Rhys não planejara jantar com Lucy naquela noite, mas vê-la com Scarlet tornara isso absolutamente necessário. Eles não sabiam nada um a respeito do outro. Quando a notícia do noivado fosse dada, as pessoas começariam a fazer perguntas, e eles precisariam combinar tudo.
Depois que o garçom anotou os pedidos deles, Rhys olhou para sua noiva. Sabia que ela era linda, espirituosa, carinhosa e excitante. Sabia que ele a desejava mais do que já desejara qualquer mulher. Contudo, não sabia quase nada sobre quem ela era, de onde viera.
– Fale de você, Lucy. Preciso saber tudo para convencer todos de que estamos juntos de verdade.
Ela deu um gole no vinho enquanto tentava pensar por onde começar.
– Fui criada em Beverly Hills. Meu pai é produtor cinematográfico, como você sabe. Ele conheceu minha mãe num set de filmagem na Sicília, e os dois se casaram às escondidas menos de um mês depois de terem se conhecido.
– Então eles não podem reclamar do nosso noivado rápido?
– De jeito nenhum. – Ela sorriu. – Mas isso não impediu meu pai de me passar um sermão no telefone hoje à tarde. Tive que garantir a ele que o noivado duraria algum tempo, para impedir que ele pegasse um avião e viesse conversar com você.
– O noivado mais longo da história.
– Meus pais são meu modelo de como deve ser um casamento. Eles têm o que sempre esperei ter quando me casasse.
Rhys gravou aquilo. Lucy queria o pacote completo. Provavelmente, aquilo não era como ela imaginara que seu noivado seria. Ele se sentiu m*l por isso. Entretanto, ela ainda teria chance de ter seu conto de fadas com o próximo homem que surgisse. Aquele era um acordo temporário.
– Tenho uma irmã mais nova, Therése – continuou ela –, que mora em São Francisco. É fotógrafa de moda. Eu me mudei para D.C. depois do colégio e fui estudar em Georgetown.
– Também estudei em Georgetown. Talvez tenhamos frequentado na mesma época. – Lucy disse os anos, e, felizmente, batiam parcialmente com os dele, que se formara dois anos antes dela. – Excelente. Acho que, se dissermos às pessoas que namoramos na faculdade e nos encontramos novamente este ano, isso vai tornar a velocidade do relacionamento mais plausível. O que você estudou?
– Recebi um diploma em Comunicação, com especialização em Ciência Política. Eu queria ser comentarista política.
– Uma pena não ter sido. Eu teria adorado ver você na minha tela todas as noites. É estranho nunca termos assistido a nenhuma aula juntos. Também fiz algumas matérias de Comunicação.
Lucy deu de ombros.
– Talvez isso tenha acontecido. As turmas eram muito grandes.
Rhys balançou a cabeça.
– Eu teria notado você. Tenho certeza.
Lucy corou e começou a mexer no pingente de ouro que ficava em seu pescoço, algo parecido com um tipo de chifre. Ela estava com um vestido tomara que caia grená, com um decote em “V” muito generoso. Rhys já percebera o cordão, mas toda vez que ele pensara em perguntar a respeito, distraíra-se ao ver os s***s dela.
– O que quer dizer esse cordão? Você o usa o tempo inteiro.
Ela o estendeu para que Rhys o visse melhor.
– É um corno porta fortuna. Minha avó me deu. É uma tradição italiana usá-lo para afastar mau olhado. Eu uso para ter boa sorte.
Definitivamente, a maneira como o chifre repousava no vale entre os s***s dela era algo de sorte para ele. Aquilo lhe dava uma desculpa para olhar os firmes s***s de cuja sensação em suas mãos ele ainda se lembrava.
– No elevador, você falou que passava os verões na Itália com a sua avó.
– Sim, passei todos os verões na Sicília desde quando eu tinha uns 5 anos até me formar no colégio. Minha mãe ia comigo quando eu era mais nova, mas, quando comecei no colégio, passei a poder ir sozinha. Minha mãe sempre dizia que era importante eu manter contato com a minha cultura. Minha avó me ensinava autênticas receitas italianas e me contava histórias da família. Minha irmã e eu aprendemos bastante italiano ao longo dos anos. Mas já não me lembro de tanto.
– Você se lembra de todos os xingamentos.
– Claro. – Ela riu.
– As suas superstições também são de lá?
– Sim. Os italianos são um povo muito supersticioso. Minha avó disse que só me ensinou algumas delas. É incrível. Minha mãe nunca se importou muito com isso, mas era algo especial que eu compartilhava com minha avó. Ela morreu no ano passado, mas as superstições a mantêm viva na minha mente.
– Felizmente, ela contou a você sobre a das joaninhas, ou eu estaria muito encrencado agora. Algum mau agouro no qual eu deva prestar atenção?
– Hum… – disse Lucy pensativa. – Tem os mais conhecidos; espelhos quebrados e tal. Nunca deixar seu chapéu em cima da cama. Nunca pôr o pão de cabeça para baixo na mesa. Pássaros ou penas dentro de casa dão azar. Se você derramar sal, precisa jogar um pouco por cima do ombro. O número mais azarado é 17. Nunca se casar numa sexta-feira. Tem milhões delas.
– Uau. Já devo estar totalmente amaldiçoado e nunca soube.
Lucy sorriu, recostando-se na cadeira para deixar o garçom pôr a comida na mesa.
– Acho que você se saiu bem sem saber.
Era verdade. Ele construíra um nome e tanto para si mesmo nos meios de comunicação. Só tinha 28 anos. Quem podia saber o que mais ele conseguiria no futuro de sua carreira? Fechar o acordo com sua tia e assumir controle total do ANS poderia ser o trampolim para coisas maiores e melhores. Especialmente se ele recebesse a herança de 2 bilhões de dólares.
O cérebro dele sequer conseguia compreender o que era ter tanto dinheiro. No momento, estava concentrado apenas em comprar totalmente o ANS. Com sorte, tudo daria certo. Entretanto, era difícil até mesmo se concentrar em suas preocupações com uma mulher tão linda sentada diante dele.
– O que acha de mais algumas curiosidades aleatórias sobre você? Do que você gosta e não gosta? – perguntou Rhys.
– Minha cor preferida é vermelho. Adoro chocolate amargo. Sou alérgica a gatos. Sei cozinhar, mas não cozinho. Detesto cenoura. Meu nome do meio é irlandês, impossível de soletrar ou pronunciar.
– Espere. Qual é?
– Meu nome? O jeito de pronunciar é cuí-vâ, que é bonita em gaélico. Infelizmente, em inglês, ele é pronunciado de um jeito totalmente diferente de como se escreve. C-A-O-I-M-H-E – soletrou ela, dando novamente a pronúncia. – Tente explicar isso na hora de fazer algum cadastro.
Rhys riu, sem confiar em si mesmo para repetir o nome sem assassiná-lo.
– Meu nome do meio é Douglas. Não muito empolgante nem difícil de soletrar.
– Tenho inveja de você.
– E a família do seu pai? Você não falou muito dele.
– Meu pai não é tão próximo da família assim, o que é estranho, já que eles moram em Malibu, a menos de 50 quilômetros de Beverly Hills. Só vejo meus avós em datas comemorativas e aniversários. Sou muito mais próxima do lado da minha mãe.
– Parece a minha família. Quase nunca os vejo. Fale mais de você.
– O que mais? Nunca faço exercícios; detesto suar. E adoro luxuosos banhos de espuma e longas caminhadas pela praia. – Ela riu. – Isso está parecendo um anúncio pessoal tosco num site de relacionamentos.
– Não é tosco. Se eu o lesse, mandaria uma mensagem imediatamente para você.
– Obrigada. Mas chega de falar de mim. E você? É sua vez de me contar tudo sobre Rhys McDowell.
***
O jantar fora muito bom. A conversa fluíra facilmente, e Lucy precisava admitir que se divertira. Gostava de passar tempo com Rhys. Honestamente, ela gostava dele. Ele era bonito, inteligente, engraçado e de conversa fácil. Fora bom ouvi-lo falar sobre sua família e seu trabalho. Ele era tão apaixonado pela carreira… Aquilo a fez entender como o sucesso do ANS era importante para ele. Uma parte de Lucy desejou que ela o tivesse conhecido na faculdade. Quem poderia dizer o que teria acontecido?
Bem, não era verdade. Ela sabia o que teria acontecido. Eles teriam namorado, ela teria se apaixonado por ele, e ele teria terminado o namoro em algum momento, partindo o coração dela. Rhys não era do tipo de homem que tinha relacionamentos duradouros.
Apesar disso, ele parecia estar aceitando muito bem a história do noivado. Na verdade, fora muito educado com ela, prestando atenção sempre que ela falava e a observando de forma apreciativa.
Rhys parou seu conversível diante da casa de Lucy e desligou o motor. Virou-se para ela, com um tímido sorriso curvando seus lábios. Não falou nada quando viu Lucy pegar a bolsa e o casaco, mas também não fez nada para permitir que ela saísse do carro.
Subitamente, o jantar pareceu um encontro romântico, e isso a deixou um pouco nervosa. Bobagem, e não apenas porque ele já a vira nua, mas também pelo fato de eles estarem noivos. Teoricamente.
– Eu me diverti muito hoje – disse ela, sentindo-se i****a no instante em que as palavras saíram.
– Eu também. Eu… hã… queria agradecer novamente por fazer isso por mim. Eu me sinto como se tivesse roubado todo o seu tempo hoje.
– Tenho certeza de que eu não tinha nada importante planejado.
– Tem tempo na sua agenda para tirarmos algumas fotos de noivado? Eu queria uma para pôr junto do anúncio no jornal.
– Acho que sim. Peça para Jessica dar uma olhada na minha agenda de manhã. Preciso usar alguma roupa especial ou fazer cabelo e maquiagem?
– Você está perfeita assim mesmo. Eu não poderia querer uma noiva mais bonita.
Lucy corou. Não conseguiu evitar. Alguém que o ouvisse acharia que ela era a mulher mais linda do mundo. Era ridículo. Ela era bonita, mas nada de especial. Mas Rhys tinha uma maneira de fazer com que ela se sentisse especial.
– Você só está me bajulando para que eu não mude de ideia.
– Totalmente – admitiu ele. – Mas é fácil quando é verdade. Você não faz ideia de como pensei em você depois daquela tarde que passamos juntos. Agora, passando um dia inteiro com você, precisei resistir. Passei as últimas três horas tentando não beijar você. Não sei se aguento muito mais.
Lucy não conseguiu evitar arfar de surpresa com a forma tão honesta como ele falava de seu desejo por ela. Antes que ela conseguisse pensar em algo inteligente a dizer, ele se curvou e levou seus lábios aos dela.
Não era o primeiro beijo deles. Nem mesmo o segundo. Mas era como se fosse. Não tinha o calor da primeira vez no elevador nem era reconfortante como o beijo daquela manhã. Era mais como um beijo de um romance que florescia.
A boca dele era exigente, mas não exageradamente, convencendo-a a se abrir para ele, a ceder ao prazer que ela prometia. Lucy se sentiu dominada pelo toque dele. Era tão fácil se deixar levar. Parecia natural permitir que sua língua deslizasse junto da dele, que seus dedos vagassem pelo cabelo dele.
Os lábios de Rhys abandonaram os dela, descendo para o pescoço. A sensação lançou uma onda de desejo por todo o corpo dela. Quando a mão dele segurou o seio dela através do tecido do vestido, ela se curvou na direção do toque, gemendo levemente.
Lucy só voltou a si quando abriu os olhos e viu o imenso diamante em sua mão. Aquele relacionamento era apenas de fachada. Como Rhys dissera, ninguém os veria dentro do quarto. Por algum motivo, Lucy soube que, se ultrapasse esse limite, seria difícil manter sua perspectiva com relação àquele relacionamento.
Rhys era seu noivo, mas jamais seria seu marido. Não estava apaixonado por ela, e ela não estava apaixonada por ele. O s**o simplesmente confundiria as coisas.
Ela empurrou levemente os ombros dele. Rhys se afastou, observando-a com olhos cheios de desejo. Ele arfava. Fora um beijo e tanto. E pedia uma noite juntos. Lucy percebeu que ele pretendia entrar. Um jantar delicioso, vinho, boa conversa, um beijo… agora ela devia convidá-lo para entrar, tomar café e tirar o vestido dela. Era demais, cedo demais, por mais que ela o desejasse.
Lucy pôs a mão na maçaneta.
– Boa noite, Rhys.
– Espere. Boa noite?
Ela assentiu, segurando a bolsa contra o peito, como uma barreira.
– Foi um longo dia, cheio de emoções. Você se transformou do meu chefe no meu noivo há poucas horas. Acho que acrescentar “amante” à lista hoje é uma má ideia.
Rhys suspirou, mas não tentou argumentar. Abriu sua porta e contornou o carro para ajudá-la a sair. Acompanhou-a até a porta.
Lucy parou. Certo ou errado, não conseguiu evitar se curvar para ele e lhe dar um rápido, mas firme, beijo nos lábios.
– Vejo você amanhã no escritório.
***
– Sim, estou noivo. – Rhys se recostou em sua cadeira e olhou para a recém-emoldurada foto dele com Lucy no canto de sua mesa. Eles a tinham tirado para o anúncio no jornal, e Rhys não conseguiu resistir a enviar uma cópia para a Rainha Beatrice. Quando o telefone tocara na tarde seguinte, ele não ficara surpreso.
– Parabéns para vocês dois. Não esperava que agisse tão rápido para aceitar minha proposta – ressaltou ela com um tom direto. Obviamente, achava que Rhys estava tentando enganá-la. Ela não deixava nada passar. – Eu lhe dei um ano, não uma semana para ficar noivo.
– Bem, eu disse que já vinha saindo com uma pessoa. Você me ajudou a perceber que eu precisava levar meu relacionamento adiante. Lucy e eu somos perfeitos um para o outro. Obrigado pelo incentivo.
– Isso é maravilhoso, Rhys. A foto de vocês dois está adorável. Pedi que Henry a levasse para ser emoldurada. Ela é uma jovem muito bela. Onde a conheceu?
Ela estava querendo detalhes. Felizmente, eles tinham resolvido tudo isso no jantar.
– Nós nos conhecemos na faculdade e namoramos por um tempo. Quando comecei a pensar em comprar o ANTV, nós nos encontramos num evento de mídia. Ela trabalha criando programas de relações comunitárias, e começamos a sair juntos novamente.
Rhys não tinha dúvidas de que sua tia estava fazendo anotações e pediria para que alguém averiguasse se eles tinham frequentado a mesma faculdade na mesma época.
– Que adorável coincidência vocês se reencontrarem. Deve ser o destino.
– Acho que sim.
– Espero que vocês sejam muito felizes juntos. m*l posso esperar para conhecê-la. Na verdade, vou a D.C. mais para o fim do mês para falar com o Congresso. Eu adoraria se nós três pudéssemos jantar juntos para comemorar.
Rhys franziu o cenho. Nunca soubera que sua tia tinha envolvimento na política. Se ela iria a D.C., seria para observá-lo. Não confiava nem um pouco nele, e com razão. Ele e Lucy precisariam aperfeiçoar a farsa dos apaixonados antes que ela chegasse. Francamente, Lucy tivera uma péssima atuação quando eles tinham encontrado Scarlet.
Apesar da hesitação dela de embarcar num relacionamento físico na outra noite, depois do jantar, algo precisaria ser feito a respeito. Ela precisava de uma inspiração romântica verdadeira, pois não conseguia fingir. Rhys ficaria feliz em lhe dar isso.
Ele dissera a Lucy que não a escolhera com a intenção de seduzi-la, e era verdade. Se eles se tornassem mesmo amantes, seria apenas um agradável bônus para uma situação potencialmente desagradável.
Como ele a desejava! Toda vez que fechava os olhos, Rhys a via no elevador. A calcinha vermelha. As faces coradas. Gemidos apaixonados de prazer. Sim, ele não precisava de um envolvimento romântico para complicar aquele acordo, mas estaria mentindo se dissesse que não queria continuar de onde haviam parado.
O s**o não seria um problema, contanto que os dois soubessem que seria apenas isso. Ele só precisava convencê-la a aceitar novamente.
Apertando o fone, Rhys se esforçou para recordar o que sua tia acabara de dizer. Jantar. Tia Beatrice iria até D.C. e queria jantar.
– É claro – disse ele. – Lucy está muito empolgada para conhecer você.
– Tenho certeza de que está. Espero que vocês tenham uma adorável festa de noivado hoje. Vou deixar você desligar. Preciso ligar para Ron Wheeler e avisar que recusarei a proposta dele. Por ora – acrescentou ela.
– Foi bom falar com você – disse ele, por entre os dentes cerrados. – Nós nos veremos em breve.
Desligando, ele olhou para sua foto com Lucy. Sua tia o enlouquecia. Porém, se o plano pusesse aquela voluptuosa forma feminina novamente em seus braços, talvez ele precisasse mandar um cartão de agradecimento para a Rainha Beatrice.