Isabela Ferrari Depois do trabalho, combinei com o Bernardo de visitarmos nossa mãe. A enfermeira havia ligado mais cedo, avisando que ela teve um surto — tentou se cortar. Ninguém sabe como conseguiu um estilete. Desde que nosso pai morreu, a luz que existia nela se apagou. No início, ela ainda sorria de leve, fingia normalidade. Até aquela noite em que entramos no quarto dela e encontramos os pulsos ensanguentados. Bernardo agiu rápido, estancou o sangue, me mandou ligar para a emergência. Desde então, ela está internada. Foi o dia em que perdemos os dois: pai e mãe. Já em casa, tomo banho, mas minha cabeça está longe. Fico encarando o armário, debatendo comigo mesma se devo ou não ir ao jantar com Scott. A real? Eu não quero. Mas o que é querer mesmo quando a vida empurra a gente?

