A primeira consequência da aliança veio silenciosa.
Não houve ataque, nem gritos, nem fogo rasgando o céu. Houve apenas ausência.
Dragões que antes cruzavam as montanhas ao amanhecer permaneceram recolhidos. Rotas antigas foram evitadas. Olhares deixaram de se encontrar. O Reino de Cristal aprendera uma nova forma de tensão: a desconfiança organizada.
Aethon sentia isso no ar.
Lyren pousou ao seu lado, o bater das asas mais contido do que de costume.
— O conselho se reuniu sem anunciar — disse ele. — Draco falou.
Aethon não precisou perguntar o conteúdo.
— Ele quer me afastar.
— Quer mais do que isso — completou Lyren. — Quer um exemplo.
O peso da palavra caiu entre eles.
Enquanto isso, no vilarejo, Rute observava homens reforçando cercas e recolhendo ferramentas do campo antes do pôr do sol. A noite, antes tranquila, tornara-se sinônimo de risco.
— Não era assim — murmurou a anciã. — Desde a reunião, tudo mudou.
— Mudanças assustam — respondeu Rute.
— E custam — completou a mulher.
Quando o sol começou a se esconder, um mensageiro dragônico desceu abruptamente próximo às montanhas baixas. Kaelith foi o primeiro a chegar.
— Aethon — disse, sem rodeios. — Xanadu convocou você.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— Agora? — perguntou Lyren.
— Agora.
Aethon respirou fundo.
— Diga a Rute que não se aproxime esta noite.
Kaelith hesitou.
— Você acha que ele…
— Não sei — respondeu Aethon. — E isso é o mais perigoso.
O santuário do conselho estava iluminado apenas pela luz natural do cristal. Xanadu aguardava no centro, imponente. Draco encontrava-se à direita do pai, rígido como uma lâmina.
— Você desobedeceu ordens — começou Xanadu, sem preâmbulos.
— Eu evitei mortes — respondeu Aethon.
— Você criou precedentes — retrucou Draco. — Dragões já pousam perto de humanos sem permissão.
— Com respeito — rebateu Aethon.
Draco avançou um passo.
— Respeito não impede lanças.
Xanadu ergueu a cabeça.
— Basta.
O silêncio voltou.
— Aethon — disse o pai — sua escolha dividiu o reino.
— O reino já estava dividido — respondeu ele. — Apenas fingíamos não ver.
Xanadu o encarou longamente.
— Você está disposto a pagar o preço dessa visão?
Aethon não respondeu de imediato.
Pensou em Rute no santuário e nos dragões feridos pelas histórias incompletas.
— Estou — disse, por fim.
Draco soltou um riso curto.
— Então que o preço seja justo.
Xanadu fechou os olhos por um instante.
— Aethon, príncipe do Reino de Cristal — declarou — você está suspenso de suas funções.
O ar pareceu quebrar.
— Até que prove — continuou Xanadu — que suas alianças não levarão à ruína.
Aethon sentiu o golpe, mas manteve-se ereto.
— Aceito.
Draco o encarou, surpreso.
— Você abre mão de sua posição com tanta facilidade?
— Abro mão de títulos — respondeu Aethon. — Não de convicções.
Xanadu inclinou levemente a cabeça.
— Então vá — disse. — Caminhe entre aqueles que escolheu proteger.
Aethon virou-se e partiu sem olhar para trás.
No vale, Rute sentiu o céu mudar antes mesmo de vê-lo.
— Aconteceu algo — disse ela.
Aethon pousou diante dela, cansado.
— Fui afastado.
Rute engoliu em seco.
— Por minha causa?
— Por causa da verdade — respondeu ele.
Ela se aproximou.
— Eu não queria que você perdesse tudo.
Aethon baixou a cabeça até ficar na altura dela.
— Algumas escolhas exigem perda — disse. — Outras criam caminho.
Do alto, Draco observava, distante.
— Ele escolheu — murmurou.
Xanadu permaneceu em silêncio.
No Reino de Cristal, o preço fora cobrado.
E a história acabara de mudar de rumo.