Capítulo 2

1129 Palavras
Lorena O silêncio depois do tiroteio não durou tempo suficiente para que o coração se acalmasse. Cada passo que eu dava ecoava pelas paredes estreitas do Vidigal, misturando-se ao cheiro de pólvora ainda suspenso no ar e ao suor frio que escorria da minha nuca. Dona Maria do Carmo caminhava apoiada em mim; seu corpo parecia menor, mais leve, como se parte da força que sempre carregou tivesse se perdido naquele dia. Ainda assim, ela mantinha a dignidade que a vida inteira cultivou, e eu segurava sua mão como quem tenta oferecer uma segurança que nem eu possuía por completo. Anjo seguia perto de nós, atento a cada movimento, a cada sombra que surgia no canto das vielas, e nada nele era desperdiçado. Não havia gesto desnecessário, nem palavra fora de hora: apenas vigilância constante. Eu sentia o olhar dele pousado sobre mim com frequência, e compreendia que aquilo ultrapassava a simples preocupação com nossa segurança. Havia algo mais profundo e silencioso, algo que queimava, e que eu não sabia ainda se queria enfrentar ou fugir. — Lorena — ele disse, a voz firme, mas paradoxalmente suave — você tem coragem. A afirmação me cortou por dentro. Coragem? Eu me sentia apenas tentando sobreviver, mantendo minha avó de pé, lutando para não sucumbir ao medo. No entanto, a maneira como ele pronunciou aquelas palavras parecia transformar minha fragilidade em força, como se enxergasse algo em mim que eu mesma tinha dificuldade de reconhecer. — Eu só faço o que preciso fazer — respondi, contendo a emoção que ameaçava transbordar. — Não sei se isso é coragem. Ele sorriu de um jeito rápido, quase imperceptível, e naquele instante vi algo humano atravessar a máscara do homem imponente. O sorriso foi breve, mas aqueceu meu peito. — Às vezes, fazer o que é necessário é mais difícil do que qualquer outra coisa — disse, voltando a observar a rua à frente. — E hoje vamos precisar de muito mais do que sorte. A realidade caiu sobre mim com um peso que quase me tirou o ar. Eu ainda não sabia exatamente quem ele era, quanto poder carregava ou até que ponto poderia ser perigoso, mas uma coisa era certa: se Arcanjo estava envolvido, nada era pequeno ou simples. Meu instinto gritava para confiar; minha razão, para manter distância. Eu respirava nesse conflito. — Pra onde vamos agora? — perguntei, vencida pela incerteza. — Primeiro, eu preciso garantir que ninguém está seguindo vocês. Depois, vou arrumar um lugar seguro pra ficarem — respondeu sem olhar diretamente para mim, mas cada palavra era carregada de firmeza. — Confia em mim, Lorena. E o mais inquietante era que confiar nele parecia inevitável. Mesmo sabendo dos riscos, havia algo no tom de sua voz e na postura de seu corpo que me envolvia e fazia meu medo recuar um pouco. Seguimos então por vielas estreitas, desviando de lixo, escadas improvisadas e fragmentos de concreto. Cada esquina escondia ameaças invisíveis; cada sombra parecia ter olhos. Porém, por mais que o perigo estivesse presente, meus pensamentos acabavam retornando sempre a ele. O jeito de andar, os ombros firmes, a autoridade silenciosa que carregava: tudo transmitia a sensação de que nada o derrubaria. E, ao mesmo tempo, havia uma promessa muda de que nada de m*l aconteceria comigo enquanto ele estivesse perto. — Lorena — chamou novamente, desta vez encarando-me com firmeza — preciso que você fique sempre atrás de mim e que hoje não tome decisões sozinha. Havia autoridade em sua voz, mas não agressividade. Era ordem, sim, mas também cuidado — e eu simplesmente assenti. Meu coração acelerava de um jeito que eu não conseguia controlar e, apesar de toda a tensão, eu sentia algo diferente nascendo dentro de mim, sem nome, sem permissão, mas impossível de ignorar. Enquanto subíamos uma escada de ferro improvisada que levava a um ponto mais alto do morro, percebi a extensão real do poder dele no Vidigal. Olhares se desviavam, vozes baixavam, passos mudavam de ritmo quando ele passava. Era então inegável: Arcanjo não era apenas mais um homem do morro. Ele era respeitado, temido, dono de um território inteiro — e eu me vi ainda mais vulnerável diante daquela verdade. Tomei coragem e perguntei, num impulso que misturava medo e curiosidade: — Por que você faz isso? Por que se importa? Ele parou por alguns segundos, como se pesasse a resposta, e me fitou com um olhar tão intenso que tive vontade de desviar. — Porque alguém tem que se importar — disse de maneira simples, mas carregada de algo que eu não conseguia decifrar por completo. — E hoje essa pessoa sou eu. Senti um arrepio percorrer minha pele. Cada palavra dele parecia tocar um ponto do meu corpo e da minha alma que eu ainda não entendia. Eu tentava focar na segurança da minha avó, no caos ao redor, no risco real que corríamos, mas o que acontecia entre nós dois crescia silencioso, como fogo escondido sob cinzas. Chegamos finalmente a um local que ele considerou seguro. Anjo se virou para mim e afirmou, sério: — Vocês ficam aqui e não fazem nada até eu voltar. Não importa o que escutem lá fora. Eu concordei com a cabeça. O coração ainda corria acelerado, mas, estranhamente, ao lado dele eu me sentia protegida. Era contraditório e assustador: o homem mais perigoso do Vidigal se tornara minha âncora. Minha avó se sentou, exausta. Seus olhos estavam mais apagados do que o normal e, quando murmurou “minha flor”, percebi o quanto estava debilitada. Sua respiração se tornou pesada, quebrada, acompanhada de uma tosse profunda que ecoou pelos meus ossos. Tentei mantê-la calma, repetindo que estava tudo bem, que nada aconteceria com ela enquanto eu estivesse ali, mas, por dentro, o desespero me consumia. Segurei sua mão com força e prometi que cuidaria dela, que nada nem ninguém a tiraria de mim. Enquanto o morro pulsava lá fora — com o som distante de sirenes, passos, funk e murmúrios — eu descobria dentro de mim uma determinação que jamais imaginei possuir. Não era só amor: era instinto de proteção. Sentei ao seu lado e respirei com ela, mar calmo contra tempestade, ainda que por dentro eu tremesse. O tempo parecia se arrastar, e cada segundo se tornava precioso. A flor do morro não se curva ao medo, percebi. Ela floresce mesmo cercada pelo fogo, mesmo quando tudo ameaça desabar. E, naquele instante, compreendi com clareza c***l: minha vida havia mudado para sempre. Entre o tiroteio, o caos do Vidigal e a presença de Arcanjo— esse homem que poderia ser minha destruição ou minha proteção — eu não seria nunca mais a mesma. Eu era a flor do morro. E ele era o fogo que podia me incendiar.
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