Amanda
O trajeto no carro do Hugo foi preenchido por um silêncio que pesava mais do que qualquer conversa aleatória. Não era um silêncio desconfortável, mas sim carregado de uma ansiedade que me tirava de órbita, como o ar antes de uma tempestade muito forte. Eu olhava pela janela as luzes de São Paulo passarem como borrões coloridos, sentindo meus dedos apertarem o tecido da minha saia. Minha respiração estava rasa, e cada vez que Hugo fazia para trocar a marcha, o movimento do seu braço, a visão dos seus tendões sob a pele, me fazia engolir em seco.
Quando ele parou em frente a um prédio de alto padrão nos arredores dos Jardins, meu coração deu um solavanco. O manobrista pegou a chave do carro e Hugo simplesmente colocou a mão na base das minhas costas, me guiando para o elevador. O toque era firme, possessivo, e eu sentia que se ele me mandasse pular de uma sacada agora, eu provavelmente perguntaria se deveria pular de frente, ou de costas.
O elevador subiu rápido demais, me sentia tonta, e ja me perguntava se tinha passado dos limites em relação a bebida. Quando as portas se abriram diretamente na sala do apartamento dele, eu quase perdi o fôlego. O lugar era minimalista, tecnológico e muito chique. Eu jamais, nem em meus sonhos mais profundos, imaginaria ter uma casa assim.
— Bem-vinda ao meu domínio, Amanda — ele disse, a voz ecoando suavemente. Ele não me ofereceu água ou bebida. Ele apenas tirou a jaqueta de couro, jogando-a sobre o sofá de design sofisticado, e me encarou. — Você quer ver onde a mágica acontece ou está com medo de que a realidade não supere a sua imaginação?
— Eu não tenho medo da realidade, Hugo. Eu trabalho com leis e fatos, lembra? — tentei manter o tom desafiador, mas minha voz falhou levemente no final, e eu sabia que ele leria até meu mínimo deslize.
— Perfeito, é assim mesmo que te imagino.
Ele caminhou até uma porta dupla de madeira escura no final do corredor. O segui. Ao abri, a iluminação automática se acendeu em tons de roxo profundo e azul neon. Era o estúdio. De um lado, a mesa de streaming de última geração, com microfones profissionais, três monitores e a poltrona de couro que eu reconheci de uma live que assisti por pura curiosidade. Do outro, o cenário que o público só via parcialmente, um espaço dedicado ao b**m que parecia saído de um sonho — ou de um filme porn.ográfico.
Havia uma estrutura de metal no teto para suspensão, ganchos de aço inoxidável fixados nas paredes e uma poltrona de massagem que parecia ter sido modificada para restrições. Tudo ali dentro mexia com a minha imaginação, e também com os meus sentidos. Era uma mistura entre querer ficar e querer sair correndo dali.
— Isso é... — comecei, entrando lentamente, sentindo o tapete grosso sob meus pés.
— É aqui que o Master ganha vida — ele disse, parando ao meu lado. Ele caminhou até uma parede onde vários objetos estavam pendurados de forma organizada — Esses são... são os meus brinquedos, meus objetos de cena. Gosto de enxergar como se fossem meus aliados.
Ele pegou um objeto longo, de couro trançado, com várias tiras finas na ponta.
— Isso aqui é um flogger, é só um objeto de aquecimento — ele disse, passando as tiras suavemente pelo próprio antebraço, o som do couro estalando no silêncio do quarto, quase me assustando — Ele não corta a pele, ele traz o sangue para a superfície. Ele prepara o corpo para o que vem depois. Ele faz você sentir cada centímetro do seu sistema nervoso gritando por atenção...
Ele deu um passo na minha direção, o flogger pendendo de sua mão. Eu não recuei. Pelo contrário, meu corpo parecia inclinar para ele. Eu precisaria marcar uma consulta com meu terapeuta... Tinha que levar isso para a terapia.
— E isso? — perguntei, apontando para um par de algemas de couro forradas com pele sintética preta.
Eu sabia o que era, mas minha cabeça me mandava fazer coisas, e eu precisava de uma forma para não acabar dando atenção.
— Restrições de pulso — ele respondeu, sua voz ficando mais rouca. — Elas servem para tirar a sua escolha. Quando você está nelas, você não precisa mais se preocupar com o que fazer com as mãos. Elas pertencem a mim. Você se torna um objeto de prazer, Amanda. Um objeto sob o meu cuidado.
Ele largou o chicote e pegou uma palmeta de madeira escura, pesada. Meu coração acelerou, eu imaginava que uma porra.da com isso iria... marcar, doer para um infer.no. Estou louca por querer experimentar? Por querer saber como tudo isso funciona?
— Isso aqui é para disciplina. Para quando a Pet é desobediente. — Ele bateu a palmeta contra a palma da mão esquerda. O som seco e alto me fez dar um sobressalto, e o medo que senti foi imediatamente engolido por um te.são avassalador. — Ela deixa marcas que duram dias. Marcas que lembram a você, toda vez que você se move, a quem você pertence.
Hugo parou a centímetros de mim. Eu podia sentir o calor que emanava dele, o cheiro de seu perfume misturado ao cheiro de couro novo que impregnava o estúdio. Ele levou a mão ao meu queixo, forçando a olhar diretamente nos seus olhos escuros.
— Você entende agora, Amanda? Nas lives, não mostro a intensidade da vida real, pois minhas regras vão além do que os espectadores conseguem ver. Eu não quero apenas que você participe das gravações. Eu quero que você aprenda a línguagem do meu domínio. Quero que você entenda por que gosto de punir, de recompensar e de manter a ordem.
— Você quer me testar — sussurrei, sentindo meus joelhos vacilarem.
— Eu quero te quebrar — ele corrigiu, o polegar dele roçando meu lábio inferior de forma torturante. — Quero tirar essa casca de estagiária certinha e ver o que sobra quando você não tem mais regras para seguir, apenas ordens para cumprir.
Ele soltou meu queixo e suas mãos desceram para a minha cintura, puxando para perto, eliminando qualquer espaço que restava entre nós. Meu corpo colou no dele, e eu pude sentir a rigidez sob sua calça, a prova física de que ele estava tão afetado quanto eu. Entendi naquele momento que o queria, o queria de verdade...
— O não se passa em sua cabeça depois de ver tudo, Amanda? — ele perguntou, o hálito dele batendo na minha orelha, fazendo estremecer por inteiro. — Se quiser, a porta está aberta. Mas se ficar... se você deixar que eu te mostre o que sou capaz de fazer... você nunca mais será a mesma.
— Eu não quero ir embora — confessei, minha voz m*l saindo — eu quero saber o que significa ser submissa.
Hugo não esperou mais. Ele selou meus lábios com um beijo que não tinha nada de gentil. Era um beijo de posse, de fome acumulada. Sua língua invadiu minha boca com uma autoridade que me deixou sem defesas. Minhas mãos, por puro instinto, subiram para os seus ombros, apertando o tecido da sua camisa, enquanto eu tentava me fundir a ele.
Ele me pressionou contra a parede de equipamentos, o frio do metal nas minhas costas contrastando com o calor incendiário do seu corpo. Suas mãos desceram para as minhas coxas, levantando-me com uma força bruta, e eu entrelacei minhas pernas em sua cintura sem hesitar.
— Você é tão pequena nos meus braços — ele murmurou entre beijos vorazes que desciam pelo meu pescoço, deixando marcas que eu sabia que teria dificuldade para esconder na segunda-feira — Tão responsiva...
Ele me colocou sobre a mesa de som, afastando o microfone e alguns cabos com um movimento impaciente. Suas mãos subiram pela minha saia, encontrando a renda da minha calcinha, e o toque de seus dedos quentes contra a minha pele úmida me fez soltar um gemido abafado contra o ombro dele.
— Você está tão pronta para mim, pequena — ele rosnou, o título saindo de sua boca como uma benção, mas o que eu queria mesmo, era que fosse a po.rra de uma maldição.
Hugo me puxou de volta para ele, seus lábios encontrando os meus novamente em uma pegada feroz, urgente. Suas mãos exploravam meu corpo com a precisão de quem conhece cada ponto de gatilho. Eu estava finalmente acessando uma parte minha que estava desconhecida. Os motivos de achar que não existia homem nesse mundo para mim me invadindo... eu realmente não gostava do comum, do normal, e isso me fazia cansar de homens, me fazia ter preguiça de conhecer homens... e agora tudo fazia sentido. Tudo o que eu precisava era de um mestre... Era o Hugo...
A pegada era quente, pesada, cheia de uma ferocidade gostosa. Eu estava rendida, e pela primeira vez na vida, a falta de controle era o paraíso.
Eu queria... Queria mais do que tudo... Queria ser comandada.