O relógio marcava pouco depois da meia-noite quando a ligação foi atendida.
— Você demorou. — A voz de Lorel era baixa.
Do outro lado, houve um breve silêncio antes da resposta surgir, arrastada, como se a pessoa tivesse acabado de acordar.
— Eu não costumo atender ligações suas nesse horário… isso normalmente significa problema.
— E significa mesmo.
Lorel não perdeu tempo. Ele não era homem de rodeios — não quando algo o incomodava daquele jeito.
— Preciso que levante tudo sobre um nome: Nerone Donati.
Outro silêncio. Mais longo dessa vez.
— Donati… — repetiu a voz, como se testasse o peso do sobrenome. — Isso pode ficar complicado.
Ninguém em sá consciência tinha coragem de instigar os Donati, Dom Aurélio não gostava e quando encontrava a pessoa os seus métodos eram bem mais do que cruéis.
— Ótimo. — Lorel se recostou na cadeira, os olhos fixos na fotografia sobre a mesa. — Significa que estou no caminho certo.
Ele passou os dedos pela madeira, impaciente.
— Quero tudo. Registros oficiais, extraoficiais… qualquer buraco que esse garoto tenha deixado no mundo. Família, histórico médico, nascimento, deslocamentos. E, principalmente… — sua voz caiu ainda mais — qualquer inconsistência.
— Você suspeita de quê?
Lorel demorou um segundo para responder.
O seu olhar voltou para a imagem da jovem na piscina.
— Eu suspeito que ele não seja quem diz ser.
Do outro lado, ouviu-se um leve suspiro. Conhecia o amigo, e quando ele falava daquele jeito sabia que nado o faria mudar de ideia.
— Isso não é exatamente raro no seu mundo, Lorel.
— Não. — ele concordou, seco. — Mas isso aqui é diferente.
Lorel não queria explicar as suas suspeitas.
— Você tem quanto tempo?
— Vinte e quatro horas para um relatório inicial. Depois disso, quero atualizações contínuas.
— Isso vai custar caro.
— Nunca foi sobre dinheiro.
A ligação foi encerrada sem despedidas.
Lorel deixou o telefone de lado lentamente, mantendo o olhar distante por alguns segundos. Então, levantou-se. A noite ainda estava longe de acabar. Horas depois, em outro ponto da cidade, a investigação já começava a ganhar forma.
Uma sala escura, iluminada apenas por monitores. Linhas de código deslizavam pela tela, enquanto arquivos eram abertos, cruzados, desmontados.
— Nerone Donati… — murmurou o homem diante do computador, ajustando os óculos. — Vamos ver quem você realmente é.
Os primeiros registros surgiram rapidamente.
Nome completo. Uma data de nascimento e registro. O garoto era uma figura do mundo do negócio, considerado um génio por ter uma fortuna tão grande ainda tão jovem.
— Estranho… — ele inclinou a cabeça, clicando em outra aba.
Nada fora do lugar. Nenhuma inconsistência, o garoto tinha a fixa mais limpa que ele já tinha visto, e aquilo o deixava desconfiado. Ninguém tinha uma ficha daquelas, e a de Nerone estava perfeita de mais.
E isso, por si só, já era um problema. Os seus dedos começaram a se mover mais rápido Ele buscava dados que não deveriam estar acessíveis. Então ele o encontrou, os registros de atuação do garoto, seu registro escolar, o que lhe chama a atenção.
— Hm…
Ele abriu outro arquivo, cruzando os dados e as informações não batiam, havia uma lacuna de tempo que não tinha sido preenchida.
A linha do tempo começou a se distorcer.
Como se alguém tivesse… ajustado a realidade.
— Agora estamos falando… — murmurou, com um leve sorriso.
Ele puxou um banco de dados mais antigo, algo fora dos registros oficiais.
Mais difícil de acessar. Os segundos se arrastaram enquanto o sistema carregava.
Um arquivo parcialmente corrompido apareceu na tela, mas seu vislumbre tinha sido rapido de mais antes que seu computador fosse invadido por um vírus e travasse, ele apenas teve tempo de assionar o detonador antes que a pessoa que havia instalado o vírus descobrisse o seu ID.
— Que diabos…
O homem suspira frustrado com aquilo, era a primeira vez que ele não conseguia concluir uma busca o que levava ele a pensar em apenas alguém: Fênix. Eles eram os únicos que conseguiam proteger informações a um nível que ninguém mais conseguisse agora ele precisava torcer para não ter entrado no radar deles.
Com um suspiro ele pega o seu telefone novamente.
— Lorel… — murmurou. — Você não vai gostar disso.
— Fale. — diz Lorel atentendo. Ele não tinha conseguido dormir após tudo o que tinha pensado.
— Você mexeu em algo grande.
Os olhos de Lorel se estreitaram.
— Eu sei. — Ele já imaginava que não seria fácil pesquisar a origem de Nerone, ainda mais ele estando ligado a Fênix, e agora com A Toca.
— Não… você não entendeu. — A voz do outro lado agora carregava tensão real. — Alguém está protegendo esses dados. Não é proteção comum. É… limpeza ativa.
— A Fênix. — diz ele com um suspiro. — O que você encontrou? — Lorel perguntou.
— Lacunas no nascimento. Registros perfeitos demais. E… — houve uma pausa — um arquivo escondido.
— Nome.
— Não consegui ver, o meu computador foi invadido por um vírus. — responde ele frustrado.
— Preciso que continue, eu pago pelos danos nos seus equipamentos, mas preciso que continue. — insiste Lorel.
— Olha, a única organização que conheço capaz de fazer um sistema desse é a Fênix, e se estamos tentando roubar um arquivo deles, vai ser causa perdida. — explica ele.
Lorel sabia que se explicasse aquele assusto a Ricardo e pedisse ajuda a Fênix seria mais rápido, mas ele não queria ter que divulgar informações tão pessoais.
— Não, ele não podem saber sobre isso. — diz frustrado.
— Entendo, mas seria a melhor solução. Eles têm informações que jamais conseguiríamos. — insiste ele tentando fazer Lorel ver a vantagem naquilo.
— Continue, faça o que puder para obter qualquer informação ligada a Nerone Donati.
O homem suspira na linha, ele não queria acordar morto por ter se enfiado onde não devia.
— Você sabe que tem o risco deles baterem na minha porta certo? E não desejo perder a cabeça.
— Se isso acontecer pode dizer que foi um pedido meu, eu me entendo com eles.
— Tudo bem Lorel, só espero que não se arrependa. — diz o homem com um suspiro.
— Não vou.