ISABELA FERRARI
Chego em casa exausta.
Nem olho pro lado — vou direto pro meu quarto.
Preciso de um banho quente e cinco minutos sem pensar em Victor Alencar, na barraqueira da noiva dele ou nas minhas tarefas infinitas.
Tiro a roupa no caminho até o chuveiro, como quem se livra de peso.
Depois do banho, visto uma roupa confortável e me jogo na cama.
Ainda é cedo…
Dá pra dormir um pouquinho.
Ontem não dormi nada. E Fer ainda não chegou. Paz. Finalmente.
— Acorda, Isa! Acorda! — ouço a voz dela como se estivesse embaixo d’água.
— Só mais cinco minutos... — murmuro.
— Vamos nos atrasar, miga! — diz animada.
— Já acordei! Que horas são?
— Sete e meia.
— Já?! Dormi demais, certeza.
— Imagina! Dormiu nada! — responde rindo.
Rimos juntas. Me espreguiço como um gato e vou direto ao banheiro.
— Vou tomar banho. Já saímos, ok?
— Beleza. Vou só escolher a roupa do século.
Depois de escovar os dentes e secar o cabelo rapidinho, pego um vestidinho preto básico, daqueles que salvam a dignidade em qualquer rolê.
Mas fico com um pé atrás…
Fer nunca chama pra “só um cinema”. Sempre tem um plot.
— Pronta, miga?
— Sim. Você tá gata.
— Obrigada. Você tá mais.
— Estamos! — responde, rindo.
No caminho até o shopping, conto tudo o que aconteceu com Aline, com o Victor, com o inferno do dia.
Fer ouve em silêncio. Mas dá pra ver nos olhos dela a fúria subindo.
— Aquela mulher é um lixo. E esse seu chefe precisa de terapia e umas palmadas.
— Eu quase pedi demissão, Fer. De verdade.
Já no cinema, dou de cara com dois rapazes vindo na nossa direção. Um moreno e um loiro, ambos vestidos como se fossem dar entrevista pra reality show.
Sorriso de orelha a orelha.
— Boa noite, garotas. — diz o moreno.
— Boa noite. — respondemos juntas.
Eu sabia. Era furada.
Fer armou isso. De novo.
— Fernanda, você me paga. — sussurro.
— É só um cineminha, miga. Não é casamento. Já que você vai casar com seu chefe mesmo…
— Fer, não começa.
— Não é maluquice! É visão. Intuição feminina.
— Ah, pai… me dá paciência.
— Prazer, sou o Rick. — diz o loiro, já piscando pra mim.
— Fernanda. E essa é minha amiga Isabela. — ela diz.
— E eu sou o Marcos. — completa o moreno, colando nela.
— Prazer, rapazes. — respondo, educada e nada entusiasmada.
Descubro rapidinho que Marcos está ficando com a Fer e trouxe o amigo pra me fazer companhia.
Eu mereço.
Entramos na sala e escolhemos um filme: Alerta Vermelho, com o The Rock, Gal Gadot e Ryan Reynolds.
A combinação perfeita: ação, comédia e zero espaço pra cantadas.
Mas claro que nem isso é garantido.
Rick senta ao meu lado.
E começa com as gracinhas.
— Vem cá, morena… me dá um beijinho.
— Tá louco? Óbvio que não.
— Ah, por quê? Vamos nos divertir, só um pouco.
— Desculpa, Rick. Não tô afim.
— Você não sabe o que tá perdendo. — diz, com aquele sorriso de salão de bronzeamento.
— Sei sim. E sinceramente? Não tô perdendo nada.
Ele se cala, ofendido, e sai da sala.
Aleluia.
— Miga… de novo? — Fer cochicha.
— Já vai tarde. Agora posso assistir ao filme em paz.
— Isa, você não toma jeito.
— Você que não para de me enfiar em encontros com idiotas.
— Só quero ver minha amiga feliz.
— E eu sou.
— Não parece.
— Shhh. Vamos assistir. — volto a olhar pra tela.
Mas por dentro…
A felicidade ainda parece distante.
Ela tá presa atrás das grades onde meu irmão dorme todas as noites.
E eu sei que a culpa por ele estar lá…
É minha.