O beijo havia deixado Kiraz vulnerável nos braços de Dogan e feito ambos escutarem o som de milhões de fogos estourando.
Dogan afasta seus lábios dela, que permanece com os olhos fechados por alguns instantes, abrindo-os assim que percebe que os fogos são reais.
- Os fogos. Eu pensei...
- Que eles não eram reais.
Kiraz vai até a sacada onde os vê explodindo no céu de Denizli.
- Sim eles estão acontecendo, hoje é aniversário de Atatürk.
A República da Turquia foi oficialmente declarada em 23 de outubro de 1923, com Mustafa Kemal Atatürk, sendo eleito o primeiro presidente.
Em 1938, seguindo o desejo de Atatürk, o governo turco declarou o dia 19 de maio como o Dia da Juventude e Esportes e o tornou feriado oficial, fazendo que a juventude seja o símbolo da Turquia moderna.
- Você me beijou.
- Se vamos nos casar precisávamos nos beijar antes, pra saber se gostamos. Então gostou? Porque eu adorei.
Dogan alisa o rosto de Kiraz, que tira delicadamente sua mão.
- Escuta Dogan, não acontecerá casamento algum.
- Acho que depois desse beijo, haverá sim um namoro, um noivado e um casamento.
- Não pense que sou boba e que acredito nas mesmas ilusões, que as moças dessa cidade.
Kiraz se retira braba, Dogan sorri e a segue até a mesa, aonde sua irmã e Gani estavam.
- Precisamos ir Kerime.
- Agora Kiraz?
Dogan chega logo em seguida e olha para Gani que percebe que algo aconteceu.
- Eu pedi uma sobremesa para Kerime experimentar.
- Você poderá experimentar em outro dia.
Kiraz força Kerime a se levantar e Gani tem a certeza de que o culpado é seu irmão e tenta contornar a situação.
- Veja Kerime à sobremesa acaba de chegar.
- Posso?
- Pode, mas seja rápida, que ainda temos que arrumar nossas coisas para irmos pra Istambul.
O garçom serve, Kerime senta e Dogan puxa a cadeira, para que Kiraz sente também.
Kiraz desvia o olhar de Dogan, não querendo encará-lo depois daquele beijo.
O beijo que acorrentaria os dois para sempre a uma linda e romântica história de amor.
Apesar de estudar em uma das melhores Universidades de Istambul, ser uma mulher inteligente cheias de ideais, ela nunca havia sido tocada por um homem.
Talvez porque nenhum deles havia chegado tão perto e ultrapassado os limites, que Dogan havia feito ainda pouco.
- Podemos ir?
- O que foi que disse?
- Que podemos ir irmã. Você não escutou Dogan dizer?
- Me distraí por alguns instantes.
Assim que o garçom devolve o cartão de crédito a Dogan, como um cavaleiro ele estende a mão para que Kiraz possa se levantar.
- Obrigada.
- Eu amei esse lugar.
- Viremos sempre que quiserem Kerime.
Gani responde com um sorriso nos olhos.
A vista é maravilhosa, que faz esquecer até o ventinho frio da noite, que entra pela janela do carro.
A lua cheia embeleza esse momento que ficará eternizado para os quatro, como o primeiro encontro.
O celular de Dogan vibra no bolso da calça, mas ele prefere não atender por já imaginar quem estaria ligando e nada podia quebrar o encanto daquela noite ao lado de Kiraz.
- "Sua chamada será encaminhada para caixa de mensagem, deixe seu recado após o sinal".
- Alô, Dogan? Onde você está que não atende as minhas ligações? Retorna-me, assim que puder, estou com saudades. Te amo.
Após Dogan estacionar em frente à porta de sua casa, Kiraz faz menção de se retirar do carro, mas ele segura seu braço.
- Obrigada pelo jantar.
- Espere Kiraz.
Ao virar-se, os olhares de Kiraz e Dogan se encontram mais uma vez.
- Sim.
- Esquecemos de combinar o horário.
- Não seria após o almoço?
- Sim, mas qual horário você costuma almoçar?
- Entre meio dia e uma hora.
- Ok.
- Boa noite.
Kerime é a primeira a sair e aguarda sua irmã no portão, para que entrem juntas.
Sem olhar pra trás, Kiraz entra e Dogan sai com o carro.
- Vai me dizer o que aconteceu, lá no restaurante?
- Ele me beijou Kerime.
Kerime deita ao lado da irmã na cama.
- Não estou acreditando.
Kiraz passa os dedos nos lábios.
- Eu nunca tinha sido beijada antes e para coincidência uma queima de fogos aconteceu.
- Que queima de fogos?
- Você não ouviu?
Kerime faz um ar de que não está entendendo.
- É mesmo, você estava dentro do salão essa hora.
A porta do quarto se abre e as meninas encerram o assunto.
- Como foi o jantar?
- Mãe, eles nos levaram naquele restaurante em frente à praia, que eu sempre quis conhecer. A senhora sabe qual é.
- Aquele de dois ou três andares todo espelhado, que tem em frente à praia?
- Esse mesmo, mamãe.
A mãe fica alguns segundos de boca aberta.
- Se ele pensa que me levou a esse jantar, na intenção de me dobrar pra aceitar casar com ele, está muito enganado.
- Escuta filha, você não pode recusar-se.
- Posso sim.
- Seu pai já aceitou em seu nome. Besim e o pai de Dogan têm um acordo, não tem como mais voltar atrás.
- Então eu serei obrigada é isso?
- Quem dera que todas as moças que fossem obrigadas em nosso país a se casar, tivessem a sorte que você está tendo Kiraz. Seu noivo é lindo.
- Que noivo? Nós não estamos noivos mamãe.
- Mas já é como se fossem.
Assim que Dogan e Gani chegam a casa, encontram seu pai Haydar, que os aguardava assistindo futebol na TV.
- Então? Como foi?
- Foi bem.
- Como assim foi bem?
- Fala a verdade pro pai.
- O que aconteceu?
- Dogan a beijou.
- O quê?
Dogan olha sério pra Gani.
- Acho que devo parar de confiar em você Gani.
- Desculpe irmão. Não sabia que você queria segredo.
- Mas se a moça te beijou você acha que ela... Já teve outro homem?
- Claro que não fique sossegado. Pelo nervosismo dela, quando a peguei desprevenida, esse foi seu primeiro beijo.
- Menos m*l, porque senão meus planos iriam por água abaixo. Aonde já se viu um Ahrra casar-se com uma mulher que já pertenceu a outro.
- Kiraz não pertenceu a nenhum outro pai, estou seguro disso.
O celular de Dogan vibra em cima da mesa.
- Sexta vez que ela me liga. Ainda bem que eu coloquei o celular pra vibrar.
- De um jeito logo nessa daí filho.
- Farei isso assim que voltar a Istambul.
- Vou dormir. Boa noite.
- Boa noite.
- Vai terminar com Özlem?
- Vou agora mais do que nunca. Não posso continuar de caso com ela e ao mesmo tempo de compromisso com Kiraz.
O pai se retira da sala indo na direção do quarto, mas escuta o que Dogan acabou de dizer e sorri aliviado.
- Gostaria de poder fazer o mesmo com Aya.
- E por que não faz?
- Essa semana mesmo ela ameaçou contar para o pai dela sobre aquele dia na festa.
- Você precisa lembrar quem foi que levou o carro, já que Aya não sabe dirigir.
- Ela insiste em dizer que foram uns amigos, mas que ela também não lembra.
- Você sabe o que eu acho dessa história.
- Que eu fui vítima da boa de uma armação. Já sei.
- Exatamente. Agora não entendo porque a filha de um conselheiro importante do Clã faria uma coisa dessas.
- Você parece preocupado Gani.
- Eu não sei você Dogan, mas eu gostei um bocado da Kerime e queria poder estar livre para conhecê-la melhor e quem sabe começar um relacionamento com ela.
- Gostou mesmo dela?
- Gostei e muito. Ela é linda, delicada, um encanto de menina. Eu ficaria a noite toda escutando ela falar.
- Kiraz também linda, com personalidade forte... Adoro mulher assim.
Dogan se despende de seu irmão, troca de roupa e ao adormecer, Kiraz e ele tem o mesmo sonho.
Dizem que quando as pessoas estão apaixonadas e se elas forem de fato gêmeas, elas se procuram e se encontram enquanto estão dormindo.
Embora Dogan não tenha aceitado, ele e Kiraz se apaixonaram no momento que se viram pela primeira vez.
No sonho Dogan e Kiraz se viram casados e muito apaixonados, suas almas se desprenderam do corpo enquanto dormiam e se encontraram.
- Por que você me fez sofrer tanto meu amor?
- Estava te testando pra saber, se de fato você me amava?
- Eu te amei querida, desde primeiro dia em que te vi.
- Tudo minha culpa amor, eu tive medo de aceitar que te amava e por conta disso quase te perdi.
- Você não podia perder o que já te pertencia. Me perdoa minha vida por não ter dito logo que te amava. Eu estava acostumado a só ouvir eu te amo, sem jamais dizê-lo a alguém.
- Me perdoa também querido, eu não queria aceitar que estava apaixonada pela primeira vez e era por você Dogan.
- Você é minha outra metade, é minha alma gêmea Kiraz, eu passei muito tempo te procurando. E sabia que te encontraria meu amor.
Um beijo de amor verdadeiro acontece entre Dogan e Kiraz.
Assim que o dia amanhece uma revoada de pássaros passa bem próxima a janela de Dogan, que levanta suado e com a respiração ofegante.
O mesmo acontece com Kiraz que dorme numa cama ao lado de Kerime, que acorda assustada ao ouvir sua irmã chorando ao falar dormindo.
- Não vá fica... Não vá agora.
- Kiraz, acorda Kiraz.
Kiraz acorda assustada.
- Você estava sonhando irmã. Era pesadelo?
Kiraz não pretendia ceder assim tão fácil aos encantos de um homem que ela m*l conhecia e que simplesmente estava sendo obrigado tanto quanto ela, a firmar um compromisso em nome de uma maldita tradição.