Capítulo 69

994 Palavras
A mansão dos Donati era ainda mais impressionante por dentro. Amália se encantava com cada pequeno detalhe; ela podia ver várias fotos de família espalhadas pela sala e pelos corredores, o que era uma surpresa para ela. Mas uma, em especial, chama a sua atenção. Amália caminha até uma mesinha mais afastada e pega o retrato em suas mãos. Na foto, Nerone estava deitado em uma poltrona, um dos gêmeos nos seus braços enquanto uma pistola descansava na outra mão. Ao que parecia, ele dormia profundamente. — Papai que tirou essa foto. — diz um dos meninos, aproximando-se dela. — É aquela em que ele quase levou um tiro? — pergunta Massimo, aproximando-se também. — É ela mesma. — responde Lorenzo. Amália olha para Nerone em busca de uma explicação para aquilo. — Eu só estava fazendo a segurança deles. — diz ele, dando de ombros. Os olhos de Amália percorrem a foto novamente. Nerone parecia tão tranquilo nela, como se nada pudesse abalá-lo. — Vocês são loucos. — diz ela, devolvendo a foto ao lugar. — Um Donati cuida da sua família, tia. Não é loucura. — diz Nikolai. Amália encara o pequeno, surpresa com o que vê. Os olhos dele brilhavam enquanto observava a foto sobre a mesinha; a mais pura adoração estava estampada em seu rosto infantil. — Você está certo, querido. — diz ela, bagunçando os cabelos dele. Nikolai sorri e sai correndo com os outros. — Não corram na escada! — grita Nerone, segurando Gaya pelo vestido antes que a menina disparasse pelos degraus. Os pequenos não o ouvem, mas, para a sorte de Nerone, as babás estavam por perto e os pegam antes que pudessem se machucar. Amália observa a cena em silêncio, os braços cruzados enquanto tenta conter o sorriso. Aquilo era tão... normal. Estranhamente normal. Ela sempre imaginou famílias da máfia como ambientes frios, cheios de regras rígidas e homens perigosos observando tudo em silêncio. Mas aquilo parecia um encontro familiar caótico de domingo, apenas com pessoas armadas espalhadas pela propriedade. — Você está sorrindo. — murmura Nerone ao voltar para perto dela. — Estou apenas surpresa. — diz ela. — Com o quê? — Achei que a sua família fosse mais assustadora. — E ela é. Mas apenas para quem merece. Nerone amava a forma como sua família era: um pouco fora dos padrões, superprotetora e terrível com quem provocasse a sua ira. Ele não se imaginava vivendo algo diferente. A sua família era seu maior tesouro e, agora, com Amália ao seu lado, esperava algum dia ter aquele mesmo caos que seu irmão tinha — um caos cheio de amor e carinho. — Venha, vou mostrar o meu quarto, assim você pode descansar. — diz ele, arrastando-a escada acima. Nerone puxa Amália pelo corredor até parar diante de uma porta larga, quase no final dele. Ele a abre e puxa Amália para dentro, fechando-a atrás deles. Amália olha para o quarto, maravilhada com a decoração simples: móveis mais rústicos, com cortinas azul-escuras penduradas nas janelas. Ela as toca, admirando-se com a textura do veludo. O quarto de Nerone era enorme, praticamente metade de sua casa. Havia uma cama enorme no meio do quarto e duas portas laterais que ela supunha serem o banheiro e o closet. — Seu quarto é lindo. — diz ela, sorrindo. — Que bom que gostou. Meu irmão arrumou tudo. — responde ele. Amália olha em volta, absorvendo cada detalhe do quarto. Então os seus olhos se fixam em algumas prateleiras na parede que, além de livros, guardavam uma infinidade de brinquedos. — Não acha que está muito velho para essas coisas? — provoca ela, pegando um carrinho. Nerone olha para o brinquedo nas mãos dela, vai até Amália e o pega com cuidado. — Esses brinquedos foram presentes do meu irmão. — diz ele com um suspiro, observando o carrinho em suas mãos. — Mesmo quando eu não estava aqui, ele se lembrava de mim. Em cada data especial, me comprava alguma coisa. Amália olha para Nerone e se arrepende da brincadeira. Ela podia ver uma névoa de dor e nostalgia em seus olhos que não conseguia explicar. — Desculpe, eu não queria trazer lembranças ruins. — diz, arrependida. — Só existem lembranças, Amália. Serem boas ou ruins depende de nós. Sou grato por cada coisa neste quarto, porque elas demonstram o carinho que meu irmão tem por mim e a sua perseverança em me trazer de volta para casa. Havia muito que Nerone ainda não tinha contado a Amália. Ele apenas permitira que ela soubesse algumas coisas sobre ele — aquelas que todos conheciam —, então entendia a curiosidade dela sobre a sua história. — Você pensa muito no que houve? — pergunta ela. — O tempo todo, mas já não dói como antes. Tudo ficou no passado, e a única coisa que posso fazer é continuar vivendo por todos os que se sacrificaram por mim. — E sua mãe, Nerone? — pergunta Amália em voz baixa. Aquela pergunta de novo. Algo simples, mas que para Nerone apenas o lembrava de tudo o que lhe fora tirado ao longo dos anos: o aconchego, o colo, o carinho que apenas uma mãe poderia lhe dar. — Eu não quero falar sobre isso, Amália. — diz ele, afastando-se e se jogando na cama. — Prometo que vou te contar tudo algum dia, mas hoje não. Amália não insiste. Nerone já tinha compartilhado muito com ela, então o melhor que podia fazer era esperar pelas respostas. Ela observava o corpo dele sobre a cama, o desejo brilhando em seus olhos. Ele era quente, tinha o corpo definido, mas não de uma forma exagerada. Nerone era masculino; tinha tudo na medida certa. — Posso sentir o seu olhar, Amália. — diz ele, de olhos fechados. — Não posso olhar agora? — provoca ela. Ele ri. Ali, diante dele, estava a sua Amália de língua afiada, a mulher que ele tanto amava.
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