Processo de Mudança

2011 Palavras
Pela forma como se segue o vento, o tempo, a nuvem e a moldagem que a vida vem impondo, pode ser que continue chovendo. Ninguém quer de fato se molhar, mas a vida tem que continuar, independente do que esteja acontecendo. Alguns sabem que toda a pressa é inimiga do cuidado, mas nem todos ligam e o sonho feliz é de chegar e cair no mar. Nossos autores favoritos estão se preparando para a Bienal, enquanto buscam escrever e se promover, buscando a premiação tão aguardada, bem como o corte de cena, o g**o, a ginga, a luz, o som e a festa. Quem será o grande vencedor do prêmio? Muitas reviravoltas ainda virão, tenho certeza. – Você acha que eu posso ganhar? – questionou Anne apreensiva. – E porque achas que você não venceria? Tem total capacidade nisso, acredite! – rebateu a Gerente de Aquisições da Editora Tela Viva. Ambientando o cenário de nossa nova h*****a, Anne é uma escritora de sucesso que já venceu o Prêmio de Melhor Autor da Bienal do Livro RJ. No mesmo dia, ela assinou contrato para que dois de seus livros fossem adaptados na Netflix, ela viveu seu auge até descobrir que sua mãe, guerreira que batalhava contra uma doença no pulmão, faleceu. Anne teve sua vida virada do avesso, suas duas filhas foram morar com o pai na Grécia e ela caiu no mundo das bebidas e gandaias, até sofrer um acidente grave que lhe deu uma cicatriz no rosto. Passou a viver reclusa, e em hiato enquanto suas séries faziam sucesso. Oliver, seu amor de infância, apareceu no fim do ano passado, completamente por acaso enquanto tirava férias forçadas em Minas Gerais no hotel de sua agente literária, de lá para cá, eles não se separaram mais. – Eu não escrevo faz muito tempo, não sei o que o pessoal anda lendo ou o que está em alta no momento. – respondeu ainda apreensiva. Anne estava um pouco receosa ainda com essa ideia de voltar aos holofotes da escrita. Oliver, pelo tom de voz de sua mulher, sabia que ela estava triste com a situação, mas já previa que velhas cicatrizes pudessem se abrir ao reexplorar o universo literário. – Anne, eu entendo que você tenha suas dúvidas e incertezas, na realidade, eu não queria lhe forçar à fazer o seu primeiro movimento nesta Bienal, poderia ser na próxima, daqui à dois anos com algo que você já lançou e colocaríamos uma versão de luxo, me entende? – Sim... – Mas são ordens da Editora-Chefe, eu sou apenas uma mera funcionária. – respondeu chateada. Assim que decidiu voltar a escrever, sua agente literária também saiu da aposentadoria e indicou a Editora Tela Viva. Como Anne e ela são muito amigas, nossa escritora assinou, mas parece que algumas decisões de explorar sua imagem estão indo em desacordo com o que ela desejava. – Acontece que eu não queria aparecer muito, me entende? – expôs Anne, chateada e envergonhada. – Mas isso é algo que eu acho, assim, na minha humilde opinião que você poderia reconsiderar. – pontuou. Oliver concorda com a gerente em tudo, gênero, número e grau. Anne até que achou engraçado quando lhe encarou olhando para o lado e notou que ele balançava a cabeça positivamente em cada palavra da gerente. Irei parar de chamá-la simplesmente como gerente e a apresentarei como Agnes, pois ela será uma personagem importante e recorrente em nossa obra. Agnes ou simplesmente Angel, como chamam, é uma branquinha linda, de bochechas rosadas e um longo cabelo loiro bem fechado, quase castanho, acompanhado de um belo par de pedaços de céu azul em seus olhos. Um verdadeiro anjo, diga-se de passagem. Ela ama tudo aquilo que envolve livros, é uma ex-agente literária que se tornou gerente de aquisições, mas nunca abandonou o agenciamento por completo. Se tem algo que ela realmente não suporta, é a família, principalmente os tios e primas por parte de mãe, com quem também não tem um bom relacionamento. "Não querem nada com a vida". – é o que sempre fala quando perguntam sobre. – Vai reconsiderar? – insistiu. – Eu não sei, preciso rever algumas coisas. – desconversou. – Olha, tem outro ponto que preciso mencionar sobre o livro. – O livro? – Sim... – Agnes estava um tanto sem jeito de falar. – Eu errei alguma parte? Tem tido muitos erros de português? É que eu ando corrigindo muito pelo próprio Word, sabe? Andei muito tempo em hiato, ainda estou me acostumando com as coisas e tal, mas quem sab... – Agnes lhe interrompeu. – É que não tem sexo... – as palavras de Agnes meio que passaram despercebidas. – Se eu continuar a escrever, pode ser que a minha prática volte. – Anne continuou a conversa de onde havia parado na maior cara dura. – Anne, eu entendo, mas... Assim... "Ela disse que o meu livro não tem s**o?" – ponderou Anne. "Como eu falo pra ela que o livro precisa de s**o?" – pensou Agnes. – Sei que os seus romances românticos são maravilhosamente perfeitos. – Anne ergueu a sobrancelha no exato momento em que Agnes terminou de falar. – Mas? – pontuou. – Mas é que os livros com cenas Hot tendem a vender mais, me entende? – completou. "Espero que ela entenda o meu ponto de vista e o que o mercado vem consumindo". – pensou Agnes. "O que ela espera que eu entenda? Realmente não estou a fim de escrever essas coisas no meu livro" – pensou Anne. – Como assim? – questionou Anne. Oliver pareceu já ter entendido o caso. "Acho que a Anne não irá aceitar". – Os livros de hoje em dia tem muito Hot e o seu é repleto de slowburn, me entende? E quando as coisas vão acontecer, você simplesmente não entrega o s**o. O caminho que escolhe é simplesmente o de pular de cena. – Continue. – expôs. Agnes retirou de seu bolso um celular e mexeu até o original com seus comentários. – Página cinco, linha quatro do terceiro parágrafo, você indicou que a protagonista tinha uma queda pelo protagonista, certo? – Anne confirmou com a cabeça. – Lá na página cinquenta e nove, lá pelo meio do último parágrafo, você explicou o beijo com uma riqueza de detalhes ímpar, até eu senti o gosto da língua dele ou o batom de cereja que ela usava. – pontuou. Anne e Oliver caíram na risada. – Na página seguinte, você deu o que todos queriam, a cena da cama, somente para não mostrar nada e cortar para o dia com os dois amanhecendo juntos, me entende? – completou. – Eu pulei o s**o ora, não preciso escrever uma coisa dessas para vender meu livro. – Não mesmo, eu concordo, mas que tal não pular as cenas de s**o? – Como? – Entregue-as, se vai rolar algo, comece entregando uma cena, depois corte. Numa segunda vez, faça o mesmo, expandindo um pouco mais, revelando a i********e, depois corta. Na terceira vez, seja mais ousada escrevendo e então, pare na metade. Você vai brincando com a imaginação do leitor, me entende? – SIM! – Anne realmente ficou interessada com as dicas que Agnes lhe deu. – É que às vezes eu não sei se deveria mudar, sabe? Vou pelo menos manter o tom, mas incluir as cenas mais quentes entre eles. – Mudar faz bem, sabe? – pontuou Agnes. – Você acha mesmo isso? – questionou Anne. – Sim, a Agnes das sete horas da manhã, não é a mesma a Agnes das sete horas da noite, sabe? Então, apaixone-se pelo processo de se tornar a sua melhor versão. – sorriu. Anne tomou aquilo como um desafio que ela queria ousar. – Terá notícias minhas daqui a dois dias, pode ser? – Óbvio! – respondeu Agnes animada. O telefone dela toca, era a sua mãe, obviamente querendo saber sobre a reunião com Anne. – Já terminou? Como foi? – questionou. – Que nada, finalizamos agora! – Mas demorou tanto assim? Meu Deus! – brincou. – Sim, mas foi por um bom motivo. – respondeu enquanto sorria para Anne. – Vai dar tudo certo mulher! – gritou Anne para a dona da Editora. Enfim, para resumir o andar da carruagem, Anne e Agnes se encontrarão daqui à dois dias com umas cenas extras mais apimentadas. – Xau, até mais. – se despediu Anne. – Até daqui a dois dias, viu? – brincou Agnes. Mas não vamos nos atentar à movimentação de nossa h*****a, pelo menos por hora, pois a mãe de Agnes tornou a ligar. – Você está muito ocupada? – Não pô, a reunião acabou, o que a senhora quer? – É que... Bom... Assim... – sua mãe sabia que era um assunto delicado. – Desembucha logo, o que ouve? – É que estamos precisando de editores e revisores novos... E eu... Assim... – FALA LOGO. – reclamou Agnes. – Eu quero chamar o seu primo para trabalhar com a gente... – De novo? – pontuou. – Mas... Ele já tem experiência com isso... – Mãe, escuta só, existem quatro coisas que eu faço questão de cortar. – E quais seriam? – perguntou desconfiada. – Intimidades forçadas, liberdade descabida, gente invasiva e o m*l pela raiz, fui clara? – expôs Agnes. – Tá bom filha... Ela desligou o telefone com raiva. "Eu verdadeiramente não consigo acreditar na mera hipótese da minha mãe simplesmente questionar a possibilidade de chamar o vagabundo do meu primo novamente para um trabalho fixo". – imaginou Agnes. Seu celular vibrou, era o w******p avisando que havia chego uma mensagem importante. Ela bem que pensou que poderia ser algo importante, afinal de contas, gerenciar um setor inteiro de uma editora, realmente não é para qualquer um, certo? Bom, pelo menos para mim, tratava-se de algo importante, mas para ela? Realmente não era. "Você devia ter mais fé nas pessoas, todos nós estamos em processo de mudança". – era o que estava escrito. Tratava-se de uma mensagem da senhora sua mãe, ainda tentando abordar o tema anterior, referente seu primo. Mas Agnes simplesmente visualizou pela tela de notificação para não marcar o visto de leitura. Ela completou a atitude bloqueando a tela do celular e desligando-o. "No fim, ela que é a dona, eu só espero não ser encarregada de resolver os problemas que ele arrumar quando sumir novamente sem deixar explicações. Se ela quiser contratá-lo novamente, eles é que se resolvam". – refletiu. Como bem vimos, Agnes tem um certo rancor para com seu primo mais velho não tão querido, mas creio que o deus do destino e a senhora do acaso ainda guardem fortes surpresas estão destinadas para estes dois, bem como para seu futuro. Sugiro que guarde esta informação para esclarecimentos futuros, mas enfim, ela não passa de uma coadjuvante nesse emaranhado de tramas que o autor escreveu, vamos para o nosso casal protagonista do capítulo. Os dois caminhavam rumo à portaria do elegante local em que marcaram a reunião. Contudo, não jantaram, ainda giramos em torno das vinte horas e os personagens deste livro sabem que se comerem algo agora, às dez horas em ponto, já começarão a sentir fome. – O que achou? – questionou Oliver. Os dois caminhavam de ombros dados, bem casal mesmo. – Do que? – respondeu Anne. Anne, ainda estava pensativa quanto à reunião e as decisões tomadas, mas andar com Oliver em público como um casal de verdade, sempre a distraia positivamente. Oliver e Anne pararam na portaria do restaurante de onde estavam reunidos com Agnes para pegarem um Uber, a fim de irem para casa. Ainda bem que estamos numa região próxima do Centro da cidade, aqui existem inúmeros motoristas de aplicativo e em pouco tempo, finalmente chega o motorista do casal. Anne e Oliver entram no carro e enquanto nosso herói estava pensando em problemas banais e triviais do dia a dia, Anne, nossa escritora favorita, estava encarando e refletindo sobre seu mais recente problema. "Preciso mesmo escrever e falar sobre s**o no meu livro pra vender mais?"
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