O aplicativo marcava vinte e sete minutos até o hospital.
Eu levei dezenove.
Não tenho orgulho disso. Passei por dois sinais no amarelo, xinguei um motorista que decidiu trocar de faixa sem dar seta e dirigi com uma mão no volante enquanto a outra apertava o celular como se Bia pudesse me dar alguma garantia que ninguém tinha.
Ela repetia que Isa estava consciente quando entrou na ambulância.
Eu me agarrava àquilo.
Consciente.
Falando.
Viva.
Quando estacionei de qualquer jeito perto da entrada da emergência, deixei o carro torto e corri debaixo da chuva sem me importar com nada. O saguão estava cheio. Gente tossindo, criança chorando, um homem andando de um lado para o outro com a camisa manchada de sangue.
Fui direto ao balcão.
— Isabela Duarte. Dezoito anos. Acidente de trânsito. Ela chegou de ambulância há pouco.
A recepcionista digitou alguma coisa.
— Qual seu parentesco?
— Irmã.
— Documento da paciente?
— Não estou com ele. Eu saí correndo de casa. Mas tenho foto no celular, tenho CPF, tenho tudo que precisar.
Ela continuou olhando a tela.
— Aguarda só um instante.
Eu odiava aquela frase.
Passei o dia inteiro mandando outras pessoas aguardarem encaminhamento, ligação, vaga, atendimento. Naquele momento entendi de um jeito diferente o que significava quando quem estava do outro lado do balcão era alguém que você amava.
— Moça, eu não quero ser grossa, mas preciso saber se minha irmã está bem.
Ela finalmente levantou os olhos.
— Ela está em atendimento. Vou chamar a enfermagem.
Bia apareceu antes que alguém viesse.
Estava encharcada, cabelo grudado no rosto, maquiagem escorrida. Eu conhecia Beatriz desde que as duas estavam no ensino médio. Era uma menina falante, elétrica, dessas que entram na casa da gente abrindo a geladeira como se morassem ali.
Naquela noite, parecia ter envelhecido dez anos.
— Rebeca…
Eu fui até ela.
— Me conta exatamente o que aconteceu.
— A gente tava atravessando perto da praça. O sinal abriu pra pedestre, juro. A moto veio rápido demais. O cara tentou desviar, pegou nela de lado. Isa caiu, bateu a cabeça…
Minha garganta fechou.
— Ela desmaiou?
— Por alguns segundos. Depois acordou. Falou comigo. Reclamou da dor. Até brigou com o socorrista porque ele queria cortar a blusa dela.
Aquilo era tão Isa que quase me fez rir.
Quase.
Segurei os braços de Bia.
— Você viu ela entrar aqui?
— Vi. Eu vim atrás com outro carro.
— E depois?
— Não deixaram eu acompanhar porque eu não sou da família.
Uma enfermeira chamou meu nome.
Eu virei tão rápido que senti uma tontura.
Ela devia ter pouco mais de quarenta anos, cabelo preso num coque apertado e aquele jeito prático de quem trabalha em emergência há tempo suficiente para não desperdiçar movimento.
— Rebeca Duarte?
— Sou eu.
— Sua irmã está estável neste momento. Teve trauma craniano leve a moderado, escoriações e uma suspeita de fratura no braço. A equipe está fazendo exames de imagem.
Eu respirei pela primeira vez desde que Bia tinha ligado.
— Posso ver ela?
A enfermeira hesitou.
— Por alguns minutos. Ela está consciente, mas precisamos evitar estímulo demais.
Consciência.
De novo aquela palavra.
Eu queria abraçá-la.
Beijar a testa.
Brigar porque ela tinha atravessado uma rua.
Qualquer coisa que me devolvesse a normalidade.
Segui a enfermeira por um corredor branco demais, iluminado demais, frio demais.
Foi ali que vi o nome bordado no jaleco de um médico parado próximo a uma bancada.
Dr. Marcelo Vilela.
Ele conversava com outro profissional enquanto analisava exames numa tela. Alto, postura impecável, cabelo escuro começando a grisalhar nas laterais. Não parecia apressado como todo mundo naquela emergência. Falava baixo, controlado, com a segurança de quem estava acostumado a ser ouvido.
A enfermeira parou perto dele.
— Doutor Marcelo, essa é a irmã da paciente Isabela Duarte.
Ele me olhou por alguns segundos.
— Rebeca?
— Isso.
Estendeu a mão.
— Marcelo Vilela. Estou acompanhando o caso da sua irmã junto com a equipe da emergência.
Apertei a mão dele sem interesse em formalidade.
— Eu preciso saber o que ela tem.
— Até agora, nada indica uma lesão que justifique pânico. Ela teve uma pancada importante, então vamos observar algumas horas. Existe uma alteração que queremos investigar melhor, mas ela chegou orientada e está respondendo bem.
— Que alteração?
Ele apontou para a tela.
— Prefiro não te assustar antes de termos os exames completos.
Aquilo me irritou na hora.
— Doutor, eu trabalho com famílias vulneráveis todos os dias. Sei que esconder informação para evitar ansiedade normalmente produz mais ansiedade.
Ele me estudou com um meio sorriso.
— Assistente social?
— Sou.
— Então sabe também que informação incompleta pode ser interpretada da pior forma.
— E falta de informação também.
Por um instante, achei que ele fosse se incomodar.
Não se incomodou.
— Justo.
A enfermeira abriu uma cortina.
— Pode entrar.
Esqueci Marcelo no mesmo segundo.
Isa estava deitada, braço imobilizado, um pequeno curativo perto da testa e o cabelo espalhado no travesseiro.
Pálida.
Mas viva.
Os olhos dela encontraram os meus.
— Você demorou pra caramba.
Minha boca abriu e nenhum som saiu.
Fui até ela e segurei seu rosto com cuidado.
— Você quase me matou, sua irresponsável.
— Eu fui atropelada. Acho injusto colocar a culpa em mim.
Ri chorando.
— Cala a boca.
— Isso é violência psicológica contra paciente.
— Eu vou praticar violência física se você continuar fazendo graça.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno, cansado, mas dela.
Peguei sua mão.
— Tá sentindo muita dor?
— Meu braço parece que foi usado de amortecedor por um caminhão. E minha cabeça tá uma porcaria.
— Foi uma moto.
— Minha cabeça não sabe a diferença.
Senti o peito afrouxar um pouco.
Isa estava falando.
Fazendo piada.
Reclamando.
Era impossível imaginar que alguma coisa pudesse dar tão errado dali em diante.
— Bia tá lá fora — contei. — Chorando como se tivesse atropelado você pessoalmente.
— Fala pra ela parar. O motociclista foi um i****a, mas tentou frear.
— Você ainda tá defendendo desconhecido?
— Ele ficou desesperado.
— Você podia ter morrido.
O sorriso sumiu.
Isa apertou minha mão.
— Mas não morri.
A frase ficou entre nós.
Eu devia ter respondido alguma coisa.
Não consegui.
Uma técnica entrou para verificar o acesso no braço dela.
— Precisamos levar a paciente para outro exame.
— Agora?
— O médico solicitou uma tomografia complementar.
Isa fez uma careta.
— Outra?
— Essa é rápida.
Ela virou o rosto para mim.
— Não vai embora.
— Nem se o hospital pegar fogo.
— Rebeca, não fala uma coisa dessas dentro de hospital.
— Você entendeu.
A técnica destravou a maca.
Eu caminhei ao lado até a porta.
— Te espero aqui.
— Compra alguma coisa pra eu comer depois.
— Você acabou de sofrer um acidente e tá pensando em comida?
— Tô viva.
Outra vez.
Tô viva.
Vi minha irmã ser levada pelo corredor.
Quando a maca dobrou a esquina, sentei numa cadeira e mandei mensagem para nossa mãe.
Não queria assustá-la antes de entender direito o quadro, então escrevi apenas que Isa tinha sofrido um acidente, estava consciente e fazendo exames.
Bia veio sentar ao meu lado.
— Você viu ela?
— Vi. Tá falando demais, então deve estar bem.
Ela sorriu pela primeira vez.
— Graças a Deus.
Passaram vinte minutos.
Depois quarenta.
Com cinquenta minutos, levantei.
— Isso não era um exame rápido?
Bia olhou o relógio.
— Talvez estejam esperando o resultado.
Procurei a enfermeira que tinha me acompanhado antes. Não encontrei.
Fui ao balcão.
— Minha irmã foi fazer uma tomografia há quase uma hora.
A atendente conferiu o sistema.
— Um momento.
Mais uma vez.
Um momento.
Voltei para o corredor.
Vi Marcelo atravessando depressa, agora acompanhado por dois profissionais.
— Doutor!
Ele parou.
A expressão dele estava diferente.
Não era exatamente preocupação.
Era algo mais fechado.
— Rebeca, preciso que aguarde um pouco.
— O que aconteceu?
— Houve uma intercorrência.
Meu estômago virou.
— Que intercorrência?
— Sua irmã apresentou uma alteração durante o exame. A equipe está atendendo.
— Alteração como?
Marcelo olhou para a enfermeira ao lado.
Depois para mim.
— Ainda não tenho informações suficientes para te explicar com segurança.
— Eu estava com ela há menos de uma hora. Ela estava falando comigo.
— Eu sei.
— Então me deixa entrar.
— Neste momento, não é possível.
Meu corpo inteiro ficou frio.
— Doutor, minha irmã estava consciente. Ela estava fazendo piada. Pediu comida. O que aconteceu naquele exame?
Ele demorou um segundo antes de responder.
— Estamos tentando entender.
A frase caiu pesada.
Olhei por cima do ombro dele.
No final do corredor, duas portas se fecharam.
E, pela primeira vez desde que cheguei ao hospital, tive a sensação de que alguma coisa ali não fazia sentido.