Capítulo 12

2112 Palavras
Finalmente fiz meu pedido de café e bebia, quando nossa conversa enveredou para um assunto que eu e ele gostávamos muito. Pam. Contei ao Noah como a conheci, basicamente: ela me atropelando com o carrinho do supermercado. Relatei o quanto Pamela sentia falta dele e a felicidade que demonstrou quando o irmão planejou voltar para casa. Pensei que o clima ficaria pesado tocando naquele tópico, mas foi o contrário. Os olhos do Noah cintilavam de euforia conforme eu relatava pequenos detalhes da minha amizade com sua irmã. Ele também passou a me contar travessuras que fizeram juntos quando crianças. Falando um pouco mais sobre os pais e no quanto foram felizes. Em determinado momento, os olhos do Noah ficaram muito brilhantes, indicando algo mais que nostalgia e saudades. Percebi uma dor incontida escondida atrás da íris azul cor de céu, constatando que era mais sensato mudar de rota. De modo que começamos a falar sobre música, ele me perguntou quais eram meus sonhos naquele quesito. Contei que era me tornar uma cantora profissional, num futuro muito distante. Talvez até inexistente. Noah, entretanto, garantiu que eu tinha talento suficiente para isso. Que acreditava em mim. Pegou minha mão e beijou a palma, enviando milhares de esferas de eletricidade pelo meu corpo. Suspirando, tombei a cabeça em seu ombro, fechei os olhos e ficamos em silêncio. Apenas apreciando a companhia um do outro. Entrelaçamos nossos dedos e passamos a olhar nossas mãos unidas. Pensei que era a coisa mais natural e correta do mundo. — Posso tirar uma foto? — Claro. — respondi com o coração acelerado. Ele pegou o celular com a mão livre, enquadrou nossos dedos entrelaçados e fotografou. Em seguida guardou o aparelho, não criei expectativas de que fosse postar em alguma rede social. Noah nem interagia na internet desde que a Pam faleceu. Então fiquei apenas feliz pela iniciativa de registrar o momento. Infelizmente, como tudo que é bom dura pouco, estava ficando tarde. Noah informou que precisávamos ir para a despedida, que não seria nada suntuoso. Apenas os poucos amigos que fez nos últimos dias estariam presentes. Levantamos, pagamos a conta, enquanto Noah não perdia a minha mão de vista. Sempre que era necessário fazer algo, ele me soltava por poucos segundos. Até a tarefa estar perfeitamente concluída. Logo após tornava a procurar minha mão, entrelaçando nossos dedos. Seguimos para a despedida de mãos dadas, contudo, não nos beijamos mais. Mesmo que eu quisesse, entendia que não era sensato. Ficaríamos um tempo afastados, Noah estava indo colocar a cabeça no lugar. Eu precisava ser paciente. Até porque, já tínhamos pulado algumas etapas trocando beijos, sendo que nos conhecemos tão pouco. Em outra ocasião, eu teria alguns encontros antes de sair enfiando a língua na goela do garoto. Só que com Noah era tão diferente e bem mais intenso. Nossa relação não era ortodoxa, ainda assim, compreendi que precisava resguardar meu coração. Não era sensato sair gostando de um cara tão rápido, eu não era desse jeito. Sempre fui reservada com relação aos meus sentimentos, mas parece que Noah chegou bagunçando tudo dentro de mim. Como lidar com sentimentos dessa forma? Não tinha um pingo de experiência, nunca me apaixonei perdidamente antes. Enfim, foco Luana. Foi só uns beijos, seu coração está acelerado feito louco, mas tudo bem! Noah pediu um táxi e entramos, ele foi atrás comigo. Com a mão na minha, vez ou outra seus dedos traçavam movimentos aleatórios no meu dorso. Enquanto seu braço se mantinha em meu ombro, ele olhava pela janela, como se estivesse longe. Eu gostaria de saber sobre o que refletia. Não queria, porém, interromper seu fluxo de pensamento. Então só fiquei em silêncio, com a cabeça encostada em seu peito. Era tão bom, perfeito para falar a verdade. Eu conseguia ouvir seu coração batendo acelerado, não sabia se pela nossa recente aproximação ou por qualquer outro motivo. Optei por pensar que era por minha causa, pois meu coração também batia acelerado. Ao chegarmos, fiz menção de me soltar. Só que ele me puxou para o peito e acabou que entramos abraçados. Haviam poucas pessoas realmente, não tinha música, era somente uma reunião simples para aqueles poucos colegas se despedirem do Noah. Como Safira disse, foi uma forma que ela e Felipe encontraram de demonstrar que se importavam com ele. Pelo que soube, o namorado dela se aproximou muito do Noah nos últimos dias e sentiria falta dele. Achei de bom tom, considerando que ainda estávamos de luto. Não fazia sentido uma festa de arromba, eu sequer estava no clima para isso. Acreditava que Noah muito menos. Cumprimentamos os poucos presentes com cordialidade, Felipe acenou para nós e foi para o lado do Gabriel. Luana também estava ali, com Safira. Ela olhou nossas mãos unidas, sorrindo. Apresentei Noah oficialmente para minha irmã e ele a abraçou apertado, elogiando seus olhos também. Mas dizendo que ainda preferia os meus. Ela riu, dando um tapa leve no ombro dele, Noah também sorriu. Mas foi um riso contido, não do tipo que transborda pelos olhos. Era nítido que ele não estava à vontade, por mais que fosse algo singelo e íntimo. Notei também que Gabriel não tirava os olhos de nós, mais precisamente de mim. Para falar a verdade, ele não parecia feliz com nossa aproximação. Só que eu estava, isso bastava. Meus pais apareceram para se despedirem um pouco antes do Noah me puxar pela mão para a sacada da casa. Ele parecia a ponto de desmoronar, portanto não fiz objeção. Noah já tinha melhorado muito agindo com tanto autocontrole até ali. O mínimo que eu podia fazer era compreender seu pedido silencioso de afastamento. — Eu precisava de ar, estava muito claustrofóbico lá dentro. — refletiu, assenti, olhando o céu mudar de cor. O azul se misturando ao vermelho e depois ao azul mais escuro. — Que horas é seu voo? — questionei, para calcular quanto tempo tínhamos. — Se quiser podemos ir para outro lugar. — Tá bom aqui, eu só queria ficar sozinho com você. — ele girou o corpo, ficando de frente para mim. E, repentinamente, puxou meu corpo para o seu. Colidi com seu peito e fiquei, imóvel. Eu não queria sair dali, daquele abraço. — Obrigado por não desistir de mim. — agradeceu — Quer dizer, acho que você desistiu, mas não posso culpá-la por isso. — ele riu, daquele mesmo modo de antes. Um riso ensaiado. — Ah, Noah... — me senti culpada. — Não lamente. — pediu, levantando meu queixo com o indicador, para olhar nos meus olhos. — Você me salvou de mim mesmo ao desistir, porque me fez reconhecer que estava afundando. Você me fez emergir, estarei sempre em débito com você. — respondeu, acariciando meu rosto. — Então volte pra mim que você paga sua dívida. — descontrai. — Eu vou voltar, Luana — tornou a me abraçar, dessa vez mais apertado. Do jeito que o presenciei abraçar a irmã quando chegou, mas não tão fraternalmente. Minha respiração falhou, mas, ei, eu não iria reclamar. Ficamos abraçados em silêncio pelo que pareceu uma eternidade e quando nos afastamos. Eu quis grudar nele novamente. Contudo, entendi que chegava a hora da despedida. — Preciso pegar minhas malas e ir para o aeroporto, você vem comigo? — Claro. — afirmei de pronto. Noah pegou minha mão, guiando-me de volta para baixo. Ele se despediu de todos, agradecendo. Quando íamos sair da casa, uma garota loira apareceu do nada. Se materializando na nossa frente. — Noah! — ela pulou no pescoço dele. — Shaiene.. sussurrei, soltando minha mão. Ele apoiou a palma nas costas dela, meio aturdido. O ciúmes que eu senti não estava escrito, sabia que Shaiene tinha todo o direito de se despedir dele. Entretanto, isso não me impediu de ficar enciumada. — Shaiene — recitou, afastando-se dela, como se a garota pegasse fogo e quisesse queimá-lo. — Iria embora sem se despedir? — ela fungou. Certo, fiquei com dó. Sou otária mesmo. — Não tivemos uma discussão muito amigável da última vez que nos vimos. — respondeu, olhando com as sobrancelhas unidas para ela. — De qualquer forma, obrigado por ter vindo, mas eu tô no meu horário e preciso ir. — Você vai manter contato? — perguntou, sua voz falhando. — Claro. — afirmou, parecendo incerto. Desviei o olhar, sem querer absorver mais do que o necessário daquela despedida. Noah de alguma forma conseguiu se safar, me alcançando, enquanto eu seguia a esmo pelas ruas. Ele procurou minha mão, no entanto, a afastei. Cruzando os braços rente ao peito, estava com ciúmes. Era impossível negar ou controlar. — Desculpe, não pensei que ela viria. — Tudo bem, ela tinha o direito de se despedir. — respondi, áspera. Mesmo sem querer. — Está magoada? — ele segurou minha cintura. — Não. — menti. — Está sim, estou vendo nos seus olhos. — Então não tem porque ficar perguntando. — rebati, sem manter contato visual. A sensatez duelando contra a emoção. — Não precisa ficar, quero dizer. Se eu estivesse em seu lugar ficaria, se fosse outro cara, tipo o Gabriel, te abraçando. Eu tenho ciúmes dele... Enfim. — balançou a cabeça, como se buscasse afastar o pensamento. — Preciso ralar muito para merecer você, porque eu errei em igual proporção. Mas prometo fazer o meu melhor para recomeçarmos futuramente e... — ele passou as mãos pelos cabelos, mordendo o lábio em um gesto de preocupação. Amoleci e descruzei os braços. Noah prontamente segurou minha mão. — Vai se atrasar assim. — informei, ele assentiu. Não demorou muito para chegarmos ao hotel simples, pegarmos a mala e partimos rumo ao aeroporto. Aquela sensação de déjà-vu se fez presente, lembrei de quando estava ali para buscá-lo. Queria ter aproveitado mais aqueles pequenos momentos, se eu soubesse que acabaríamos ali de novo. Dessa vez com Noah indo embora, teria feito tudo diferente. Como a parte burocrática jazia organizada, check-in etc. Só ficamos esperando o horário do voo, aliás, parte daquele tempo Noah passou conversando com o padrinho. Que estava ansioso e preocupado. Passei a compreender ainda mais o porquê de ele precisar viajar. O padrinho devia ter feito pressão, eu não o deixaria aqui sozinho se estivesse em seu lugar. O meu laço afetivo de poucos dias não se comparava com um laço familiar. Desviei os olhos para os transeuntes, sem focar em nada especificamente. Noah informou que estava com uma amiga e em breve entraria no avião. Aquela informação me trouxe de volta, até ali parecia que eu estava em uma espécie de sonho. Não queria que fosse real. Forcei-me a pensar em tudo aquilo não como um adeus e sim um até logo. Esse pensamento me confortou. A primeira chamada, enfim, fez meu coração se agitar de um modo r**m. — Luana... — iniciou, pegando meu rosto entre as mãos. — Acho que tenho que ir. — Não sei muito bem o que dizer, não tenho o direito de pedir que me espere. Já deixei claro que tô uma bagunça, eu... — o interrompi. — Não se sinta pressionado ou aflito. Vamos nos despedir como amigos, deixe o futuro se encarregar do resto. Fique bem, é o mais importante pra mim. — sussurrei com lágrimas nos olhos. — Você é a garota mais especial do mundo. — declarou, beijando minha testa e se demorando ali. Fechei os olhos para apreciar nosso último contato por um tempo. A segunda chamada do voo nos tirou da nossa bolha densa de afeto. — Se cuida e fica bem. — desejei, por fim. Ele me abraçou apertado. — Sentirei saudades. — pegou minha mão e segurou firme. Até que precisou se afastar, esticando meu braço enquanto podia. Nossos dedos entrelaçados finalmente se soltaram. Eu não sabia quando o veria de novo. Visualizei seus passos ágeis, sentindo meu coração arder de saudades já. Ele me deu uma última olhada e abriu um sorriso emotivo. Sorri de volta, querendo que o destino se encarregasse de trazê-lo para mim. Encontrei Safira e Larissa ali mesmo, elas me seguiram, imaginando que eu precisaria de colo após a despedida. Meu celular apitou, peguei, sem entusiasmo. Constatando que era uma marcação no i********:. Noah postou a nossa foto de mãos dadas, com a legenda: "Dizemos que somos amigos Brincamos de fingir Você é mais para mim Nós criamos uma harmonia perfeita..." Já estou com saudades, Luana. Quase morri de amores, ansiando que voltasse logo. Contudo, meu desejo de que ele ficasse bem, não importava onde, falou mais alto. Eu também tentaria ficar, inclusive, era isso o que Pamela desejava, certo? Suspirando, voltei para casa com as meninas, mergulhada em um silêncio confortável e melancólico.
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