Capítulo três, por Damon Ricci.

1502 Palavras
Antes de sair da minha nova casa — onde moro de aluguel, o qual pago com minhas economias, graças ao meu emprego como professor na Universidade Sacro Cuore —, me certifico de que estou com tudo que preciso. Chaves, celular, maleta. Materiais para as aulas, laptop. Observo meu reflexo no espelho do meu quarto. Estou vestindo roupas comuns, pareco alguém comum. Já não uso mais roupas formais, muito menos a clérgima. Ao me olhar, é difícil me reconhecer. Por anos, fui padre. E essa vida era confortável para mim, apesar daquela sensação de vazio, de que faltava algo. Mas eu não pensava em abandonar o sacerdócio, essa ideia sequer passou pela minha cabeça nos últimos três anos — período em que comecei a questionar minhas vocações sacerdotais —, quer dizer, nunca pensei em abandonar o sacerdócio até ter conhecimento daquela carta. E é hipócrita da minha parte planejar tudo que planejo. É hipócrita sentir vontade de agir, sentir esse desejo de vingança, quando por anos falei sobre amor, sobre a importância do perdão. Mas eu não consegui me controlar, não consegui esquecer tudo que li. Então, unindo minha sede de vingança às minhas dúvidas em relação à minha vocação, deixei tudo para trás, para descobrir toda verdade sobre meu passado e acertar as contas com ele. Hoje completam cinco semanas que deixei para trás minha vida em Florença, Itália, para começar uma vida nova. Encontrei um lugar para morar, me estabeleci na cidade e encontrei um emprego, como professor em uma Universidade Católica, para lecionar nas disciplinas do curso de Teologia. Minha vida mudou completamente. Por quase todos meus trinta anos de vida, fui criado em um ambiente religioso, tinha certeza da minha vocação sacerdotal. E agora me vejo em um ambiente completamente diferente, sendo obrigado à me habituar aos novos costumes, uma nova rotina, um novo emprego, uma nova moradia. Não é r**m, apenas é estranho, para alguém que foi criado em um ambiente completamente religioso. Não posso falar que é fácil. Por anos de minha vida, me dediquei ao sacerdócio, à vida religiosa. E agora estou em uma realidade completamente diferente, com novos costumes, pessoas, hábitos. As vezes questiono minha decisão, questiono se abandonar algo que tanto quis por anos, abandonar uma vida monótona porém confortável, foi uma boa escolha. E as vezes não sei responder. Para tentar esquecer essas dúvidas, essas incertezas, penso em tudo que planejo, e que não poderia fazer se fosse sacerdote. Penso em minhas dúvidas em relação ao sacerdócio, meu desejo de conhecer o mundo, de abandonar tudo para começar uma nova vida, desejos esses que por anos reprimi, por medo, por insegurança. Aos poucos, começo a me aproximar dos meus suspeitos, que são vários. Para me ajudar nas buscas, irei ao monastero, para descobrir se a Madre Superiora sabe de alguma informação sobre toda essa história. Provavelmente sabe, mas não sei se irá me dizer. Desde que sou mais jovem, ela nunca quis falar sobre esse assunto. Sempre falou que era delicado demais, e que eu não estava preparado para saber de tudo. Mas agora, já adulto, sei que estou pronto. E quero saber de tudo. Antes de deixar meu quarto, observo aquele quadro na parede, ao lado do espelho. Vermelho, com fotos e papéis expostos, com nomes, informações, suspeitas. No total, quarenta e dois. Digamos que as — pouquíssimas — informações que tenho são um pouco genéricas, então não são tão úteis. São nomes encontrados em redes sociais, jornais, internet. Informações quase inexistentes, mas que guardo, podem ser importantes no futuro. Mas minha única esperança, de fato, é minha conversa com a Madre. São pouco mais de sete da manhã quando desço as escadas do sétimo andar em direção ao térreo. Me aproximo do Mercedes C Class, meu carro. Não é novo, mas foi o que consegui pagar com meu dinheiro. Lecionar por anos em uma das mais importantes faculdades da Itália me rendeu um certo — e consideravelmente alto — valor. A Universidade é próxima à minha casa, então são poucos minutos de trânsito até o prédio. E considerando o trânsito calmo, poderei chegar um pouco antes. Quando cheguei em Aosta, procurei empregos em todos os lugares possíveis. Não poderia viver para sempre com meu dinheiro. Então chegou para mim uma oportunidade para lecionar, e logo aceitei. Por motivos pessoais, minha antecessora precisou deixar a instituição, e graças ao meu currículo impecável, consegui tal vaga. O salário é bom, me garantirá uma vida confortável. Poucos minutos depois, estou em frente ao meu destino. Um prédio enorme, que se destaca entre os demais. Não por ser de um estilo um pouco mais rústico, ou pela grandiosidade da construção, mas sim por seus jardins completamente secos, com várias flores mortas, várias rachaduras em sua estrutura, e a pintura completamente desgastada pelo tempo. Enquanto os outros prédios ao redor são belos, seguindo um estilo mais contemporâneo, este aqui — que algum dia já deve ter sido majestoso — nos dá a impressão que irá ceder em qualquer momento. Nos bancos de madeira espalhados pelos arbustos e pela grama seca — que com certeza já foi verde algum dia —, estão vários jovens, estudando, conversando ou então distraídos em seus celulares, completamente perdidos em seus pensamentos enquanto estão ouvindo música nos fones. Nunca soube como é isso, viver essa fase onde não há preocupações, ir em festas e namorar, já que com essa idade estava cursando teologia, e quando não estava estudando, estava rezando. Ao descer do veículo, os olhares de algumas pessoas se direcionam à mim. Os vejo conversando entre si, ouço os murmúrios curiosos enquanto me observam. Uma pessoa nova, em meio à tantos conhecidos, é sempre alvo de comentários. Algumas garotas me lançam sorrisos e acenam para mim, mas não as dou atenção. Alguns poucos alunos me direcionam um bom dia, e tentando ser gentil, os respondo. Subo as escadas até o segundo andar, onde será minha primeira aula. Ao entrar na sala, de número 102, encontro boa parte da turma quieta, alguns poucos alunos conversam entre si, ou estão distraídos em seus celulares. Deposito minhas coisas na mesa, e observo atentamente cada aluno. Porém meu olhar se direciona à bela garota em minha frente, de costas para mim. Ela me parece familiar, mas não consigo recordar-me de onde a conheço. — Bom dia, turma. — cumprimento. Então, seu olhar encontra o meu. E consigo me recordar do seu rosto angelical. Ontem, enquanto passeava pela região, passei por uma igreja. E lá estava ela, seus longos cabelos dourados soltos, seus olhos atentos encontraram os meus, e ela me analisou por algum tempo, até ser levada para catedral. Seus olhos azuis me analisam nesse momento, e ela parece surpresa ao me ver. Lanço para ela um sorriso, e suas bochechas ganham um leve tom escarlate. Agora, tão próximo, posso analisar seus traços com perfeição. Seus lábios desenhados, tão avermelhados. Seus olhos azuis, quase cristalinos. Sua pele clara, que mesmo com maquiagem, não consegue esconder seu cansaço e as olheiras fundas. Seus cabelos ondulados soltos, posicionados de modo a esconder seu pescoço. E em minha mente, penso nos motivos que possa ter para isso. Um ficante proibido, talvez? Quando ouço os murmúrios dos alunos, provavelmente sobre mim, desvio meu olhar do seu. Pela visão periférica, vejo quando uma garota morena, que está atrás dela, diz algo em seu ouvido. Ela n**a discretamente, e sorri, tímida. Tento parar de pensar nela, tento parar de desejá-la, mas não consigo. Sim, mesmo quando fui sacerdote, me senti atraído por algumas garotas, mas com ela é diferente. Nunca me senti tão atraído por uma mulher, e isso me assusta um pouco. — Meu nome é Damon Ricci. — digo, enquanto todos os alunos estão em silêncio, atentos às minhas palavras. — Sou o novo professor na área de teologia, estarei encarregado de lecionar as disciplinas de Cultura Religiosa e Comunicação e Homilética. Preciso saber tudo que aprenderam com sua antiga professora, então necessito de alguém que esteja disponível para me ajudar. Alguém se disponibiliza? Ouço alguns burburinhos pela turma. Logo, alguns alunos erguem suas mãos. Inclusive aquela garota que vi ontem, na igreja. Além dela, um garoto moreno, bastante tatuado, uma garota ruiva e outra loira, se oferecem para me ajudar. — Certo. — digo, e com a mão, indico a garota em minha frente. — Senhorita... — Angelique. — diz, com uma voz doce e encantadora. Nome esse que faz jus à sua beleza, angelical. — Angelique Balti. — Senhorita Balti, poderia me ajudar nisso após o fim das aulas? — ela assente. — Professor, também posso ajudar. — diz a ruiva, com cabelos grandes e um batom vermelho vivo nos lábios, com uma voz falsamente meiga. O sorriso em seus lábios entrega suas reais intenções. — Muito obrigado, senhorita... — Natasha Salvatore. — completa. — Muito obrigado, senhorita Salvatore, mas preciso apenas de um aluno. — digo, e lanço um discreto sorriso para Angelique Balti, que cora violentamente. — Enfim, podemos começar nossa aula? 
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