06 MESES DEPOIS…
Payú (Cristiano)
Foi um desafio muito grande assumir o comando na favela após a prisão do meu pai. A responsabilidade que recaiu sobre meus ombros é esmagadora e exaustiva, e a ausência dele é um vazio enorme. A pressão para manter o fluxo dos negócios e a ordem na comunidade é sufocante, mas eu tento equilíbrio entre mostrar respeito pela história dele e mostrar a minha própria marca de liderança, dando continuidade ao que ele já fazia, é claro, mas fazendo alguns ajustes também. Cada decisão que eu tomo é baseada em atos que não comprometem os negócios e nem a segurança da comunidade e para isso, eu tento evitar a atenção das autoridades e dos rivais.
Os primeiros meses no comando da favela foram f**a, tudo ficou uma bagunça depois da invasão e a ordem precisava ser restabelecida. Perdemos muitos soldados e outros precisaram entrar para o bonde, além de todo o restante que caiu nas minhas costas. Claro que meu pai me preparava há um bom tempo para isso, desde a minha adolescência, eu sabia qual era o meu destino. Cresci em uma favela onde o poder era sinônimo de respeito, e meu pai era o dono desse poder. Enquanto muitos garotos sonhavam em ser médico, engenheiro, dentista ou até mesmo jogador de futebol, eu estava sendo preparado para substituí-lo no comando dessa favela e no comando do tráfico de drogas. E arrisco dizer que nunca sonhei ser outra coisa, sempre quis continuar o legado do meu pai.
Aprendi desde moleque a lidar com armas, a comandar homens e a impor respeito. À medida que os anos passavam, assumia gradualmente mais responsabilidades e um dia, conforme fui treinado, eu assumiria o lugar do meu coroa, mas não esperávamos que fosse logo e de uma hora para outra, eu me tornei o dono de tudo.
A jornada é árdua, pesada e repleta de escolhas difíceis. Muitas vezes, me olho no espelho e me questiono o quanto essa vida é fodida, mas é um fardo que eu carregarei para o resto da minha vida.
Muito antes de completar meus 18 anos, eu quis ter a minha própria casa e meu pai me proporcionou isso, mas eu estava sempre na casa dele com a Mara, porém depois da morte dela e da prisão dele, praticamente não fui mais lá. Uma casa enorme, coberta por muros altos, mobiliada com de tudo de mais caro, moderno e luxuoso como a Mara gostava, incluindo uma piscina enorme com quiosque, que lá de fora não é possível ver. Uma casa maneirona que agora está vazia de pessoas e vazia de vida.
Durmo sempre em pontos diferentes da favela, uma estratégia para não ser pego em alguma armadilha, mas a casa que meu pai construiu pra mim, é onde eu mais curto ficar, me traz paz e sossego e é um dos poucos lugares que não me trazem lembranças ruins.
Com a prisão do meu pai, tudo ficou mais pesado, tudo passa por mim para ser resolvido, mas com o passar dos meses, eu fui pegando o jeito. Tento seguir a linha dele de comando, morador honesto a gente ajuda com o que está ao nosso alcance, uma cesta básica, um remédio ou até mesmo trabalho. Quem quiser entrar pro bonde, pode vir até nós, mas tem que mostrar que é bom nos quesitos que precisamos, além de ter disposição, é claro. Lembrando que dou oportunidade, mas não busco ninguém em casa, que entra pro crime é porque veio com as próprias pernas pedir para entrar. A maioria entra por necessidade mesmo, pra ter uma grana pra ajudar a família, que na maioria das vezes não consegue emprego ou então ganha um salário de merda e nessas, a gente dá a oportunidade que muitas vezes, eles não conseguem fora da favela.
A comunidade entrou nos eixos novamente depois da última invasão que nos baqueou legal. Os negócios estão fortalecidos, tanto o meu, quanto dos comerciantes e também fiz acordo com um político pra trazer mais profissionais pro postinho de saúde que antes atendia até 22:00 e agora é tipo uma UPA, aberta 24 horas. E ele também ajudou a criar a ONG pra molecada que há tempo meu pai queria fazer, mas na prática não entrava em funcionamento. É aquele lance, o cara fortalece a gente pra ser fortalecido também, daí é só sucesso.
Hoje foi mais um dia que tive que parar pra resolver a p**a de morador que o Brand trouxe até mim.
— E então Payú, o que tu definiu? — ele pergunta parado na minha frente, do outro lado da mesa capenga da boca.
— Bom, essa duas que se pegaram pelos cabelos e fizeram escândalo dentro do mercadinho do seu Marcondes, elas vão fazer a limpeza do mercadinho dele, 10 dias cada uma, incluindo no domingo, uma de manhã e a outra a tarde, pra aprenderem a não ficar brigando por causa de macho que come as duas e ainda fazer o trabalhador ter prejuízo!
Dei essa ordem porque na hora da briga, o mercadinho teve que ficar fechado mais de uma hora por conta da bagunça das piranhas dentro do estabelecimento, e comércio fechado em comunidade, é prejuízo, afinal, a favela não para nunca, dia e noite, sem falar que teve uns produtos danificados por elas na hora que de se atracaram. Assim elas aprendem que a lei por aqui funciona, lei de bandido, mas é lei, que funciona muito bem, por sinal.
— E se elas reclamarem, pode botar pra fora da comunidade e proibir de colocar os pés de novo aqui! — falei, bolando um baseado, apertando a seda.
— E com o machão lá que bateu na esposa? Tô sabendo que não é a primeira vez que ele faz agressão com ela! O cara é o maior encostado, não coloca um trabalho naquele corpo e ainda pega o dinheiro da mulher para comprar bebida. Vacilão do c*****o! — Brand fala, posicionado com as mãos à frente do corpo, segurando o fuzil.
— Nesse aí pode mandar dar uma surra, uma madeirada bem dada, daquelas de deixar judiado! — puxo a erva que rapidamente queima a seda. — E já avisa, outro caô desses, não vai ser madeirada, vai ser ele dentro da madeira, no caixão, pra alegria do coveiro!
— Positivo! — Brand assente e coça o canto do nariz, reprimindo um sorriso.
— Tá querendo rir né, seu p*u no cu? Tu gosta de dar uns esculachos!
— Pô Payú, é satisfatório colocar essa gente encrenqueira na linha! — ele ri somente com os olhos.
— Tô ligado! É só assim que essa turma da caozada aprende, sem amor, só na dor mesmo.
— A Vanessinha me viu de bobeira tomando uma gelada lá no bar e veio trocar uma ideia comigo, mandando papo que você não procura mais ela, nem responde às mensagens, essa baboseira de p*****a que você já conhece!
Dou uma risada de canto ao escutar.
— Não tô afim de repetir p*****a mais, não! Aliás, ultimamente tô preferindo pagar uma profissional da área, tá ligado? Mesmo que saia mais caro! — outra tragada e aponto o baseado pra ele, continuando. — Assim eu escolho uma, ela vem, faz o serviço, pago e ela vai embora satisfeita e eu não fico recebendo mensagem no outro dia ou recadinho, né não, Brand?
— Tá seletivo, hein? — Ele dá um sorrisinho irônico e eu desdenho.
— Vai por mim, Brand, é melhor assim! Quando elas repetem a sentada, já ficam achando que são minhas fiéis! — Dou mais uma tragada, olho para a ponta e solto a fumaça pro alto, sinalizando com os olhos para a porta. Brand entendeu que era pra ir cumprir a ordem. Pegou o rádio e saiu dali pra designar os soldados que iriam fazer o trabalho.