Capítulo 10

611 Palavras
A primeira consequência da aliança veio silenciosa. Não houve ataque, nem gritos, nem fogo rasgando o céu. Houve apenas ausência. Dragões que antes cruzavam as montanhas ao amanhecer permaneceram recolhidos. Rotas antigas foram evitadas. Olhares deixaram de se encontrar. O Reino de Cristal aprendera uma nova forma de tensão: a desconfiança organizada. Aethon sentia isso no ar. Lyren pousou ao seu lado, o bater das asas mais contido do que de costume. — O conselho se reuniu sem anunciar — disse ele. — Draco falou. Aethon não precisou perguntar o conteúdo. — Ele quer me afastar. — Quer mais do que isso — completou Lyren. — Quer um exemplo. O peso da palavra caiu entre eles. Enquanto isso, no vilarejo, Rute observava homens reforçando cercas e recolhendo ferramentas do campo antes do pôr do sol. A noite, antes tranquila, tornara-se sinônimo de risco. — Não era assim — murmurou a anciã. — Desde a reunião, tudo mudou. — Mudanças assustam — respondeu Rute. — E custam — completou a mulher. Quando o sol começou a se esconder, um mensageiro dragônico desceu abruptamente próximo às montanhas baixas. Kaelith foi o primeiro a chegar. — Aethon — disse, sem rodeios. — Xanadu convocou você. O silêncio que se seguiu foi denso. — Agora? — perguntou Lyren. — Agora. Aethon respirou fundo. — Diga a Rute que não se aproxime esta noite. Kaelith hesitou. — Você acha que ele… — Não sei — respondeu Aethon. — E isso é o mais perigoso. O santuário do conselho estava iluminado apenas pela luz natural do cristal. Xanadu aguardava no centro, imponente. Draco encontrava-se à direita do pai, rígido como uma lâmina. — Você desobedeceu ordens — começou Xanadu, sem preâmbulos. — Eu evitei mortes — respondeu Aethon. — Você criou precedentes — retrucou Draco. — Dragões já pousam perto de humanos sem permissão. — Com respeito — rebateu Aethon. Draco avançou um passo. — Respeito não impede lanças. Xanadu ergueu a cabeça. — Basta. O silêncio voltou. — Aethon — disse o pai — sua escolha dividiu o reino. — O reino já estava dividido — respondeu ele. — Apenas fingíamos não ver. Xanadu o encarou longamente. — Você está disposto a pagar o preço dessa visão? Aethon não respondeu de imediato. Pensou em Rute no santuário e nos dragões feridos pelas histórias incompletas. — Estou — disse, por fim. Draco soltou um riso curto. — Então que o preço seja justo. Xanadu fechou os olhos por um instante. — Aethon, príncipe do Reino de Cristal — declarou — você está suspenso de suas funções. O ar pareceu quebrar. — Até que prove — continuou Xanadu — que suas alianças não levarão à ruína. Aethon sentiu o golpe, mas manteve-se ereto. — Aceito. Draco o encarou, surpreso. — Você abre mão de sua posição com tanta facilidade? — Abro mão de títulos — respondeu Aethon. — Não de convicções. Xanadu inclinou levemente a cabeça. — Então vá — disse. — Caminhe entre aqueles que escolheu proteger. Aethon virou-se e partiu sem olhar para trás. No vale, Rute sentiu o céu mudar antes mesmo de vê-lo. — Aconteceu algo — disse ela. Aethon pousou diante dela, cansado. — Fui afastado. Rute engoliu em seco. — Por minha causa? — Por causa da verdade — respondeu ele. Ela se aproximou. — Eu não queria que você perdesse tudo. Aethon baixou a cabeça até ficar na altura dela. — Algumas escolhas exigem perda — disse. — Outras criam caminho. Do alto, Draco observava, distante. — Ele escolheu — murmurou. Xanadu permaneceu em silêncio. No Reino de Cristal, o preço fora cobrado. E a história acabara de mudar de rumo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR