Nerone pega Amália com cuidado nos seus braços. Ela se aconchega ao seu peito sem nem ao menos perceber no colo de quem realmente está. Um sorriso curva os lábios de Nerone ao imaginar que ela ficaria furiosa se soubesse que ele a estava levando para casa.
Aurélio observa Nerone deixar o salão com um sorriso no rosto. Seu irmão estava crescendo e, por mais que lhe doesse deixá-lo ir, ele precisava confiar que Nerone escolheria o próprio caminho.
— Eles vão ficar bem, Moreno. Não precisa se preocupar — diz Oksana ao notar a forma como ele observava o irmão partir com Amália.
— Eu sei. Não posso prendê-lo ao meu lado para sempre. Então, espero que ele faça as escolhas certas — responde, soltando um suspiro pesado.
— Não importa quais sejam as escolhas dele, Moreno. Certas ou erradas, sempre estaremos aqui para ajudá-lo, se ele precisar — afirma ela, envolvendo-o em um abraço apertado.
— É por isso que te amo, loira.
Os olhos de Aurélio brilhavam em adoração enquanto fitava Oksana.
Nerone sai do salão alheio aos olhares à sua volta. O seu único pensamento estava na mulher em seus braços e na forma como ela fazia o seu coração disparar no peito.
Um dos soldados se aproxima e abre a porta do carro para ele. Nerone entra com Amália nos braços, sem soltá-la por nada. Os seus olhos percorrem o rosto sereno dela enquanto dorme, e ele se permite observar com mais atenção a pequena que o havia fascinado desde o primeiro momento em que a viu.
Amália era uma beleza rara, daquelas genuínas que faziam um homem se encantar — ao menos era o que Nerone pensava sempre que a olhava. Pele clara, lábios pequenos e carnudos, um nariz fino e tez delicada. Pequenas sardas cobriam as suas bochechas e o queixo, descendo pelo pescoço, e a curiosidade dele era atiçada sempre que pensava em onde mais elas estariam.
O caminho até a casa de Amália, dentro do complexo, foi feito em silêncio. Apenas o som de sua respiração tranquila preenchia o ambiente. O carro para em frente à casa lentamente. O motorista desce e abre a porta para Nerone.
— Quer ajuda, senhor? — pergunta, de cabeça baixa.
— Não precisa — responde, seco, enquanto sai do carro e caminha em direção à porta.
O motorista corre e toca a campainha. A mãe de Amália abre a porta rapidamente.
— O quarto dela fica no final do corredor, querido — diz.
— Obrigado. Não vou demorar — responde ele.
Na máfia, mesmo que você tivesse um compromisso selado, isso não significava que teria mais liberdade com sua futura esposa. Era apenas uma forma de lembrar que o cuidado deveria ser redobrado, garantindo que a noiva chegasse pura ao altar.
Com cuidado, Nerone empurra a porta, deixando que apenas a luz do corredor ilumine o quarto de Amália. Ele observa as paredes em tom creme, adornadas com algumas pinturas. Pela forma como estavam dispostas, tinha certeza de que haviam sido feitas por ela, provavelmente quando mais jovem. Havia uma cama simples no centro do quarto, com lençóis rosa-claro que davam um ar delicado ao ambiente. Em um canto, uma poltrona ao lado de uma estante de livros — a maioria sobre programação, o que não o surpreende. Um guarda-roupa e uma pequena cômoda cheia de ursos de pelúcia completavam o espaço. Ele olha novamente para Amália, tentando associar aquele quarto à sua personalidade feroz, mas não consegue.
Um movimento traz Nerone de volta à realidade. Ao olhar para baixo, encontra os olhos confusos de Amália.
— Mas... onde eu estou? — pergunta, ainda atordoada.
— Te trouxe para casa. Você tinha dormido no sofá — explica ele.
Os olhos de Amália se escurecem, e um vinco surge na sua testa ao perceber a situação em que está.
— Quem te deu o direito de tocar em mim? — diz, exaltada, tentando se soltar dos braços dele.
— Sou seu noivo. Posso tocar em você — responde, como se fosse óbvio.
— Não mesmo! Me solte agora!
— Me deixe te colocar na cama — diz ele, dando um passo à frente.
— Não! Me solta agora, Nerone! — insiste, se remexendo em seus braços.
— Você que pediu — diz ele, com um sorriso de canto, ao soltá-la.
Amália cai no chão com um baque, soltando um grito agudo. Os seus olhos se voltam para Nerone, em brasa.
— Você...
Ela estava furiosa ao encará-lo.
— Meu Deus! O que houve? — pergunta Luz, entrando no quarto.
— Ela pediu para que eu a soltasse, e eu apenas obedeci, senhora. O chefe já me alertou para não fazer nada contra a vontade dela — diz ele, com a maior cara de inocente que consegue fazer.
Amália o encara, incrédula. Era a primeira vez que via Nerone fazer aquela expressão de “cachorrinho”, e não acreditava que a sua mãe estava caindo nisso.
— Amália! O senhor Donati fez o favor de te trazer para casa, e é assim que você o agradece? — repreende dona Luz.
— Não é assim, mãe! Caso não tenha reparado, eu que estou caída no chão — rebate, com o maxilar travado de raiva.
— Eu perguntei se podia te colocar na cama, mas você não deixou. Por isso te soltei. Não sabia que você cairia — diz ele, com um ar triste. — Me deixe te ajudar. Não quero que pegue um resfriado nesse chão frio.
Quando Nerone estende a mão para ajudá-la, Amália dá um tapa, afastando-o, e se levanta de um salto.
— Amália! — ralha dona Luz, chocada com o comportamento da filha.
— Ele está fingindo, mãe!
— Pare com isso, Amália! O senhor Donati te fez um favor e você o está desrespeitando em nossa casa!
— Mãe...
— Peça desculpas! — exige, envergonhada.
— Nunca!
— Peça desculpas agora, Amália!
Nerone, mais atrás, segura o riso ao ver a forma como ela o encara.
— Não precisa, dona Luz. Eu que fui invasivo. Me desculpe — diz ele, virando-se para sair.
De longe, Nerone ainda podia ouvir a voz da mãe de Amália lhe dando uma bronca. O seu sorriso apenas aumentava com aquilo. Se ela queria transformar a sua vida em um inferno, ele mostraria como se jogava de verdade.