07

4138 Palavras
Quando eu digo algo, não costumo voltar atrás. Eu disse que iria rezar durante toda a madrugada, e foi o que eu fiz. Pedi perdão por desobedecer, por sair sem a permissão de meu pai, por entrar no carro de um desconhecido. Mas, principalmente, por não me arrepender. Deus pode me castigar, pois sei que eu mereço, mas não consigo sentir culpa quando me lembro da voz grave me mandando pegar o paletó. O tipo de voz que me faz desejar obedecer, e não como uma santa. Meu pai não estava em casa quando cheguei, e Maria abriu a porta para mim. Eu posso confiar nela para guardar este pequeno segredo, até porque nada parecido irá se repetir. Nem hoje, nem nunca. - Acorde, moça – Maria diz, e eu tenho certeza de que ela irá abrir todas as cortinas nos próximos cinco segundos – seu pai estará de volta em vinte minutos. Abro os olhos pesados, e então contemplo as cortinas que, de fato, estão sendo abertas pelo controle na mão de Maria. Ela é uma senhora de sessenta anos, com todos os fios grisalhos e a pele bem enrugada. Seu uniforme é azul claro, assim como seus olhos. Maria é como uma avó para mim, algo que eu nunca tive. Se bem que eu não tive muitas coisas na minha vida tratando-se de família. - Seu pai estará de volta em vinte minutos – ela repete. Ao que parece, meu pai teve uma reunião de urgência no centro de Nova Iorque, então decidiu ficar em um de seus apartamentos. Isso me garantiu cobertura para a noite de ontem, que, claro, nunca mais se repetirá. Me levanto e arrasto meu corpo cansado até o banheiro. Eu realmente passei toda a madrugada rezando. No entanto, que Deus me perdoe, isso não mudou o ardor na minha pele quando penso no desconhecido. Talvez tenha até piorado. Mas se até mesmo Jesus foi tentado, por que eu não seria? Maria já deixou a banheira cheia para meu primeiro banho do dia, e escolheu a essência de rosas vermelhas. Simplesmente a melhor de todas. Eu me livro do pijama e entro na água quente. O cheiro floral me cerca, mas tudo que eu consigo sentir é o cheiro dele impregnado em mim como se fosse uma segunda pele. E não sei se eu realmente sou capaz de sentir o cheiro de seu paletó ou se estou apenas delirando. Ambas opções são horríveis. ** Desço as escadas de casa e caminho até o jardim lateral, onde normalmente tomamos café da manhã. Todos os funcionários já começaram suas funções: Peter está próximo à porta, esperando até que eu esteja pronta para irmos até a igreja. Eu aceno para ele, em seguida caminho até a área externa. Benjamin Campbell está sentado na cabeceira da mesa, seus olhos fixos no jornal diante de si. Papai é um homem bonito para sua idade. Ele é meu completo oposto. Meu cabelo é loiro, enquanto o seu é preto. Seus olhos são castanhos, os meus são alguma coisa entre o verde e amarelo. Talvez minha semelhança com a mamãe seja a coisa que ele mais odeia em mim. Houve um tempo em que Genevieve desejou ser a próxima Sra. Campbell, mas eu fui totalmente contra. E, claro, meu pai nunca lhe deu atenção. Tudo que tem a atenção de Benjamin são seus dólares. - Bom dia, papai. Me sento ao seu lado direito, como sempre. Ele está bebendo café preto, e eu prefiro chá. O desconhecido foi suficiente para deixar meu corpo eletrizado pelos próximos meses, não preciso de cafeína. - Você perdeu sua aula de piano – papai comenta. Qualquer pessoa poderia dizer que ele está apenas me lembrando, mas eu passei os últimos dezoito anos convivendo com seu tom falsamente calmo. Benjamin está bravo, e certamente dirá ao professor para exigir mais de mim, só para que eu não me esqueça das minhas obrigações outra vez. - Eu sinto muito. - Minha secretária irá remarcar para amanhã de manhã – ele não desvia os olhos do jornal. - Está bem - começo a bebericar o chá de delicioso canela. - Como foi sua noite? – e assim que ele pergunta, eu me engasgo. - Boa. Eu saí com Genevieve, como o senhor sabe, depois voltei para casa e rezei. Não é totalmente mentira, é? - Você não está mais lendo antes de dormir? - Eu queria dedicar mais tempo a Deus – isso também não é mentira, só não é toda a verdade. - Não se esqueça de que Deus não fará você se tornar uma gênia. Seus estudos irão. Antes, eu me sentia muito m*l quando meu pai ficava desapontado. Eu chorava após cada um de seus sermões. Mas depois eu aprendi que não é meu arrependimento que ele quer; é minha melhora. Então toda vez que ele não está contente com algo, eu busco fazer melhor. - Eu sei. - Assim que você chegar da missa, tire a tarde para colocar suas leituras em dia. Meu pai bebe o último gole de seu café e se levanta. Ele já está usando um terno azul e gravata, o que indica que irá para o trabalho. - O senhor não irá para a missa? - Eu tenho uma reunião hoje, mas irei amanhã. Papai ajeita a gravata preta, depois começa a caminhar para dentro de casa. Às vezes, eu gostaria de não ter que tomar café da manhã no jardim, mas ele adora ouvir o som do riacho que passa na propriedade. E mesmo quando ele não está, eu tenho que ficar. - Skyla? – ergo os olhos para meu pai, próximo à porta, quando ele diz - Não se esqueça de confessar. E como se o próprio Deus estalasse os dedos, eu deixo de sentir fome. Eu já me confessei para Deus, por que preciso fazer a mesma coisa diante do Padre Walker? O que ele poderia fazer por mim, além de dizer que eu fiz algo extremamente errado ao entrar no carro de um estranho? Isso para não mencionar que papai e Padre Walker são amigos. Sempre que eu me confesso, Benjamin fica sabendo. Me levanto da enorme mesa intocada e caminho para dentro de casa. Penso no que eu poderia fazer para evitar o confessionário. No entanto, se eu não for, papai saberá. E, até onde ele sabe, não há motivos para eu não me confessar. Que Deus me ajude, mas eu tenho que me confessar, e tenho que dizer a verdade. - Podemos ir, Peter? – peço ao senhor de terno e boina de chofer. - Como quiser, senhorita. Quando alcançamos a parte externa da casa, eu ridiculamente olho para o local onde o carro do desconhecido estava estacionado ontem, como se, de alguma forma estúpida, ele fosse estar ali me observando com seus lindos olhos azuis. O Rolls Royce está estacionado em frente à mansão Campbell, e eu entro no carro quando Peter abre a porta para mim. Outra coisa que eu adoraria mudar em minha vida. Ser servida e bajulada o tempo todo pode ser bom, não vou negar, mas também me invalida constantemente. Peter parte em direção à igreja, que não fica longe de casa. É um templo grande e pomposo, feito exatamente para a elite. É um lugar onde pessoas com pouco dinheiro não se sentiriam bem. Até os benditos cálices são feitos de ouro puro. A parte boa é que eu posso me encontrar verdadeiramente com Deus, independentemente do quão corrompidas as outras pessoas sejam. Mas, neste ponto, eu também sou corrompida. Só de lembrar dos olhos daquele homem em mim, fixos em meus detalhes como se tivesse a obrigação de não esquecer, eu aqueço. Eu sinto fogo sob a pele ao recordar seu toque. Foi um contato inocente, mas se não fosse, eu não recuaria. Eu não queria ser a boa filha, a menina imaculada. Eu queria ser uma mulher que ele desejasse. Sim, eu preciso de confessar. Chegamos ao tempo após dez minutos. Peter abre a porta para mim diante da igreja. É a manhã de uma sexta-feira, então eu não acredito que esteja cheia. Eu posso ver a missa e depois me confessar. - Obrigada. O gramado cercando a igreja está molhado após a chuva de ontem, o que o deixa ainda mais bonito. As paredes do templo são brancas, mas as pilastras de sustentação são douradas. Caminho com meus saltos baixos e vestido vermelho para dentro de igreja. E, como esperado, não está cheia, mas vejo muitos rostos novos. Há um conjunto de senhoras nas primeiras fileiras, que sempre estão presentes. Parece que elas não fazem outra coisa, além de acompanharem cada passo do Padre Walker. Algumas mulheres realmente jovens estão nos últimos bancos. São recém-casadas, vizinhas adolescentes, e mães novas. Um conjunto que eu nunca vi em outra missa e, acredite, eu acompanho muitas missas. Sou quase como uma das senhoras que sempre seguem o Padre Walker. Mesmo não entendendo a movimentação de hoje, sigo meu caminho até a primeira fileira. Me ajoelho diante do banco e começo a falar com Deus antes de falar com o padre. Por favor, por favor, não permita que ele conte ao meu pai. Eu posso rezar mais, e até mesmo começar a cantar com o couro da igreja. Eu posso doar toda minha mesada para o abrigo de pessoas carentes. Eu posso me afastar de Genevieve e nunca mais aceitar seus convites. Apenas, por favor, não deixe meu pai saber. - Bom dia, irmãos – o padre diz, e então eu me levanto. Walker é um senhor com pouca idade. É um dos padres mais jovens que eu conheço. Seu cabelo é preto, nem começou a ficar grisalho ainda. Sua pele tem poucas rugas, e seus olhos castanhos são joviais. Ele deve estar entre os quarenta e cinquenta anos. E se não fosse um padre, certamente estaria na lista de Genevieve. A missa começa e segue de maneira tranquila, como sempre. O Padre Walker fala sobre a importância de ser transparente com Deus. Bem, isso é tudo que eu estou tentando ser desde ontem. Mas ser transparente é ser honesta. E, sendo honesta, eu não me arrependo. Eu me atrevo a dizer que faria de novo. É por isso que peço aos céus para nunca mais ver aquele homem. Ele instiga meu pior lado. A garota correta sai de cena e uma rebelde entra em ação. Tudo que eu reprimi por toda minha vida floresce quando eu me lembro dele. - A próxima missa será no domingo pela tarde. O confessionário estará aberto hoje e amanhã – e com as últimas palavras do Padre Walker, a missa chega ao fim. Este pode ser o meu fim também. Eu irei confessar meu pensamentos das últimas horas, e então o Padre irá correr até seu celular e contar tudo ao meu pai. E talvez seja isso que eu mereço. Eu vou esperar lá fora até que a igreja e confessionário estejam vazios, depois vou chocar o padre com meus pensamentos pecaminosos. Me levanto e viro em direção à saída, mas antes que eu possa começar a andar, sou atingida pela visão dele. Ele. Na primeira vez, eu jurei que estava vendo um anjo caminhar para mim. Seu rosto bonito demais para ser real, do tipo que eu não encontraria nem em uma revista, me deixou atordoada. E é exatamente isso que acontece agora. Na luz do dia, sem toda aquela chuva e situação desconfortável, ele parece ser ainda mais bonito do que eu me lembrava. Seus traços são mais detalhados do que a noite me permitiu ver. O homem está de pé na fileira aposta a que eu estou, e não parece estar pronto para abandonar o templo. Ele usa um terno preto e camisa branca, com o paletó aberto e sem gravata. Seu corpo é um convite ao pecado, e o Padre Walker deveria proibir este homem de entrar na igreja. Agora a visita de todas as mulheres jovens e religiosas está explicada. Elas passam por ele, sorriem como se não estivessem sendo mais do que educadas, depois saem balançando os quadris em seus vestidos. O desconhecido não parece estar interessado nelas. Seu rosto está voltado para a imagem da Virgem Maria no altar, e eu poderia dizer que sua mente está rezando. Ele está falando com Deus, não oficialmente, mas da mesma forma que eu faço algumas vezes. E embora eu pudesse, e quisesse, passar o resto do dia admirando ele, começo a caminhar para fora da igreja. Na verdade, é extremamente fácil caminhar na direção dele, como se sua beleza fosse ímã. Deus, obrigada por não deixar que minhas pernas moles tropecem. A igreja já está parcialmente vazia. Todos saíram, exceto as senhoras seguidoras do Padre Walker que ficarão para se confessar. Por isso, enquanto eu caminho, meus saltos fazem pequenos ruídos, que reverberam pelas paredes do templo. E talvez seja isso que faz o homem olhar para mim. Ele desvia os olhos da imagem de porcelana no altar e me encara. De início, não tem interesse em seu olhar. É como se ele estivesse apenas querendo saber quem está atrapalhando seu momento. Mas depois de fixar os olhos no meu rosto, daquela maneira que deixa minha pele quente, ele parece me reconhecer. Eu deveria sorrir e continuar andando, mas a parte pecadora de mim me guia para perto dele. Seu olhar continua em mim durante todo o percurso. Ele analisa meus olhos, depois meu cabelo solto, em seguida parte para minhas pernas. Agradeço à Maria por ter escolhido um belo vestido para esta manhã. Eu realmente não gostaria de estar vestida como uma freira. Me aproximo dele, mas não muito, apenas o suficiente para estender a mão e o cumprimentar. E que Deus me perdoe, mas eu me sinto ainda mais quente. - Skyla – digo. Afinal, não trocamos nomes na última noite. Por alguma razão, eu evito dizer meu sobrenome. O nome da minha família é associado ao bom comportamento e etiqueta exímia. Ninguém soube de um Campbell m*l sucedido, ou que frequenta boates para comemorar o próprio aniversário. Eu quero que este homem me conheça de uma forma diferente de tudo que já me taxaram. - Skyla – ele repete, testando o nome em sua língua. Eu sei que não importa, mas a parte pecadora de mim (que só floresceu depois de conhecê-lo) deseja saber se este homem gosta do meu nome. Eu, certamente, gosto do meu nome quando está saindo de seus lábios. - Quinta na boate, sexta na igreja. Você é uma mulher de equilíbrio – ele comenta, e eu não sei se está brincando ou repreendendo. - Eu prefiro a igreja. - Então a última noite deve ter gerado muito arrependimento – ele diz, e então, só então, aberta minha mão estendida – Bruce Blaker. Seus longos dedos apertam minha palma com firmeza, mas também com uma delicadeza impressionante. Os céus vão me odiar, mas eu imagino seu toque em outras partes de mim. Imagino seu toque forte e seus olhos presos nos meus, captando cada uma das minhas reações, sabendo exatamente como eu me sinto. Bruce. Bruce Blaker. Claro, um homem como este não teria um nome menos do que fantástico. - Bruce – repito, porque ele fez a mesma coisa com meu nome – você é um homem religioso? - Apenas quando não estou pecando – sua resposta me faz sorrir, porque ele parece ser o tipo de homem que vive pelo pecado. Na verdade, parece que os pecados só passaram a existir depois dele – eu preciso ir, Skyla – ele comenta. Neste momento, eu me sinto ridícula, pois percebo que estive segurando sua mão por mais tempo do que precisava, e a solto rapidamente. - Claro. Me desculpe. O único caminho pelo qual Bruce pode passar é ao meu lado, e é este mesmo que ele toma. O até então desconhecido (agora conhecido), se aproxima, e eu instintivamente viro de lado, para lhe abrir mais espaço. Espero que ele passe por mim, contudo, em vez disso, ele para. Bruce para ao meu lado e leva os lábios até meu ouvido. - Não peça desculpas quando você não se arrepende – sua voz está especialmente rouca agora. Peter terá que me buscar dentro da igreja, porque minhas pernas não voltarão a funcionar. Bruce se afasta de mim, e eu não deixo de olhar para ele quando sai do templo. Ele sai, mas seu perfume continua comigo. Talvez nunca tenha saído da minha cabeça, aliás. Me inclino contra o banco mais próximo. Quem lhe deu poder para fazer isso comigo? Bruce é um homem mais velho e experiente. Eu não digo isso por sua aparência, e sim por sua personalidade. Ele chega e, de repente, tudo ao seu redor se torna pouco para comparar. Bruce não é como os garotos que eu conheço, ou como o filho do senador. Ele é muito mais. O padre Walker sai do confessionário com a última senhora, e então somos apenas eu e ele dentro da igreja. - Você vai se confessar, Srta. Campbell? – não é uma pergunta, ele sabe que sim. Quando você entra no confessionário, sabendo que precisará revelar seus pecados e esperar uma punição, não é como se Deus estivesse lhe castigando. É como se o mundo estivesse. Deus já o perdoou, mas o padre ainda não. O padre tem a necessidade de dizer que você errou, como se ele mesmo nunca errasse. Sim, eu vou me confessar. E que Deus me perdoe, mas eu não vou dizer a verdade. O Padre Walker é um bom homem, mas não posso confiar nele para guardar meus segredos. Especialmente depois deste encontro. Agora minha pele arde ainda mais ao me lembrar de Bruce, e eu sequer posso dizer que este sentimento é r**m. - Sim, Padre Walker. ** Eu nunca cuidei de mim mesma. Eu nunca me amei como, de fato, merecia. Eu sempre precisei de um amor barato para me qualificar. O meu valor sempre esteve nas mãos de quem eu acreditava me amar. Porque se não me amassem, era porque eu não merecia. Desde pequena me sentia meio... insignificante. Ah, eu me lembro de muitas coisas que ouvi quando ainda era uma garotinha. E depois delas eu nunca mais consegui ser boa. Eu coloquei meu valor em competições; sempre querendo ser melhor em tudo para me sentir suficiente. Sempre querendo provar para os outros que eu era inteligente, bonita, desejada. Sempre querendo dar motivos para que me admirassem. Eu só queria ouvir de alguém que eu amava um "estou orgulhoso". Mas eu sempre sinto que ignoram ao máximo minhas qualidades. Bem, eu já me prometi que não aceitaria migalhas. Nunca. Se não transbordasse, não seria suficiente para mim. Mas, infelizmente, pessoas que não se amam não conseguem se respeitar. Eu não me amava, então não seria capaz de me preservar da dor. E não só aceitava migalhas, como também implorava por elas. Cada gotinha de amor... eu guardei enquanto dava oceanos de mim. Eu escrevia várias mensagens quando estava longe, dizia que estava com saudades. Mas você... ah, você não queria parecer desesperado. Eu queria seu desespero fazendo par com o meu, indicando que você se importava tanto quanto eu. Você nunca se declarou. Quando dizia uma dúzia de palavras bonitas já fazia eu me derreter toda. E eu com meus textos enormes explicando cada centímetro do meu amor quilométrico. Você nem se esforçou para ser metade do que eu fui. Eu estava sempre atrás de você depois das brigas. Eu ficava desesperada pra falar com você, sempre pensando em como se sentia naquele momento. Você pensava em si mesmo e eu pensava em você... ninguém pensava em mim. Eu peguei o celular de outras pessoas quando me bloqueou, eu liguei quando apagou meu número, eu escrevi textos quando não queria falar comigo, eu usei outras redes sociais para te alcançar quando se afastou. Você nunca faria isso por mim. Eu gostava das migalhas que você deixava no caminho enquanto eu ia atrás de você. Eu me enganava dizendo que ia te esquecer, mas sabia que queria estar perto... mesmo que fosse me maltratar. Eu era seu cachorrinho ao lado da mesa, dando toda atenção possível para receber um cafuné. E o pior é que eu achava que estava ganhando muito. Eu não jogava, mas instalei seu jogo favorito pra te agradar. Eu não sabia jogar, era toda atrapalhada e sabia que não daria em nada. Mas eu fiz isso por você, porque me pediu. Em compensação, eu sempre te falei sobre as fotos, sobre o que queria que comentasse nelas. Mas não comentou... nem curtiu. Mas as fotos da sua ex sim. Eu não via nada disso, estava ocupada demais pensando num futuro contigo. Eu passei por cima de mim mesma por você, me quebrei exatamente como você disse que eu faria. Eu já cheguei a implorar por seu amor, literalmente. Eu me sinto humilhada até hoje só de pensar nisso, porque eu te amei sem precisar que pedisse. Você dizia que não via as coisas quando estava com raiva. Dizia o que viesse na cabeça sem medo de me magoar. Quer saber, sempre machucou, mas eu não me importava com as facadas que me dava, só com os arranhões que eu fazia em você. Eu pensava "ele está bravo" e minutos depois estava de joelhos na sua frente novamente. Eu acreditei quando disse que eu era diferente... Eu me joguei do precipício pra acalentar sua queda. Eu cuidei de você quando a doente era eu. Eu passei pelo que eu sentia, porque seu coração valia mais que o meu. Eu te amei quando me tratou m*l, pedi desculpas por coisas que não fiz, disse "tudo bem" com o coração doendo. Você nunca ligou pra mim de verdade. Você me quebrava e se afastava. Eu juntava os pedaços para ir atrás de você, pra me entregar de novo. Eu só via você no reflexo, e então deixei de olhar para mim mesma. Você disse que faria qualquer coisa por mim. Eu acreditei em você. Eu me agarrei a você com tanta força que acreditaria em tudo que dissesse. A verdade é que você não faria nada por mim que te fizesse sair da sua zona de conforto. Eu te disse todas minhas inseguranças... expliquei cada detalhe meu que me tornava sensível. Eu te contei minhas dores, só pra você fazer doer mais ainda. Você aguçou todos meus problemas e fez deles traumas. Eu te disse que não me sentia amada... Você fugiu de mim... Você não me amou quando eu precisava disso. Você achou que era obrigação minha tirar amor de você, me sentir amada e cuidada. Não era... Você nunca citou meus detalhes. Nunca disse algo sobre mim que gostava, algo pequeno e único. Se eu era tão diferente, queria que me dissesse isso, que me mostrasse isso. E este é o tipo de tratamento que nunca vou ter de você. Tudo que eu fiz por nós foi em vão, porque eu descobri que não faria a metade. Eu cuidei das suas dores. Eu mudei pra te fazer sentir melhor. Eu abracei suas causas pra deixar de doer em você. Às vezes estava doendo em mim, sim, mas eu não me importava em cuidar do seu sofrimento primeiro. Você estava sempre certo e eu errada... eu acreditei nisso de verdade. Acreditei que só você merecia cuidado, porque nunca havia errado comigo. Mas quando chegou a minha vez, era só "exagero". Você não cuidou de mim, mas tudo bem, nem eu cuidei. Você não me procurou... Você não veio atrás de mim... O que eu faria seria isso. Eu iria insistir até você jogar uma migalhinha de amor para eu sustentar minhas esperanças. Mas aí é que está o problema... eu nunca te dei migalha de amor, então você nunca teria que pedir por isso. Eu me apaixonei por uma mentira que criei na minha cabeça. Eu inventei palavras não ditas e meu coração ficou quentinho com a possibilidade de ser real. Eu te amei tanto que amei por nós dois. Cuidei tanto das suas feridas que cheguei a pensar que estava cuidando de mim na mesma medida. Eu menti... Eu menti pra mim mesma... Eu menti pra mim mesma quando acreditei que me amava. E está tudo bem, ou vai ficar. Eu sou uma garota incrível demais pra se perder. Não garanto que irá se sentir um perdedor, mas garanto que você será um, porque perdeu a minha melhor versão. Você perdeu o melhor que eu poderia ser, o mais apegada e apaixonada. Você perdeu uma parte de mim que poucas pessoas tiveram, e nenhuma soube valorizar. Você perdeu a garota que faria de tudo por você, simplesmente porque não fez nada por ela.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR