Kayra Selik
Acordo num susto tão intenso que me falta o ar. Os meus olhos se arregalam no escuro e o meu peitö dói com o impacto da realidade voltando. Desmaiei. Eu realmente apaguei. Os meus batimentos estão descompassados, o corpo ainda lateja e a cabeça gira.
Por um segundo, penso que estou morta. Mas a dor é real. O frio na pele é real. E o silêncio… esse silêncio me consome. Isso está acabando comigo e não aguento mais.
Baruk.
Cadê o Baruk?
Ele deveria ter vindo. Ele disse que viria. Se não apareceu até agora… só pode significar uma coisa. Ele está mortö.
E se ele está morto… então eu já estou mörta também. Drogä! Ela venceu!
Me encolho no canto úmido da sala escura. Tento entender quanto tempo se passou, mas não vejo mais nenhuma fresta de luz. A noite chegou. Ou talvez já tenha passado. Eu não faço ideia. Tudo aqui dentro é confusão e só consigo pensar nos latejos do meu corpo.
Os meus olhos ardem. Pela primeira vez desde que tudo isso começou, eu choro. Choro de verdade. Choro sem me controlar. Não por raiva, não por ódio. Mas por medo. Um medo cru, sufocante, que paralisa os meus pensamentos e corta a minha respiração. Estou sozinha. Trancada. E a qualquer momento, alguém pode abrir essa porta e me arrastar para o altar como se eu fosse um animal domesticado.
De repente, eu escuto passos.
A realidade me alcança de novo. Vieram me buscar.
Não, não, não...
Seguro o choro e engulo o soluço seco. Tento me erguer, mas minhas pernas não ajudam. Estou fraca demais e a fome é imensa. Eu comi pela manhã, eu acho. Nem sei quantas horas se passaram.
A maçaneta gira.
A porta se abre com o rangido metálico que já aprendi a odiar. É o mesmo soldado de antes.
Ele entra sem pressa, tendo um olhar tenso e de ódio para passar medo. Ele carrega uma bandeja de comida e a coloca no chão, perto de mim e nisso, ele arrasta com a perna.
— Ordem do seu noivo. — Ele diz, com a voz seca. — Ele não quer noiva nenhuma desmaiando no meio da cerimônia. Coma!
O nojö que sinto é indescritível, mas meu estômago ronca. A dor da fome briga com o orgulho. Tem carne com legumes cozidos e torradas. A comida fede a obrigação. Mas como. Forço cada pedaço para dentro como se fosse um castigo. Isso aqui também jamais será esquecido e como mastigando com força.
Ela vai me pagar por isso.
Ele me observa o tempo todo, olhos duros, postura reta. Nada é dito e eu daria tudo para eu me soltar e acabar com ele. Quando termino, bebo a água e devolvo o copo.
Ele recolhe tudo e sai, mas volta segundos depois com dois baldes de água.
Não falo nada. Só observo. Até que ele despeja o primeiro balde sobre mim, de uma vez só e sem dizer nada. A água é fria. Um choque que me faz tremer.
— Esfregue o corpo. Tire esse sangue... anda!
Os meus braços estão roxos. Meus ombros, cortados. As minhas pernas ardem. Mesmo assim, obedeço. Passo as mãos pelos braços, pelo rosto, pela testa e mais lugares. Há sabão na água. A espuma me escorre pelos dedos, e eu me sinto invadida de novo. Lavada contra a minha vontade. Mas me limpo. Já não suportava mais o cheiro de sangue em mim.
Ele joga mais água aos poucos até que tudo escorre, e então, me deixa aqui. Molhada. Fria. Tremendo de dor e de frio.
Não sei quanto tempo passa, mas é o suficiente para eu perder o resto das esperanças. Eu vou morrer de frio aqui. Não dá nem para me sentar, já que tem uma poça de água suja aqui em baixo.
Até que ouço passos novamente. Mas há algo diferente… algo mais apressado… mais tenso.
A porta range outra vez.
E então eu o vejo.
— Baruk?
A minha voz falha. Os meus olhos se enchem de lágrimas e o meu coração quer parar.
Ele parece tão real, tão perto, mas por um momento acho que estou delirando. Ele entra, se aproxima, me examina.
— Kayra… o que fizeram com você? — Pergunta, ajoelhando-se ao meu lado. — Olha o seu estado, minha filha...
— Foi Aylin… ela quis acertar as contas do passado. Fiquei inconsciente… estou assim há horas. Ou dias… não sei. Por que demorou?
Ele começa a mexer nas correntes, tentando achar os fechos.
— Fiquei trancado numa sala com o conselho. Estavam decidindo a minha punição. Me interrogaram. — Imaginei algo assim. — Por sua causa, não fui condenado. Você disse que eu não sabia de nada… então eles me liberaram. Mas precisei esperar. Eles me vigiavam e ainda continuam... eu tive que me trancar no quarto e usar a passagem.
Uma alavanca escondida numa das colunas faz as correntes se soltarem com um estalo. Meus braços caem, aliviados. Baruk me segura para que eu não desmorone.
— Tenho uma mochila pra você. Precisa fugir, agora. — O alerta é sério. — Eles vão vir logo.
Ele fala rápido, com urgência. Os seus olhos, porém, transbordam preocupação. Ele não está apenas cumprindo um plano. Ele está se despedindo.
— E você? — Pergunto, tonta. — Vai comigo?
— Não posso! Só consegui vir até aqui, porque usei um tranquilizante neles. Temos pouco tempo. A sua irmã já está na mansão nova.
O marido dela foi aceito como líder da organização... e eu não tenho como sair. Mas você tem. E precisa!
Ele me entrega a mochila e vira de costas.
— Troque de roupa. Vista isso. Na mochila tem um vestido, mas também uma calça e uma blusa. Peguei um tênis de uma empregada e tem comida para dois dias, água, uma arma carregada, uma faca… e dinheiro. Foge, Kayra. E não olhe pra trás. — Nossa! Isso tudo? — É sério... vai e não olha para trás...
Tiro a camisa encharcada e visto a blusa seca de mangas longas. Cada movimento rasga a minha pele, mas me forço a continuar. A calça aperta os machucados, o tênis parece um alívio. Quando termino, ele se vira novamente.
— Promete que não volta!
— Eu vou voltar. — Digo com firmeza. — Um dia, eu volto e eles vão pagar. Ela vai!
— Isso é burrice.
— Você é meu segundo pai, Baruk… eu te amo por tudo. Cuida de você.
Ele me abraça forte, mas por pouco tempo. O dever chama. Saímos com cuidado pelos corredores escuros. Em dois momentos, ele usa o tranquilizante em soldados que cruzam o caminho mesmo que de forma distante e só os vejo indo ao chão.
Eu nem sabia que Baruk usava isso. É bom, pois não causa alarde.
E então, finalmente, estamos do lado de fora. O frio da noite me atinge como um tapa.
— Corre... agora!
Eu corro. Bem pelo meio das árvores e pedras enormes.
Corro até sentir os pulmões queimarem. Mas não paro. Em alguns momentos, caio. Mas levanto. Faço pausas, me arrasto. Mas continuo. Eu sai. Não vou mais me casar com ninguém e a Ayllin vai enlouquecer quando souber, mas já estarei longe.
Horas depois, estou no meio do nada e tudo é muito escuro. Uma estrada de terra m*l traçada. Nem sei se é realmente uma estrada.
As minhas pernas doem, sinto uma pressão no peitö de tanto correr e bebo um pouco de água. Tenho que economizar. A escuridão me envolve e é difícil ver algo coerente aqui.
E então ouço um barulho.
Passos? Não sei.
O pânico me domina.
Corro outra vez. E corro como se o inferno estivesse atrás de mim. A estrada vira um borrão. Saio dela e encontro uma avenida asfaltada. Corro por aqui mesmo por mais um tempo e nem ouso olhar para trás.
Há uma curva à frente e luzes distantes surte do nada.
E então…
— AI! — Um carro me atinge de lado, e o meu corpo voa antes de cair no asfalto.
Tudo gira.
Tudo escurece por um segundo. A minha respiração falha.
Ouço um motor desligando. Passos rápidos. Uma sombra se forma contra o farol aceso. Tento levantar, me apoio nos braços e engulo em seco. Sinto vontade de vomitar, mas me prendo.
E então vejo.
Não é um sonho. Não é delírio.
É ele.
Faruk Arslan.
O maior inimigo da minha família.
E agora… ele é a minha única chance de continuar viva ou mais um que pode me matar.