Capítulo 1

1215 Palavras
A brisa leve da primavera serpenteava pelas ruas de pedra da aldeia, trazendo consigo o doce perfume das flores recém-colhidas por Louise Khadowsky. Ela caminhava apressada em direção à feira, equilibrando os ramos de lavanda e rosas em um cesto de palha surrado. Era assim que mantinha seus irmãos — colhendo, vendendo, sorrindo para desconhecidos que sequer reconheciam sua linhagem nobre e o sangue azul que corria em suas veias. Para eles, ela era apenas mais uma jovem lutando contra a miséria. À sua volta, as senhoras passavam em vestidos elegantes, cochichando entre si, lançando-lhe olhares de desprezo. Afinal, ali estava a filha dos falidos Khadowsky, uma família arruinada por apostas. Mas Louise, com o queixo erguido, ignorava cada olhar, mantendo o foco na simples missão de garantir o próximo jantar. Enquanto ela se concentrava em organizar as flores em sua pequena banca, um trotar grave ressoou, atraindo a atenção de todos no mercado. Montado em um imponente corcel n***o, um homem de porte aristocrático surgiu entre as pessoas. Seus olhos eram afiados, de um azul intenso que contrastava com os traços duros de seu rosto. Ele era o Duque de Ridley, um homem conhecido tanto por seu charme avassalador quanto pela sua reputação duvidosa. Louise sentiu seu coração acelerar quando o olhar do Duque encontrou o dela. Ela tentou desviar, mas algo na expressão enigmática dele a prendeu, como se os segredos que ele carregava fossem um convite silencioso para que ela os descobrisse. O Duque desmontou, dirigindo-se diretamente a Louise, que respirou fundo, tentando ignorar a sensação de perigo e fascínio que aquela aproximação lhe causava. — Senhorita Khadowsky, não? — ele perguntou, a voz profunda carregada de uma leve ironia. Louise assentiu, sem palavras. — Gostaria de oferecer-lhe uma carona até a aldeia. — A proposta era simples, mas o tom e o olhar dele sugeriam algo mais profundo, quase desafiador. Ela hesitou, consciente do burburinho ao redor, dos olhares curiosos e dos sorrisos maliciosos. Aceitar a oferta de um homem com a fama do Duque poderia arruinar o pouco de dignidade que ainda lhe restava. Contudo, havia algo naquele convite, algo que prometia uma mudança, um novo rumo. Tomando uma decisão impulsiva, Louise ergueu os olhos verdes para ele e disse, com determinação: — Aceito, milorde. Mas espero que saiba que eu não sou uma de suas diversões. O Duque sorriu, um sorriso enigmático que parecia esconder algo além da mera cortesia. — De forma alguma, senhorita. Jamais ousaria subestimar uma Khadowsky. Enquanto Louise subia na carruagem, sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Ali, ao lado do Duque de Ridley, ela pressentia que estava prestes a embarcar em uma jornada que a levaria muito além dos limites de Yorkshire e dos papéis que a sociedade impunha. Louise chegou à porta de sua casa ao anoitecer, sentindo o peso dos olhos da aldeia ainda sobre si. Suspirou, deixando o cesto vazio ao lado da entrada, antes de abrir a porta de madeira desgastada que rangia em protesto. Assim que deu um passo para dentro, percebeu um cheiro agridoce no ar — álcool. O som de risadas altas e o barulho de copos se chocando encheu o espaço. Lá estavam seus seis irmãos, todos num estado deplorável de embriaguez, espalhados pelo pequeno cômodo. Edmund, o irmão mais velho, cambaleava perto da lareira, erguendo um copo com um sorriso vago. Ao vê-la entrar, ele a saudou com um riso esganiçado. — Ah, minha doce Louise, a salvadora da família! — exclamou, tropeçando até ela e segurando seus ombros com firmeza. O hálito de rum era forte, fazendo Louise recuar instintivamente. Ela olhou ao redor, vendo que os outros irmãos — todos com expressões esgotadas, mas aliviadas pelo efeito da bebida — m*l notavam sua presença. Louise, com os olhos cheios de frustração e um toque de tristeza, perguntou, sua voz firme: — Vocês estão mesmo se entregando assim? Depois de tudo o que passamos? — Relaxe, querida irmã — respondeu Henry, o segundo mais velho, afundado em uma cadeira com os pés sobre a mesa. — Precisávamos de um alívio, não vê? Edmund trouxe rum do porto. Louise balançou a cabeça, desapontada. Ela sempre fora a âncora, a força que mantinha todos unidos e alimentados. Mas, naquele momento, parecia que seu esforço era em vão. Com um suspiro profundo, ela começou a recolher os copos vazios e a apagar as velas. — E quanto a você, Louise? Não deveria viver um pouco também? — perguntou Edmund, observando-a com uma mistura de pena e frustração. Ela ignorou o comentário, respondendo com uma calma controlada: — A diferença, Edmund, é que eu ainda me importo com o que nos resta. Você pode ter esvaziado nossos cofres, mas eu ainda luto para salvar nossa dignidade. Sem esperar uma resposta, Louise subiu para o seu quarto, deixando para trás os murmúrios dos irmãos. Naquela mesma noite, o Duque de Ridley também estava imerso em uma companhia distinta — mas muito menos tumultuada. Nos arredores do bosque, ele se encontrava em uma clareira reservada, acompanhado de Olívia, a talentosa soprano que atraía a atenção da alta sociedade não apenas por sua voz cativante, mas também pelo fascínio que exercia sobre os homens. Eles estavam sentados sobre uma manta, o céu salpicado de estrelas acima deles, enquanto Ridley, apoiado em um cotovelo, a observava cantar baixinho uma canção suave. Olívia tinha o talento de deixar qualquer homem enfeitiçado, e Ridley, com seu sorriso maroto, parecia satisfeito com o jogo de sedução que compartilhavam. — Diga-me, milorde — provocou ela, com um sorriso sugestivo. — O que lhe traz ao meu canto favorito do bosque? — Você, minha cara — respondeu o Duque, com um brilho malicioso nos olhos. — Há algo mais interessante que uma noite ao seu lado? Ela riu, a melodia de sua risada ecoando nas árvores, e Ridley a observou atentamente, sentindo uma estranha satisfação em esquecer os julgamentos e obrigações que o aguardavam na sociedade. Ao lado dela, a leveza tomava o lugar do peso que ele carregava, de uma reputação que os olhares discretos e comentários venenosos sempre relembravam. Porém, ao mesmo tempo em que Ridley ria, despreocupado, em um mundo de prazeres temporários, a imagem da jovem Louise Khadowsky — seu olhar firme, o toque suave de sua mão ao subir na carruagem — retornava brevemente à sua mente. Ele afastou a lembrança, ainda sem saber por que, mas não pôde evitar a curiosa comparação entre a candura inabalável dela e a intensidade de Olívia. Entretanto, o Duque não era alguém que se deixava abater por divagações. Sua atenção voltou completamente para a soprano, imerso em uma noite de diversão e descompromisso — uma vida em que ele, ao contrário de Louise, parecia não ter a responsabilidade de ninguém além de si mesmo. Enquanto isso, no silêncio de seu quarto, Louise ouvia as risadas abafadas de seus irmãos lá embaixo e se sentia profundamente só. Ela fechou os olhos, desejando que a vida que tinha fosse diferente — uma vida onde poderia ser livre, onde não precisasse ser a rocha para todos. E, enquanto tentava sufocar as lágrimas, o pensamento do Duque surgiu em sua mente, trazendo uma centelha de algo novo e desconhecido, uma sensação que a tirava do peso de seu mundo.
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