Capítulo 24

1005 Palavras
Silas sentiu um arrepio percorrer o corpo diante do olhar frio que Bernardo lhe lançava. Ele o conhecia — já o tinha visto algumas vezes — e sabia bem a fama que o homem carregava. Dom Aurélio não se cercava de pessoas fracas, e o homem à sua frente era tudo, menos isso. Bernardo era a sombra do seu Dom, e o fato de ter se afastado dele para cuidar de Amália significava que havia muito respeito por Nerone. — O senhor entendeu errado — disse ele, de cabeça baixa. Não havia muito o que pudesse fazer depois de ser pego em flagrante tentando roubar a noiva de Nerone, e lhe doía terrivelmente ter que admitir isso. — Boa tentativa, mas não cola comigo — respondeu Bernardo, dando um passo em direção a Silas e apertando o seu pescoço com a mão. A sua vontade era esfolar o homem vivo por seu desrespeito. Amália se assustou ao ver aquilo. Não imaginava que Bernardo reagiria daquela forma. — Eu devia dar um fim na sua vida miserável agora mesmo, mas não vou tirar esse prazer de Nerone. Ele vai saber das palavras que saíram da sua boca hoje — disse, encarando Silas antes de soltá-lo. — Poderia não contar a ele sobre isso? — perguntou Amália. — Não vou mentir para o garoto. Se falou, tem que ser homem para assumir as próprias merdas, não ficar se escondendo atrás de uma mulher. Silas engoliu em seco, mas ainda assim arriscaria. Já tinha apanhado antes, então não se importava em levar outra. Ao menos agora Amália conhecia os seus sentimentos e sabia que ele estava disposto a lutar por ela. — Vou estar esperando — disse apenas. A suas palavras soando como um desafio. — Essa sua boca ainda vai ser sua morte — retrucou Bernardo, com um sorriso de canto, antes de se voltar para Amália. — Vou acompanhá-la até o complexo. Amália apenas assentiu e caminhou ao lado dele. Bernardo não disse mais nada, mantendo-se em silêncio, a uma distância discreta. As palavras dele a preocupavam; se Nerone descobrisse o que Silas havia dito, ela sabia que poderia ser o fim do amigo. — Tem certeza de que não pode manter essa conversa entre nós? — insistiu, em voz baixa. — Sei que quer protegê-lo, mas não deve. Nerone já conversou com ele. Silas foi advertido e, mesmo assim, insiste em querer tocar no que não lhe pertence. Ele terá que pagar por isso. Bernardo não se importava com o destino de Silas. Em sua visão, Nerone já havia sido benevolente ao adverti-lo tantas vezes. Resolver aquilo logo seria melhor, antes que a situação piorasse — e, pelo que observara, o sujeito não desistiria de Amália. — Ele vai matá-lo — insistiu ela desesperada com as palavras dele. — E vai merecer morrer. É a lei, e ele a desrespeitou mais de uma vez — respondeu. — Não acha que está sendo duro demais? — questionou Amália, incomodada com a frieza dele. Bernardo parou e se virou para ela. Ao que parecia, a jovem era ingênua demais para perceber as verdadeiras intenções de Silas. — Não. Ele foi advertido diversas vezes, teve a chance de mudar, mas preferiu insistir no erro. Ser punido por isso não é dureza, é justiça — disse, voltando a caminhar. — Mas... — Se quer discutir isso, senhorita, sugiro que converse com o seu noivo. Eu não posso ajudá-la com isso. Amália percebeu que Bernardo não mudaria de ideia — e não podia julgá-lo. Ele apenas fazia o seu trabalho. Limitou-se a assentir. Ao chegarem ao complexo, Bernardo abriu a porta para ela e se afastou ao perceber que já estava em segurança. Naquele caso, segurança significava estar longe de outros homens. No momento em que chegou à sua mesa, Amália desabou em um suspiro pesado. Tinha mais problemas do que imaginava e, desta vez, por mais amargo que fosse admitir, sabia que não tinham relação com Nerone. — Que cara é essa? — perguntou Alícia, entrando e lhe entregando um copo de café. — Silas — respondeu Amália, antes de dar um gole. Alícia fez uma careta e se sentou ao lado dela. — Com toda certeza, você tem um problema. Nerone jamais vai permitir que ele fique perto de você. Amália gemeu, deixando-se cair na cadeira. — Talvez a culpa seja minha. Se eu tivesse percebido as intenções dele antes, talvez pudesse ter evitado isso — disse, com tristeza. — Querida — disse Alícia, aproximando-se e segurando as suas mãos —, você não pode se responsabilizar pelo que os outros fazem. Conheço o Silas tão bem quanto você e sei que ele continuaria atrás de você, independentemente dos avisos do chefe. E você sabe que não foram poucos — acrescentou, arqueando a sobrancelha. — Eu sei, mas ele é meu amigo. Crescemos juntos. Não quero que ele tenha um fim r**m. — Amália tinha poucos amigos, e Silas era um deles. A sua infância era repleta de memórias felizes ao lado dele e de Daniel. Pensar que algo poderia acontecer com ele era doloroso. — Eu sei. Mas ele precisa entender que você agora é uma mulher comprometida, querida, e que vocês vão seguir caminhos separados. E tenho certeza de que, se ele não tivesse desafiado Nerone, ele não teria proibido que vocês continuassem se vendo. — Como pode ter certeza disso? — perguntou Amália, surpresa. — Aquele garoto te ama, Amália. Desesperadamente — disse Alícia, piscando. Amália a encarou e começou a rir. Para ela, aquela ideia era inconcebível. Ainda mais quando se lembrava das palavras acidas do seu noivo. — Isso só pode ser piada. — Não é. Nico fez o mesmo comigo quando nos conhecemos. É a forma que eles têm de demonstrar que se importam, por mais ogra que ela seja — completou, rindo. As palavras de Alícia deixaram Amália com uma pontada de dúvida. Será que as ações de Nerone eram, de fato, a sua forma de demonstrar amor? Ela precisava descobrir.
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