Moleza que nada...cap...6

670 Palavras
ISABELA FERRARI Acordo antes mesmo do despertador tocar. Tomo um banho rápido, faço minha higiene matinal, e vou direto pro uniforme novo. Me olho no espelho e... Ah, ótimo. A blusa tá apertada. Respirei, estufei o peito (o que só piorou) e tentei me convencer de que era impressão minha. Mas não era. — Será que o Sr. Alencar mandou fazer esses uniformes pensando em quem? Boneca inflável? — resmungo sozinha. Ou será que fui eu que engordei? Não importa. Primeiro dia de trabalho, não posso causar. Já chega o café na camisa dele ontem. Na cozinha, preparo o café da manhã pra mim e pra Fer, minha miga do coração, que sabe fazer milagres com um secador, mas nem fritar um ovo consegue. — Bom dia, Isa — ela aparece ainda de pijama, descabelada. — Bom dia, Fer. — Tá de pé desde as quatro da manhã, é? — Que nada. Acordei no mesmo horário de sempre. Só... empolgada. Ela me analisa com um sorrisinho. — ISA! Você tá um estouro com esse uniforme! — Tá apertado demais, Fer. Isso aqui não é roupa pra trabalhar, é quase um convite ao assédio. — Para, miga! A culpa é do seu corpo, não da roupa. — Sei… Rimos e tomamos nosso café em paz. Mais ou menos. Chegando à empresa, cumprimento o porteiro — que provavelmente me considera uma maluca desde o surto no dia da entrevista — e vou em direção ao elevador. Paro. Fico olhando. Odiando. Detesto lugares fechados. Respiro fundo e… decido ir de escadas. Afinal, tô adiantada. Tiro os sapatos, prendo o vestido com um nó e começo a subir. E me arrependo no terceiro andar. Mas agora já comecei, né? — Ufa! — ofego ao alcançar o andar da diretoria. Recalço os sapatos, ajeito o cabelo, e vou até minha nova mesa, que fica de frente pra sala do chefão. Deixo minha bolsa de lado e começo a dar uma olhada nos papéis que já estavam lá. Respirei fundo. — Vai dar tudo certo, Isa. Tudo certo. Então o elevador se abre. E lá vem ele. Victor Alencar. Impecável. Inacreditável. E insuportável. Ao lado, um homem tão bem vestido quanto — mas sem aquele olhar de quem quer devorar a alma dos outros. Antes de entrar na sala, Victor me chama: — Na minha sala. Agora. — Sim, senhor — respondo, controlando o revirar de olhos. — Nem um bom dia? Que educação. — Murmuro baixo: — Disse algo? — pergunta, parando na porta. — Não, senhor. Nada. Mas o sócio dele ouviu. E deu uma risadinha de canto. Ótimo. Primeiro dia e já sou a piada. Pego um caderno e uma caneta, e entro na sala. Ele está no notebook, digitando como se eu não existisse. Fico lá. Em pé. Dois minutos. Três. O salto começa a incomodar. O suor escorre entre os p****s. A blusa aperta as costelas. — Com licença, Sr. Alencar... — digo, tentando manter a postura. — Estou aqui há um bom tempo. O senhor deseja algo? Ele ergue os olhos. E aquele olhar... Meu corpo esquenta. Tomara que seja raiva. — Quero que tire cópias deste contrato... — diz, entregando um papel — ... e organize todos aqueles documentos por ordem alfabética e ano. Ele aponta para uma pilha. Não. Uma MONTANHA. — Isso tudo? — Ah, senhorita Ferrari... — diz com aquele sorrisinho de canto — quero tudo organizado até amanhã de manhã. — O quê?! — escapa da minha boca antes que eu possa evitar. Ele levanta uma sobrancelha. — A senhorita falou algo? — Não, não, senhor Alencar. — recuo. — Muito bem. Pode se retirar. Saio da sala com um leve ranger de dentes. — Tá de brincadeira, né? — sussurro pra mim mesma, encarando a pilha. — Isso é perseguição. Só pode. Tá se vingando da camisa... E eu que achava que o primeiro dia ia ser leve. Iludida. Totalmente ferrada. Mas se ele acha que eu vou desistir... Ele não me conhece.
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