Capítulo 4

1014 Palavras
Amália estava uma fera. Os seus longos cabelos negros caíam por suas costas como um prelúdio do seu humor. Ela tinha acabado de sair do hospital, onde tinha ido visitar os seus dois amigos que tinham sido espancados por Nerone alguns dias atrás. Lembrar daquilo ainda a enfurecia terrivelmente. Às vezes, Amália pensava que Nerone tinha enlouquecido. Havia um boato que circulava pela organização, dizendo que os Donati eram loucos; Dom Aurélio era a prova viva disso, e agora ela estava começando a pensar que era verdade mesmo, porque era a única forma que tinha de assimilar tudo o que tinha acontecido. Tudo tinha sido tão rápido que ela nem ao menos tinha conseguido reagir. Em um momento, estava dançando com Silas, um dos soldados da organização; no outro, Nerone estava sobre o pobre infeliz, desferindo soco após soco. E, para piorar, Daniel, seu outro amigo, foi tentar tirá-lo do meio da bagunça e tinha se tornado mais uma vítima do maluco do Donati. As memórias ainda eram frescas na mente de Amália: a forma como Nerone tinha acabado com aquelas pessoas como se não fosse nada, e como o seu olhar a encarava, com aquele brilho assassino que a encantava de uma forma que a deixava louca por pensar aquilo. Nerone era sua perdição, e ela sentia que ele a estava arrastando para suas loucuras, algo que ela não permitiria. Com passos firmes, Amália caminhava pelos corredores da organização. Ela precisava falar com o chefe sobre aquilo; ele não poderia permitir que Nerone continuasse ferindo as pessoas daquela forma. Amália para diante do novo escritório de Ricardo e bate suavemente na porta. — Entre! Amália entra e encontra o pequeno Stefan brincando em um tapete. Ela sorri ao ver que seu chefe não tinha levado o pequeno para a creche novamente; já podia imaginar a cara chateada de Estela quando descobrisse. — Oi, chefe. — diz ela antes de se abaixar e pegar o pequeno nos braços, enchendo-o de beijos. Stefan ri, antes de tentar fazer o mesmo com ela. — Do que precisa, Amália? Você não vem aqui desde o último episódio. — diz ele com a sobrancelha arqueada, já imaginando o motivo de a menina ter ido até o seu escritório. — Aquele Capitão Pirata i****a! Você precisa dar um jeito nele, chefe! Ricardo suspira ao ver o desespero da menina. De forma inconsciente, ele leva a mão aos olhos, massageando-os; todo aquele assunto lhe dava dor de cabeça, e Nerone não estava cooperando muito nos últimos dias. — Já me contaram o que houve, Amália. Eu vou falar com ele. — diz Ricardo com o mesmo tom tranquilo de sempre. — Ah! Fala sério, chefe! Você sempre diz isso e ele sempre termina sem pagar pelo que faz. — diz ela, emburrada, cruzando os braços. — Amália, Nerone tem um bom motivo para ter feito o que fez, e as nossas regras o apoiam. Não tem como eu puni-lo por algo de que ele não teve culpa — responde Ricardo, chateado com aquele assunto. — Quanto àqueles dois, eu vou ter uma conversinha com eles logo mais. Um arrepio sobe pela coluna de Amália quando vê os olhos sombrios de seu chefe. — Eles não fizeram nada demais, chefe! — Não os defenda, Amália! Eles estão cansados de saber que não se tocam em mulheres de outros homens e insistiram em fazer justamente isso. Ou você se esqueceu que tem um noivo te esperando? E lá estava a velha desculpa de sempre: o noivo. Um noivo cujo nome Amália nem sabia, mas que, de certa forma, regia tudo o que ela fazia em sua vida. Ela tinha vivido à sombra daquele noivo há anos, e agora que tinha chegado o momento de se conhecerem, ela temia o que viria. — Não me esqueci, chefe. — responde ela com a cabeça baixa. — Eu sei que são amigos e que cresceram juntos, Amália, mas precisa entender que as regras devem ser respeitadas. Se o seu noivo pedisse um castigo para eles, você sabe que eu não poderia negar; ao menos agora posso impedir que algo pior aconteça. — Mas por que ele? Por que tem que ser sempre aquele babaca? Amália se sentia frustrada e chateada com tudo aquilo, mas bastou um olhar para seu chefe para saber que não devia ter levantado a voz com ele. — Desculpe, chefe, não quis te ofender, mas esse assunto me deixa chateada. — diz ela, deixando-se cair na cadeira em frente a Ricardo. — Eu sei, mas deveria estar feliz. Em breve conhecerá o seu noivo. — diz ele com um sorriso de canto. — Ah, chefe! Ricardo cai na risada com a expressão chateada de Amália. Ele podia ver o quanto ela estava nervosa com tudo aquilo, mas o fato de Nerone amar a pequena mulher à sua frente de forma desesperada o deixava em paz. Ricardo tinha certeza de que o garoto cuidaria bem dela e que, apesar das provocações, os dois se dariam bem no futuro. — Vá para casa, Amália, deixe que eu cuido de tudo. — diz, por fim, abaixando-se e pegando Stefan nos seus braços. Sem esperar mais nenhuma palavra, Ricardo deixa o escritório com seu filho nos braços. Amália olhava, de olhos arregalados, seu chefe partir sem lhe dar nenhuma chance de falar. — Ele me deixou sozinha. — diz ela para si mesma. — Devia estar no laboratório, Amália. — diz Alícia, parando à sua frente. — Desculpe, fui ver os meninos no hospital. — responde ela, sem graça. Alícia suspira, passa o braço pelo de Amália e sai a puxando consigo. — Eu sei que está preocupada, mas eles estão bem. Apenas esqueça isso. — diz ela. Alícia sabia que sua aprendiz era muito teimosa, assim como já imaginava a vingança que ela tramaria contra Nerone; sempre terminava assim. O pobre Nerone não tinha um segundo de paz quando se tratava de Amália, e, com o passar do tempo, aquilo tinha se tornado um jogo entre eles — ou era o que todos pensavam.
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