O Primeiro Encontro
O voo de Aethon tornou-se mais lento à medida que ele se afastava das montanhas. As correntes de ar mudavam, carregando aromas diferentes — madeira queimada, pão recém-assado, terra úmida. Eram cheiros humanos. Cheiros de vida.
Lá embaixo, um pequeno vilarejo se estendia às margens de um rio claro. As casas de pedra e madeira formavam círculos irregulares, e campos cultivados cercavam o local como braços protetores. Aethon descreveu um amplo círculo no céu, mantendo-se alto o suficiente para não ser percebido.
Ou assim pensou.
— Eu sabia — murmurou uma voz fina, quase engolida pelo vento.
Aethon estremeceu.
Ele pousou suavemente atrás de uma colina coberta de flores silvestres e abaixou o corpo, atento. Seus sentidos se aguçaram. O coração bateu forte. Humanos raramente se aventuravam tão longe dos muros do vilarejo.
— Não pode ser só imaginação — insistiu a voz.
Entre os arbustos, surgiu uma criança.
Pequena, magra, roupas simples e gastas. Os cabelos escuros estavam presos de forma desajeitada, e os olhos… os olhos brilhavam como se o céu tivesse descido até ali.
Aethon congelou.
A criança também.
O silêncio se estendeu por longos segundos.
— Você — ela começou, mas engoliu em seco. — Você é real?
Aethon inclinou a cabeça lentamente. Seu instinto dizia para voar, desaparecer, manter a distância que séculos haviam imposto. Mas algo o impedia.
— Sou — respondeu, com a voz baixa e cuidadosa.
Os olhos da criança se arregalaram.
— Um dragão de verdade — sussurrou, não com medo, mas com reverência.
Ela deu um passo à frente.
Aethon abriu parcialmente uma asa, não em ameaça, mas como aviso.
— Não chegue mais perto — disse — Posso assustar você.
A criança balançou a cabeça.
— Eu não tenho medo.
Aethon sentiu o mundo inclinar.
— Todos têm medo de dragões.
— Nem todos — respondeu ela. — Eu sou Rute.
O nome pairou no ar como algo importante.
— Por que está aqui sozinha? — perguntou Aethon.
Rute deu de ombros.
— Sempre estou sozinha.
Havia algo naquela resposta que doía.
— Eles dizem que dragões queimam vilarejos — continuou ela. — Mas você não parece mau.
— E eles dizem que humanos nos caçam — respondeu Aethon. — Mas você não parece perigosa.
Rute sorriu.
— Talvez estejam todos errados.
Aethon soltou um leve som, quase uma risada.
— Talvez.
Eles ficaram ali, observando-se, como se cada um estivesse redesenhando tudo o que aprendera até aquele momento.
— Você pode voar muito alto? — perguntou Rute, de repente.
— Posso tocar as nuvens — respondeu ele.
Os olhos dela brilharam ainda mais.
— Eu sonho com isso.
— Voar?
— Ser livre — respondeu.
Aethon sentiu algo se abrir dentro do peito.
— Se alguém te vir aqui comigo, pode ser perigoso — disse ele.
Rute assentiu, séria.
— Eu sei guardar segredos.
Ao longe, vozes humanas começaram a ecoar.
— Rute! — Rute, volte agora!
Ela se sobressaltou.
— Tenho que ir.
— Voltará? — perguntou Aethon, antes que pudesse se conter.
Rute sorriu novamente.
— Se você voltar.
Ela correu em direção ao vilarejo.
Aethon abriu as asas.
Enquanto subia aos céus, percebeu que algo havia mudado.
Não no mundo.
Mas nele.
E, pela primeira vez, o céu parecia pequeno demais para conter o que sentia.