde, e ainda volta com cara de quem viu o d***o e gostou! Amélia deu uma risada sem humor e sentou-se no colchão de baixo, passando as mãos no rosto como se tentasse acordar de um sonho. — Foi pior do que ver o d***o. Eu dormi com ele. Laís arregalou os olhos. — Você o quê? — Dormi com o Maxin — repetiu, ainda sem acreditar que estava dizendo aquilo em voz alta. Laís ficou de pé num pulo. — Amélia, você tá maluca? Você dormiu com o chefe da máfia russa?! O cara que mandou te investigar? O homem mais perigoso que já pisou nesse país? Amélia baixou os olhos. — Ele foi... diferente comigo. Atencioso. Carinhoso, até. Como se... como se eu fosse frágil, mas valiosa. Eu sei que parece loucura, mas na hora... tudo fazia sentido. Ele me olhava de um jeito... — ela fez uma pausa e murmurou — ...como se eu fosse a única coisa no mundo dele. Laís se sentou ao lado, em choque. — Amiga, você deu ao cara mais perigoso do mapa. E agora se apaixonou por ele? Amélia não respondeu de imediato. Respirou fundo, abraçando os próprios joelhos. — Eu não sei se é paixão. Mas eu tô ferrada, Laís. Porque agora eu sei como ele me toca. Como ele me beija. E sei que ele é um perigo real… mas meu corpo não entende. Eu fecho os olhos e só vejo ele. — Ai, meu Deus... — Laís levou a mão à boca, ainda processando. — E você... foi sua primeira vez? Amélia assentiu, baixinho. — Foi. E ele percebeu. Laís murchou o corpo, deixando o ar escapar em silêncio. Depois falou com mais ternura: — E agora? Como você se sente? — Como se tivesse dado a um homem que pode me destruir com um estalar de dedos. Mas ao mesmo tempo... eu queria ficar nos braços dele por mais tempo. — Isso não é só um problema, Amélia. Isso é uma tragédia pronta pra acontecer. Você acha que ele vai deixar você ir agora? Que vai te esquecer? Você entregou a ele algo que, pra homens como Maxin, significa posse. — Eu sei — sussurrou Amélia, com os olhos marejados. — Quando ele soube que foi a minha primeira vez... o olhar dele mudou. Ele disse que agora eu era dele. Que ele ia me proteger. Mas o jeito como ele disse isso... — Soou como uma prisão? — Laís completou. Amélia assentiu devagar. — E o pior é que parte de mim queria aquilo. Queria que alguém me protegesse, me abraçasse, me chamasse de “minha” sem me machucar. E Maxin… ele me deu tudo isso. Por uma noite. — Amélia... — Laís segurou a mão da amiga. — Eu tô contigo, tá? Só que a gente precisa ser realista. Ele não é um cara comum. Ele tem inimigos. Ele manda em homens armados. Ele mata sem piscar. Você acha mesmo que um homem assim sabe o que é amor? Amélia deu de ombros, engolindo as lágrimas. — Talvez ele não saiba. Mas eu vi verdade no jeito como ele me olhou. Como se eu fosse luz em um mundo escuro demais. Laís abaixou o olhar, sentindo a dor da amiga, mas também o medo que crescia por dentro. — E se ele se virar contra você? E se essa obsessão crescer e virar controle, agressão, ameaça? Você sabe como essas histórias acabam. — Eu sei. Mas… ele ainda não me machucou. Só me envolveu. Laís balançou a cabeça, frustrada. — Tá. E agora? Você vai continuar vendo ele? Amélia demorou para responder. Os olhos se perderam na parede, na lembrança do toque dele, do calor, da segurança falsa. Da sensação de ser querida, desejada, por alguém que todos temem. — Eu acho que não vou conseguir me afastar — confessou. — Mesmo que eu queira. Mesmo que tudo grite que isso é errado. — Então você tá ferrada mesmo. As duas se entreolharam. E riram. Riram de nervoso. De desespero. De amor e de tragédia. Porque, no fim, sabiam que estavam vivendo uma história que podia explodir a qualquer momento. Laís puxou Amélia num abraço apertado. — Tá bom. Se você vai continuar nesse rolo com o mafioso russo, eu vou ficar colada em você. E na primeira merda que ele fizer, eu mesma taco fogo naquele hotel. — Você é louca — murmurou Amélia contra o ombro da amiga. — Eu sou sua amiga. É quase a mesma coisa. — Você não pode com a máfia, Amélia fala com olhos preocupados. — Eu sou sua amiga e posso tudo, ela fala dando uma piscadinha. Elas ficaram abraçadas por mais um tempo, enquanto lá fora o dia clareava. O mundo lá fora era c***l, confuso, imprevisível. Mas ali, dentro do alojamento, duas garotas quebradas tentavam proteger uma à outra com tudo que tinham: amor, lealdade e coragem. E isso, às vezes, era o suficiente para começar uma guerra. Maxin tinha inimigos poderosos que vigiavam ele o tempo todo, a procura de uma brecha, uma chance de feri-lo, uma chance de tira-lo do poder. Amélia era o seu ponto fraco e agora muitos já sabiam.
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