A mudança não foi anunciada.
Ela veio no cheiro do ar.
Aethon sentiu antes de ver. Um odor metálico, antigo, misturado à eletricidade contida que precedia movimentos militares entre dragões. Não era curiosidade. Não era vigilância.
Era decisão.
Ele estava nas colinas baixas quando o vento mudou de direção. As árvores estremeceram, e pássaros levantaram voo em bandos apressados.
— Eles estão vindo — murmurou.
Rute, que recolhia galhos secos próximos ao abrigo improvisado, ergueu a cabeça.
— Quem?
Aethon fechou os olhos por um instante.
— Dragões do conselho, não todos, os que acreditam que o medo precisa ser contido com força.
Rute sentiu o estômago se apertar.
— Por sua causa?
— Pela ideia que represento — corrigiu ele.
Não havia tempo para longas explicações.
Aethon empurrou com cuidado uma grande pedra, revelando uma f***a estreita na rocha, coberta por raízes.
— Se eu disser para correr, você corre — disse. — Sem discutir.
Rute assentiu, pálida.
O primeiro rugido cortou o céu como uma lâmina.
Depois outro.
E mais um.
Três sombras surgiram entre as nuvens, voando baixo, em formação. Não vinham para conversar.
— É uma caçada — sussurrou Rute.
— A primeira — confirmou Aethon.
Ele avançou para o campo aberto deliberadamente.
Se fugisse agora, confirmaria cada acusação.
Se lutasse, destruiria tudo o que vinha tentando construir.
As sombras pousaram com força.
O primeiro dragão tinha escamas escuras como carvão e olhos duros.
— Aethon, filho de Xanadu — declarou. — Você foi convocado e não respondeu.
— Eu não fui convocado — respondeu Aethon. — Fui silenciado.
O segundo dragão rosnou.
— Suas ações atraíram humanos para onde não deveriam estar.
— Eles já estavam aqui — rebateu Aethon. — Apenas aprenderam a não se esconder.
O terceiro dragão deu um passo à frente.
— Você será escoltado de volta ao conselho.
Rute saiu da sombra antes que Aethon pudesse impedi-la.
— Ele não fez nada errado! — gritou.
O dragão de carvão baixou o olhar para ela.
— Humana — disse, com desprezo contido. — Afaste-se.
Aethon abriu uma asa à frente dela.
— Ela fica.
O ar ficou pesado.
— Está protegendo humanos agora? — provocou o dragão.
— Estou protegendo escolhas — respondeu Aethon.
Por um instante, ninguém se moveu.
Então, um quarto som cortou o ar.
Não um rugido.
Um aviso.
Lyren surgiu entre as árvores, pousando com firmeza.
— Esta não é uma captura legítima — disse. — Xanadu não autorizou força.
— Autorizou observação — rebateu o dragão de carvão. — E observamos o suficiente.
Kaelith apareceu logo depois, ofegante.
— Vocês estão acelerando o que não entendem — disse.
O líder da caçada abriu as asas.
— A decisão foi tomada.
O fogo começou a se formar na garganta de um dos dragões.
Rute recuou, assustada.
Aethon sentiu o impulso primitivo despertar.
Mas conteve.
Ele avançou um passo.
— Se querem me levar — disse — eu irei.
Rute o encarou, desesperada.
— Não!
— Se eu lutar — continuou ele — vocês dirão que tinham razão. Se eu for… talvez ainda exista escolha.
Lyren rosnou baixo.
— Isso é uma armadilha.
— Toda ponte é — respondeu Aethon.
O dragão de carvão aproximou-se.
— Você virá agora.
Antes que pudesse tocá-lo, uma voz ecoou do alto.
— Parem.
O céu pareceu se abrir.
Xanadu desceu lentamente, sua presença esmagadora silenciando tudo ao redor.
— Esta não é a forma — disse ele.
Os dragões da caçada recuaram, tensos.
— Pai — disse Aethon.
Xanadu olhou para o filho.
— Você sabia que isso aconteceria.
— Sim.
— E ainda assim permaneceu.
— Porque fugir teria sido mentir.
Xanadu respirou fundo.
— A caçada termina aqui — declarou.
O dragão de carvão inclinou a cabeça, contrariado.
— Por enquanto — acrescentou Xanadu.
Ele voltou-se para Aethon.
— O que está fazendo não pode mais ser ignorado.
— Então olhe — respondeu Aethon.
Xanadu olhou para Rute.
Depois para os humanos que observavam à distância.
Depois para os dragões divididos.
— O reino está mudando — disse. — E mudanças cobram preço.
Aethon assentiu.
— Eu pagarei.
Xanadu subiu novamente aos céus.
A caçada dispersou-se.
Mas ninguém acreditava que aquilo fosse o fim.
Rute correu até Aethon.
— Você quase foi levado.
— Eu quase fui ouvido — respondeu ele.
No alto das montanhas, Draco observava, em silêncio.
A primeira caçada falhara.
Mas agora, não havia mais dúvida.
O conflito estava declarado.