Capítulo 19

1505 Palavras
O toque do celular nos acordou, mas eu estava muito sonolenta e ignorei, só que não dava para se concentrar em dormir porque o bendito celular continuava tocando aos berros. Ele suspirou e pegou até o aparelho, franziu a testa antes de atender. — Nataniel? — ouviu por um instante e sua expressão foi ficando carregada. — Onde estão? Chamaram a polícia? — fiquei preocupada e me aproximei. — Estamos indo. — O que houve? — questionei, vendo Noah passar uma camiseta azul pela cabeça e calçar o tênis apressado. — Os caras encontraram uma garotinha aparentemente abandonada, ela parece estar ferida e está se escondendo deles. Deve estar com medo, eles chamaram a polícia, mas estão com receio de perder a garota ou de assustá-la ainda mais. — foi dizendo, atropelando as palavras. — Vou ligar pra assistente social. — Eu vou com você. — corri para acompanhá-lo e rapidamente estávamos em movimento. Fomos com o carro da Talita, que estava na garagem. Com isso, em questão de minutos estávamos na localidade que Nataniel informou. Foi tão rápido que não deu tempo de conversar durante o trajeto e Noah estava um pouco ansioso. Achei que não cabia nenhum comentário naquele período. De longe avistamos a cabeleireira vermelha do Nataniel e o tom mais puxado para laranja de Ygor. Karen, a namorada dele, não estava à vista. Talvez não estivesse com o namorado naquela noite. Noah estacionou e saltamos do carro, fomos até os garotos. Que estavam parados como em uma espécie de vigília. — O que houve? — Noah perguntou, alcançando os dois. — Íamos comer e encontramos essa garotinha sentada na guia. — Nataniel explicou por alto. — Conseguimos que ela se acalmasse, Karen, na verdade. Mas quando chegamos muito perto ela surta e sai correndo. Acho que não gosta de garotos. Noah assentiu, após a indicação de onde estavam seguimos para lá. Achei que seria melhor eu me aproximar sorrateiramente, afinal, sou menina. A polícia ainda não chegou e ninguém sabia o que fazer com a garota. Foi uma surpresa para nós que ela corresse em direção ao Noah e pulasse em seu pescoço, assim que o viu de longe. — Maninho! — exclamou assustada. — Pensei que você não ia voltar. Noah hesitou, antes de enlaçar o corpinho magro da garotinha. E, quando nossos olhares se cruzaram, meu coração disparou. A garotinha era pequena e magra, não parecia ter mais que oito anos. Era loira e tinha olhos pálidos e azuis, assim como os olhos da Pamela. — Ei, calma. — Noah sussurrou para ela. — Precisamos sair da rua, está frio aqui fora. A garota se afastou abruptamente, olhando bem para o rosto dele. — Você não é meu irmão. — e tornou a chorar, mas não se afastou do Noah. — Ele não vai voltar mais, não é? Karen estava agachada e se levantou, percebendo que sua ajuda foi útil. Sorriu para Ygor e o pegou pela mão. — Não, eu não sou. — Noah explicou, fitando o rostinho dela. — Mas vou te ajudar, sabe onde estão seus pais? Podemos te levar de volta para sua casa. — afirmou com um tom de voz baixo e amoroso. — Não! — ela gritou e quis se desvencilhar dos braços do Noah. — Não quero voltar… — as palavras soaram engroladas por causa do choro e pela pouca idade. Faltava um pouquinho de dicção. Com algum custo, conseguimos acalmá-la e optamos por levá-la para a casa do Noah. Enquanto a assistente chegava, ela informaria o que seria feito e notificaria as autoridades. Pois, pelo visto, pensaram que se tratava de um trote. Já que nenhuma viatura da polícia apareceu no local. Era óbvio que a menina tinha um irmão, mas não sabíamos onde estava. Porém, com certeza ele parecia com Noah. Porque rapidamente ele conseguiu a confiança dela, que logo adormeceu encostada em seu ombro. Devia estar cansada de perambular pelas ruas, tinha as roupas sujas também, além de algumas marcas arroxeadas pelos braços. Aquela menina nitidamente foi agredida, restava saber por quem. Eu estava com tudo planejado para minha volta para casa. Só não imaginava que aquela garotinha alteraria todos os nossos planos. (...) — Eu vou ficar com ela. — Noah afirmou para Karina, enquanto a garotinha dormia na cama dele. Talita e Jonas estavam ao nosso redor, assim como o restante do pessoal. — Não é tão simples assim. — Karina rebateu. — Existe uma coisa chamada processo e burocracia. Ela tem um irmão em algum lugar e um padrasto que a quer de volta. Eu preciso investigar as condições de sobrevivência dela… — Noah a cortou. — Ela está machucada e não quer voltar, é indício suficiente de que algo está errado. Onde está esse irmão que sumiu? — rebateu, exasperado. Passou as mãos pelos cabelos e continuou: — Você vai permitir que ela retorne pra lá? — Não, Melissa ficará em um abrigo enquanto investigamos. — afirmou, austera. — O irmão dela está desaparecido há alguns dias, vamos descobrir o que aconteceu e analisar se ele tem condições de obter a guarda da irmã. — Sabem quem é? — Pelos registros ele se chama Márcio e se parece bastante com você fisicamente. Deve ser por isso que ela aceitou vir para a sua casa tão facilmente. — contou, mantendo a calma, apesar de tudo. — Entendo. — mas ele não parecia entender coisa alguma. Uma aura carregada emanava de si, preenchendo todo o ambiente. — Preciso levá-la comigo hoje, terei uma reunião com o padastro dela e enquanto isso Melissa ficará num abrigo. Já estamos investigando com a polícia sobre o paradeiro de Márcio— informou, Noah balançou a cabeça em negação. — Ela não vai querer. — A criança não pode ficar aqui. — Karina foi enfática. Nesse momento, a garotinha surgiu na sala onde conversávamos. Esfregava os olhos com uma carinha desolada. — Não quero ir embora… — choramingou, correndo para se agarrar às pernas do Noah. — Quero ficar com meu irmão. — Querida, ele não é seu irmão. — Karina respondeu amorosamente. — Mas parece! — retrucou, se agitando quando Karina aproximou-se. — Melissa, preciso te levar para um lugar bom. Até que seu irmão verdadeiro apareça, prometo que ninguém vai te machucar… — Não, não! — a garota recusava de todo jeito. Todos nós observamos a cena silenciosamente, sem saber o que fazer. Faz três dias que Melissa estava na casa deles, Karina permitiu que ela ficasse ali por estar muito abalada emocionalmente. E, como não tinha conseguido contato com nenhum responsável pela menina, achou melhor não movê-la. Visto que claramente Melissa sentiu-se segura estando perto de alguém que parecia com seu irmão. Toda a atenção do Noah estava voltada para aquela criança e eu compreendia completamente. Apesar de me sentir deslocada desde que encontramos a menina naquele estado. Meu coração estava aflito por presenciar a angústia do Noah, eu também não queria que Melissa sofresse. Contudo, entendia o trabalho de Karina, tanto que preferi não me envolver até aquele instante. Pois percebia que Noah se via um pouco como responsável pela menina. Era óbvio que talvez tivesse haver com a perda recente da irmã, afinal, a garotinha lembrava Pam na cor dos olhos e no tom claro dos cabelos. Além de depender dele, por achá-lo parecido com o irmão. Eu não sabia ao certo se era somente por isso que ele ficou tão tocado pela situação dela, a ponto de mergulhar de cabeça. Era louvável sua atitude, mas eu continuava vagando em tudo aquilo. Não conversamos muito a respeito, estávamos na correria para o evento. No qual eu, Karen e os meninos, passamos a cuidar dos pormenores e investir em ensaios com a banda. Todos os panfletos foram entregues, o evento estava minimamente programado. Só que Noah não fez parte direito, nem passamos a música que cantáriamos juntos. Tudo indicava que agora eu faria o dueto com Nataniel, enfim. Eram muitos sentimentos se sobrepondo, eu não sabia como agir. — Noah, ouça a assistente. Você pode se enfiar em confusão se não agir de acordo. — Jonas interferiu, vendo que a conversa não chegava a lugar nenhum. — Concordo. — Karen se pronunciou. Ninguém havia protestado até ali. Talvez porque o assunto era delicado e Noah estava envolvido, além de muito fragilizado. — Qual seu objetivo, Noah? — Karina quis saber, erguendo uma sobrancelha. — Precisamos conversar a sós, alguém pode, por favor, levar Melissa para o quarto? — me adiantei, a garota gostava de mim e não fez objeção quando a peguei pela mão. — Vem, Mel. — chamei, sorrindo. — Vamos brincar no quarto. — Vocês vão me devolver? — perguntou aflita. Fiz que não com a cabeça. Seguimos para longe e tentei distraí-la com brincadeiras. Mais tarde entendi que o desejo do Noah era adotar Melissa, achei intenso. Era uma decisão grande, importante, definitiva. Eu não sabia o que dizer sobre, por fim, a garota acabou adormecendo novamente. Permitindo que eu me interasse sobre o acontecido.
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