Capítulo 7

2352 Palavras
"Por todo o ar que está em seus pulmões Por todas as alegrias que virão Por todas as coisas que você está vivo para sentir Apenas deixe a dor te lembrar que seu coração pode se curar..." Cheguei totalmente drenada, meu coração doía. Parte pela saudade da minha amiga e parte pelo que vi mais cedo. Não somente a questão da rebeldia desenfreada, mas também por Noah estar com outra garota. Fechei os olhos com força, tentando manter as lágrimas dentro de mim. Não podia ficar o dia todo na rua, meus pais ficariam preocupados. Portanto, tratei logo de disfarçar minha tristeza, modulando-a para o mesmo tom de antes. Nem mais nem menos. Fingiria que encontrei Noah e entreguei a comida, assim me pouparia de explicar os detalhes. Por sorte, ninguém estava em casa, de modo que corri para o quarto e me isolei. Deixando mais lágrimas escorrerem, eu chorava por Pamela e por Noah. Porque eu queria ficar perto e ele não me permitia. Chorei tanto que peguei no sono, acordei com a barriga roncando de fome. Contudo, sequer me preocupei com isso, eu queria descobrir onde Noah se escondia. Já tinha stalkeado todas as suas redes sociais, sabia que não encontraria nada lá. Mas eu precisava tentar, abri o notebook e entrei no perfil dele. Agradecendo por Noah não ter me bloqueado. Não havia nada novo, então quando já estava desistindo, uma marcação surgiu. Era um flyer de onde possivelmente haveria um encontro de algumas pessoas. O banner, uma espécie de convite anônimo, não tinha explicação sobre do que se tratava. Respirando fundo, fechei o notebook com força e tomei uma decisão. Eu iria naquele lugar e procuraria por ele, não podia permitir que Noah se afundasse daquele jeito. Ele era irmão da minha melhor amiga, Pam ficaria completamente triste se o visse tão revoltado com o mundo. Tomei banho, lavei o rosto e fiz uma maquiagem que eu não fazia há tempos. Carreguei nos olhos, vesti uma saia de couro curta, botas de salto alto e uma blusa de alcinha preta. Não sabia o que me esperava, no entanto, estaria preparada. Depois que vi aquela Shaiene grudada no Noah, não podia ficar atrás com minha camiseta do Goku. Precisava estar digna da atenção dele, foi com esse intuito que me produzi. Por fora eu estava um arraso, constatei ao me olhar no espelho. Por dentro, entretanto, morta me definia. Olhei no relógio, era dez para às oito, meus pais não haviam chegado ainda. Deviam estar compensando os dias que ficaram em casa comigo. Agradeci mentalmente por isso, assim não precisaria mentir. Pelo menos não imediatamente, peguei um Uber e quando estava chegando ao meu destino, o motorista informou que só podia ir até ali. Que mais adiante não era permitido para carros, porque as ruas ficavam praticamente fechadas em dias de racha de moto. Estremeci. Racha? — O que você disse? — questionei, confusa. Uma sensação r**m se apoderando de todo meu corpo. — Isso mesmo, senhorita. — confirmou. — Essa região é famosa por ter corrida de moto, parece que a polícia faz vista grossa. — Ah! — meio gemi, meio exclamei. Estava tonta. Paguei a corrida e sai do carro, andando a esmo pelas ruas. Eu não sabia onde estava, porque nunca tinha ido para aqueles lados. Sentia que talvez não devesse estar ali, sozinha. Foi quando comecei a ver movimentação mais à frente, pessoas se aglomeravam nas ruas e algumas motos se espalhavam sem organização pelo espaço. Então era aquilo, Noah começou a participar de racha? Onde estava com a cabeça? Continuei andando, sentindo muitos olhares agora em mim, baixei os olhos pela timidez. Porém, logo tratei de erguer a cabeça, não podia agir feito uma garotinha insegura. Daria muita pinta de que eu não fazia parte daquilo ali. Nesse instante, um cara com os cabelos platinados e olhos claros me notou. Sorrindo, ele veio até mim, eu não queria conversar com ninguém que não fosse Noah. Mas talvez o garoto ajudasse a me enturmar. — Oi, princesa. — saudou, sua voz era aveludada e macia. — Nunca te vi por aqui, qual o seu nome? — Luana. — falei, analisando seu rosto. — Prazer, Luana. — ele beijou minha mão e eu me senti um pouco invadida. — Aceita uma bebida? Eu já iria negar, porque não me era sensato beber algo que não sabia a procedência. Quando uma garota deslumbrante surgiu, ela me viu e correu para o meu lado. — Não aceita nada que ele te der para beber. — sussurrou no meu ouvido. Concordei com um menear de cabeça, já tinha decidido isso por mim mesma. — Safira, cai fora. — o estranho retrucou, fechando o cenho. Sua expressão mudou e eu dei um passo para trás, abrindo distância. — Já está tentando aprontar de novo, Tadeu? — ela rebateu, confiante. — Se eu te pegar fazendo qualquer coisa suspeita você não pisa mais aqui. — ameaçou. — Não é da sua conta o que eu faço ou deixo de fazer. — resmungou o desconhecido, seus lábios se transformando em uma linha fina. A tal... Safira? Lançou um olhar mortal em direção a ele: — Vem comigo, gatinha. — pegando minha mão, afastou-me a passos ágeis. — Não confia nesse cara, Tadeu gosta de embebedar as meninas. — explicou e um arrepio percorreu minha espinha. — Obrigada. — agradeci sem jeito. — Não por isso. — ela sorriu e paramos mais afastadas do cara platinado. — Nunca te vi por aqui, você veio a convite de alguém? — Eu... Hã... — gaguejei. — Vim pelo Noah. — formulei e a garota balançou a cabeça em concordância. — Ah, o novato. — refletiu. — Mas ele não tá com uma garota loira? — Sim, é que eu sou uma amiga dele. — respondi, mordendo o lábio. Não queria me entregar daquele jeito. A questão é que o quanto antes o encontrasse, mais rápido podia ir embora. — Acho que ele já chegou, quer que o chame? Ou você pode assistir o racha comigo, que tal? — perguntou animada. — Ah, que cabeça a minha, nem me apresentei direito. — ela deu um tapa leve na testa —, eu sou Safira, namorada do organizador dos rachas. E você é? — Luana. — respondi, meu coração ribombando no peito. — Certo. — Safira parecia exultante. — Vou procurar pelo Noah, você se importa em ficar sozinha um pouco? É que tem alguns lugares que só participantes podem entrar, desculpe. — Não. — neguei de pronto. — Ficarei bem. — garanti, empostando a voz para não gaguejar. — Volto logo. — ela me deu uma piscadela e notei que seus olhos eram incrivelmente verdes. Safira parecia uma barbie, alta, magra e com rostinho de boneca mesmo. Gostei dela. Em questão de segundos as ruas começaram a encher, motos vinham buzinando. Era uma loucura. Infelizmente, para o meu desespero, Tadeu me achou antes que Safira retornasse. Eu estava no canto, escondida, para que ninguém notasse minha presença. Só que aquele cara parecia ter notado. Ele se achegou e eu me afastei, lembrando do que Safira me disse sobre Tadeu embebedar meninas. Aquilo não era de bom tom, quis ficar longe dele. — Te achei. — gracejou, não respondi. — Olha, não leva a sério o que aquela garota falou. Ela não sabe de nada. — afirmou e eu apenas o ignorei. — Estou tentando ser gentil com você. — e seu tom mudou novamente, me afastei um pouco mais, cruzando meus braços. — Vamos nos conhecer em um lugar mais reservado, que tal? — ele puxou meu braço e com isso seus dedos roçaram de leve nos meus s***s. Dei um tapa em sua mão. — Não toca em mim! — minha voz soou um pouco alta, chamando a atenção das pessoas ao redor. Tadeu pareceu não se importar, vindo para mais perto e segurando minha cintura. — Adoro mulheres ariscas. — sussurrou no meu ouvido, puxando-me contra seu peito. Empurrei seu corpo, mas ele continuou me segurando firme. Seu hálito chocando-se contra meu pescoço. — Me solta. — ordenei. — Isso, solta a garota. — aquela voz rouca e baixa me arrepiou. Era Noah. Shaiene estava logo atrás, com os braços cruzados. Uma expressão de desgosto estampava seu rosto perfeito. — Cuida da sua que eu cuido da minha. — Tadeu retrucou e Safira só faltou pular em cima dele. Noah a impediu, vindo calmamente em nossa direção. Pegou minha mão e deu um empurrão bruto no Tadeu. Em seguida me puxou para o seu peito. — Se encostar um dedo na Luana, você vai se arrepender. — com isso, Noah me arrastou para longe, enquanto eu tentava acompanhar suas rápidas passadas. O salto, porém, não contribuía. — Noah, calma. — pedi, me arrependendo de fazer toda aquela produção. Ele sequer me olhou direito. Quando já estávamos suficientemente afastados, Noah parou abruptamente e eu me choquei contra seu peito rijo. Ele me amparou, apoiando suas mãos uma de cada lado da minha cintura. Para acrescentar, olhando em meus olhos pela primeira vez desde que nos vimos. — O que está fazendo aqui? — questionou, sua voz soando áspera e infeliz. — Vim falar com você. — respondi, me equilibrando. — Você apareceu nesse lugar sem convite e sozinha? Estava com a cabeça aonde? — revidou, suas palavras jorrando com uma turbulência incontida. — Você que perdeu a cabeça! — explodi. — Que merda pensa que está fazendo da sua vida? — Não é da sua conta, Luana — devolveu sério. — Me deixa em paz. — pegou o celular e começou a discar. — O que você tá fazendo? — perguntei, me referindo a sua ação de agora. Não ao contexto geral. — Pedindo um táxi pra você. Volta pra casa e nunca mais aparece, aqui. Ok? — ordenou e eu fiz que não. — Vou aparecer quantas vezes eu quiser, você não manda em mim. — rebati, mas minha voz falhou. Já estava quase embargada. Droga, eu não queria, não podia chorar. — Me deixa em paz, vai ser melhor para nós dois. — insistiu, esfregando os olhos com o indicador e o polegar da mão direita. Pude sentir, inclusive, sua segurança falhar por alguns segundos. Dando lugar a um desespero desconcertante. — Você não está sozinho, Noah — afirmei, tocando em seu braço com carinho. Ele se encolheu ante ao meu toque. Um suspiro agoniado rasgou sua garganta. — Quando você entenderá que a sua presença não é bem-vinda? Que olhar para você é lembrar da minha irmã? Do que eu perdi? Dos planos que fiz, da esperança que senti? Só para ver tudo escapar por entre meus dedos mais uma vez? — e agora ele estava chorando. Chorando muito, de soluçar. Meu peito se comprimiu, uma dor aguda atingiu o centro do meu coração. Se expandindo para todo meu corpo, tornando difícil respirar. Ignorei sua sentença de que não me queria por perto e o abracei pela cintura. Ele não recusou, não de imediato. Pelo contrário, envolveu-me pelos ombros, deixando a cabeça tombar por cima da minha. Abraçando meu corpo e formando uma espécie de casulo humano. Foi bom. Meu coração ficou alvoroçado, em seguida se encheu de uma ternura tão grande, era quase como se estivesse curado. Quase. Porque eu jamais esquecerei a dor de perder minha melhor amiga. — Eu estou aqui, Noah. — Vai ficar tudo bem... — falei baixinho. — Me deixa te ajudar. E eu estava chorando também. Ficamos assim, por alguns instantes, apenas nós dois. Abraçados no meio da rua. Infelizmente, ele pareceu recobrar seus sentidos. Ou pelo menos os equivocados de antes, afastando-me pelos ombros. — Tudo o que eu queria era poder ficar com você, marcar um encontro como um cara normal, te conquistar aos poucos. Talvez te roubar um beijo... — ele sorriu em meio às lágrimas. Mordi o lábio com tanta força que doeu. — Compraria a casa para minha irmã e a veria feliz por eu ter mudado ao ponto de ser tão responsável. Ela ficaria exultante com a surpresa. Mas nada disso vai acontecer, tá bom? Minha irmã está morta, assim como meus pais, assim como os meus sonhos. Eu não tenho ninguém, Luana. Ninguém! — berrou. — Você tem a mim, eu estou aqui. — tornei a me aproximar, tentando abraçá-lo. — Olhar para você é a mesma coisa que vislumbrar tudo o que eu perdi. Você não entende? — e suas palavras soaram tão afiadas que doeram na minha alma. — Noah... — foi só o que saiu da minha garganta, o último lamento. Eu já estava chorando ao ponto de borrar toda a minha maquiagem agora. — Eu não consigo, ok? Me deixa em paz. — ordenou e dessa vez apenas assenti. Se ele queria se afundar, eu não podia fazer nada para impedir. Olhei ao redor e visualizei Safira e Shaiene olhando a cena boquiabertas. Ela com uma raiva assassina no olhar, Safira com lágrimas nos olhos. Noah rapidamente se afastou de mim, envolveu Shaiene pela cintura e tascou um beijo na boca vermelha dela. Eu arfei. Safira correu para me amparar, olhando feio para Noah. Ordenou: — Vou levar Luana em casa, avise ao Felipe por mim. — Noah só levantou o indicador e saiu andando, amalgamado com Shaiene. — Acabou. — eu disse para mim mesma em voz baixa. — Acabou, Noah. Eu não posso fazer nada por você. Foi uma grata surpresa sentir os braços finos daquela garota que eu nem conhecia me envolverem. Deitei minha cabeça em seu ombro, recomeçando a chorar, meu corpo todo tremia. Eu sentia frio, como se estivesse nevando naquele momento. Safira passou a alisar meus braços e a falar palavras de consolo. Me senti melhor com ela perto de mim. — Vai passar... Vai passar. — vi de relance quando pegou o celular e mandou mensagem para alguém. Em segundos eu estava dentro de um carro de luxo, indo sabe-se lá para onde. Não fazia questão de saber mesmo, não queria saber de mais nada.
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