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3012 Palavras
Mary Anne acendeu as velas dos vários candelabros espalhados pela sala enorme certificando-se, pela milésima vez, de que tudo estava em ordem. — Você me parece nervosa. A voz profunda do marido a assustou. — Oh, querido, você está esplêndido! De fato, John Paul era o homem mais bonito que jamais conhecera. Alto, ombros largos, rosto viril. O tipo capaz de oferecer apoio e segurança nos momentos difíceis. — Não estou nervosa — ela protestou, deixando-se abraçar. — E apenas Rachel quem virá jantar conosco. Só quero que... — Que tudo esteja perfeito. Outra coisa de que gostava no marido era essa ca­pacidade de adivinhar até seus pensamentos. — Entendo, minha querida. Você deseja que tudo corra bem na noite de estréia de nossa pequena encenação. — É estranho pensar que abandonamos o palco por causa de nossas filhas e agora, aqui estamos, inter­pretando outra vez. Por causa delas. — Minha querida... As palavras carinhosas do marido a alertaram para o fato de que todo cuidado era pouco, se pretendiam ser convincentes. — Tem mais uma coisa. Acho que você deveria evitar me chamar- de "querida." John Paul a fitou com um amor infinito e sorriu. —  E tampouco deveria sorrir tanto assim. Nada vai dar certo se parecermos muito felizes. —  Suponho que não poderei beijar, suas mãos também. —  Ou minha nuca — Mary Anne concordou, procurando se lembrar de todos os lugares onde o marido gostava de beijá-la. — Ou minha testa. Mas, principalmente, minha... Pare de sorrir, John Paul! Espero que você não se esqueça de... —  Vendo-a levar tudo isso tão a sério, não me es­quecerei de nada. — Ele depositou o copo de conhaque sobre a mesinha e se aproximou da esposa. — Será que posso lhe dar um último beijo antes da chegada de nossa filha? Rachel se acomodou numa das cadeiras de balanço do deque, como sempre fazia depois de jantar com os pais, a xícara de cappuccino quase esquecida nas mãos. O barulho das ondas costumava acalmá-la, mas não era o que estava acontecendo. — Você não acha que já bebeu bastante? — Mary Anne indagou, observando o marido servir-se de outra dose de conhaque. A repreensão provocou novo abalo na serenidade de Rachel. Nunca em sua vida lembrava-se de ouvir a mãe usar aquele tom de voz hostil com o pai. E fora assim durante todo o jantar. Mary Anne o censurando aberta­mente e John Paul reagindo na defensiva. — Acho que essa história já foi longe demais. É isso o que acho. Oh, Deus, tampouco escutara o pai falar dessa ma­neira antes. Embora John Paul McCallister tivesse uma personalidade firme e houvesse sido, indiscutivelmen­te, o chefe da família, raríssimas vezes precisara apelar para a aspereza. E muito menos quando se dirigia à própria esposa. A inquietude de Rachel ia se intensifi­cando a cada segundo. Talvez aquela noite não fosse adequada para men­cionar Luke Costas e o plano que pretendia pôr em ação com o único objetivo de reaproximá-lo de Lauren. — Vamos, John Paul — Mary Anne falou —, você prometeu. — Nunca prometi aceitar ser chamado de bêbado. O tom de voz alterado a surpreendeu tanto, que Rachel deixou a xícara de café cair no chão, o ruído estridente da louça fina se partindo em mil pedaços rompendo a tensão do ambiente. —  Oh, que pena! — Mary Anne ficou imediatamente de pé. —  Maldição! — John Paul explodiu. — Deixe isso para lá! Desesperada diante da possibilidade de existir uma crise real entre os pais, Rachel se sentia presa de uma ansiedade crescente. —  Mãe? Pai? — Ela olhava de um para o outro, procurando entender a situação. — O que está acon­tecendo com vocês dois? —  Nada, querida. — Apesar do protesto, os olhos de Mary Anne estavam cheios de lágrimas. — Você gostaria de comer a sobremesa agora? —  Sobremesa? — Aquele oferecimento soava absur­do num momento tão delicado. — Mãe...? —  Não está dando certo, Mary Anne — John Paul inter­veio. — Creio que está na hora de nós... —  Mas é torta de morangos! Comprei as frutas fres­cas hoje e Annie faz essa torta como ninguém. Que tal uma porção extra de chantilly? Assim que a mãe desapareceu na cozinha, Rachel se apressou a juntar os cacos da xícara quebrada, perguntando-se se teria coragem de interpelar o pai. Parte de si desejava agir exatamente como Mary Anne, fingindo que nada fora do comum estava acontecendo. Porém a outra parte a impelia a identificar o problema e a enfrentá-lo, procurando uma possível solução. Ao perceber o pai fitando a garrafa de conhaque, uma expressão enigmática no rosto, foi tomada por uma angústia infinita. Estaria John Paul bebendo além da conta? A idéia era tão disparatada que chegava a ser risível. Todavia o que estava acontecendo ali, naquela noite, não lhe dava nenhuma vontade de rir. — Pai, o que está havendo entre vocês dois? — Acho que talvez seja melhor perguntar à sua mãe. — A resposta evasiva serviu apenas para aumentar a apreensão. —  Você não está... O dr. Yount não disse que tem algo... errado, não é? —  Não, não, querida. Estou forte e saudável como um touro. Sua mãe também. —  Então o que há? Quando enfim, depois de uma breve hesitação, John Paul parecia a ponto de se abrir, Mary Anne entrou, car­regando uma bandeja. — Aqui estou. Torta de morangos para todos. Não é maravilhoso? Uma hora depois, caminhando pela praia deserta na direção de casa, Rachel continuava profundamente deso­lada. Sua família já estava tão desunida, tão fragmen­tada, que não poderia suportar se o casamento dos pais chegasse ao fim. Precisava da segurança emocional, da estabilidade que aquele matrimônio de quase cinqüenta anos sempre lhe dera, porque era a única coisa que so­brara de uma família antes calorosa e unida. A desintegração começara com Lauren, anos atrás. Cer­to fim de semana, ao voltar da universidade para pas­sar um feriado prolongado em casa, encontrara a irmã completamente mudada. Era como se a alma de Lauren houvesse se desconectado do corpo, deixando atrás de si uma casca oca e indiferente. O vazio que tal abandono criara em Rachel fora de­vastador. E por mais que tentasse descobrir o que ha­via de errado, por mais que se esforçasse para resolver o problema, de nada adiantara. A crise de Maggie fora a gota d'água na desagregação familiar. Maggie, a primogênita, se casara muito jovem e logo se tornara mãe. O marido, oficial da Marinha, viajava muito e numa dessas ausências, ela, acompanhada do filho Derek, de quatro anos, viera ficar na casa dos pais, em Hurricane Beach. Rachel não coubera em si de felicidade, pois a presença da irmã e do sobrinho ha­viam conseguido fazê-la recapturar a sensação de per­tencer a uma verdadeira família. Até o sumiço de Derek. Desaparecido durante uma ida ao shopping center. Em princípio, o retraimento de Maggie, como o de Lauren, fora apenas emocional. Ela continuara na cidade algum tempo, agarrada à crença de que Derek voltaria para casa, são e salvo. Quando, finalmente, a esperança morrera, partira de Hurricane Beach para sempre, abandonando o casamento, a fa­mília e as lembranças de uma dor grande demais para ser suportada. Nos doze anos seguintes, apenas Rachel e os pais tinham se mantido próximos, uma característica antes comum a todos os McCallister. Grace preenchera parte do vazio deixado por Maggie e Lauren, porém não cessara de lamen­tar a perda de um vínculo que julgava tão importante. E agora havia algo errado com Mary Anne e John Paul. Ao avistar as luzes acesas de seu chalé, brilhando a distância, Rachel foi assaltada pela urgência. Precisava tomar uma atitude para evitar que seus medos se tor­nassem realidade. Talvez conseguisse resolver o pro­blema antes que a coisa ficasse muito séria. Ao entrar em casa, ignorou os latidos alegres de Sam e correu para o telefone. — Por favor, atenda — murmurou aflita, discando o código de área de Nebraska. Assim que a voz reservada da irmã atendeu a cha­mada, Rachel deixou-se cair sobre a poltrona, sem saber o que dizer. Os dias de i********e entre as McCallister haviam há muito sido tragados pelo tempo. — O que foi, Rachel? — Maggie indagou depois de alguns segundos de desconfortável silêncio. — Alguma coisa errada? — Bem, eu... — Deveria contar à irmã? Teria sentido preocupá-la? — Eu estive pensando... isto é, acho que nossos pais realmente gostariam de nos ver. Todas nós. Juntas. Talvez no Festival de Primavera. Lembra-se de como adorávamos o Festival? O silêncio era tão opressivo do outro lado da linha, que Rachel se sentiu sufocar. — Tem algo errado com um dos dois, não é? Rachel, não ouse esconder de mim se um de nossos pais estiver doente. — Não, não, não é nada disso. Pelo menos acredito que não. É que ambos estão agindo de maneira estranha. — Estranha como? — Maggie parecia impaciente agora. — Estão brigando. — Brigando? — Você sabe. Discutindo. — Mamãe e papai? Com certa satisfação, Rachel notou uma pontada de alarme na voz da irmã. — Acho que você deveria dar um pulo em Hurricane Beach. — Não sei. Talvez. Vou telefonar para mamãe agora mesmo. Tem certeza de que não foi imaginação sua? — Certeza absoluta. Telefone-me depois, ok? — Talvez. Rachel pôs o fone no gancho, sentindo-se melhor por­que já não estava sozinha. Sua irmã iria apoiá-la. De pé junto à porta envidraçada do deque, Mary Anne observava a figura alta do marido que permanecia de costas, os olhos fixos na escuridão. Nada tinha saído como planejara e não sabia o que fazer a respeito. Desde a partida de Rachel, os dois não haviam trocado uma só palavra, cada qual perdido nos próprios pensamentos. Estava começando a acreditar que essa pequena encenação fora má idéia. Talvez John Paul estivesse certo. —Você não vem para a cama? — ela perguntou baixinho, ciente de que, pela primeira vez em cinqüenta anos, estava temerosa de ouvir a resposta. — Você deveria ter me prevenido. Eu não sabia que fazia parte do plano me pintar como um bêbado. — Oh, John Paul, não planejei isso. Foi apenas... improviso. Ele nada respondeu. A intensidade da irritação do marido lhe trouxe lágrimas aos olhos e quando fez menção de se aproximar, o telefone tocou. Mary Anne aten­deu sem se dar conta de que soava triste e chorosa. O telefone de Rachel tocou cinco minutos depois. Era Maggie. —  Mamãe estava chorando. —  Chorando? Ela lhe disse algo? —  Não. Por que nossos pais estavam brigando no jantar? —  Nada de especial. Bobagens. Exceto... —  Exceto o quê? —  Mamãe parecia achar que nosso pai estava be­bendo muito. —  E estava? —  Não. Apenas o habitual. Maggie suspirou antes de continuar. — Acho que se eu quiser saber exatamente o que se passa, terei que ver com meus próprios olhos. — Então você virá? Para o Festival de Primavera? — É possível. Mas quem convencerá Lauren a aparecer em Hurricane Beach? Rachel inspirou fundo, o rosto de Luke Costas vindo-lhe à mente, o sorriso fascinante inundando-a de uma sen­sação estranha. — Eu cuidarei de Lauren. Luke gostava de fechar a padaria. Era a única parte do trabalho que realmente lhe dava prazer. Apreciava ficar inteiramente só, sem tios e primos por perto. Aquele silêncio era como um bálsamo, após tantas ho­ras de barulho incessante. Depois de conferir o caixa, saiu para dentro da noite, tentando ignorar os pensamentos. A verdade era que não conseguira tirar Rachel da cabeça o dia inteiro. E isso o inquietava. Com as mãos metidas nos bolsos da calça, percorreu o curto trajeto até sua casa. Tão logo abriu a porta da frente, viu-se engolfado pelo caos. O pai estava pa­rado ao pé da escada, gritando em grego, o punho cer­rado erguido no ar. Sua mãe acabara de sair da cozi­nha, um avental impecável cobrindo parte do vestido azul-marinho. — Graças a Deus você chegou — Leda exclamou aliviada. — Tem que dizer a esse homem desnaturado que não pode tratar a menina daquele jeito, ou... — Não! — Demetri retrucou voltando a falar em inglês e virando-se para encarar a esposa. — Na sua opinião, eu deveria mimar Kieran, assim como você fez com nosso filho, para que ela acabe como ó pai, viciada em drogas e imprestável? Seria melhor desse modo? Lutando contra a vontade de sumir dali, Luke tirou o casaco e se preparou para enfrentar a situação. A parte mais dura da mudança para Hurricane Beach não era reaprender a tocar o negócio da padaria, mas lidar com a família. Depois de passar anos vivendo sozinho, desde o divórcio, sentia-se sufocado pelas exi­gências constantes. — Mãe, o que Kieran fez desta vez para deixar papai tão irritado? Leda deu de ombros. — A menina é um pouquinho exagerada na sua pai­xão por computadores. E quem pode culpá-la? — Um pouquinho? — Demetri estava possesso. — Ela fica trancada naquele quarto o dia inteiro, sentada diante da máquina, enquanto a avó trabalha feito uma escrava na padaria e, depois do expediente, em casa. Você acha que Kieran se interessa em oferecer ajuda? Não, nunca. — Provavelmente as tarefas escolares lhe consomem todo o tempo livre. — A resposta de Leda deixava claro que a discussão não chegaria ao fim se Luke não aceitasse o papel que lhe era destinado: o de pai substituto. — Falarei com ela. — Luke começou a subir a escada sob o olhar aprovador do pai. — Entenda uma coisa, filho. Tudo o que essa menina precisa é de uma mão firme para guiá-la. — Seja gentil — a mãe o avisou. — Afinal, depois do que aconteceu... Luke entendia aonde Leda queria chegar. Kieran per­dera a mãe cinco anos atrás e o pai desaparecera a um mês. Se dissesse a coisa errada, talvez a pobre criança ficasse traumatizada para o resto da vida. Porém não acreditava que as coisas funcionas­sem assim. Depois de bater na porta duas vezes e não obter resposta, decidiu entrar. O quarto era um verdadeiro modelo de asseio. Tudo na mais perfeita ordem, à exceção da garota. Sentada diante do monitor, o teclado no colo, os pés descalços apoiados na mesa, Kieran ignorou a entrada do tio, a atenção concentrada no jogo em que mulheres voluptuo­sas guerreavam em meio a canhões, espadas e escudos. Durante um longo instante, Luke a observou, essa adolescente que m*l conhecia, perguntando-se como acabara sendo escolhido para desempenhar o papel de pai substituto. Sem dúvida sua irmã Christa, mãe de três filhos, teria sido a opção mais acertada para ter­minar de criar a menina. Entretanto Christa lhe havia dito que a maioria das pessoas em Hurricane Beach evitava que os filhos se relacionassem com Kieran e, de fato, não podia cul­pá-los. Kieran tinha o jeito de quem procurava pro­blemas. Os olhos escuros e desconfiados pareciam de­safiar constantemente o mundo, e os cabelos negros, antes tão lustrosos, agora lembravam um ninho de rato. Ela vestia-se sempre com uma calça jeans velha e camiseta rasgada logo abaixo dos s***s. Numa das narinas, uma pequena argola de ouro. Kieran era inteligente e bonita, mas ninguém o acre­ditaria olhando a figura desleixada. Embora achasse difícil consertar mais aquela confusão armada por Nick, não podia ir embora sem ao menos tentar. — Por que você não desce e ajuda sua avó a pre­parar o jantar? — Ele foi obrigado a falar alto para ser ouvido acima dos gritos e ruídos estridentes vin­dos do computador. Fazendo questão de ignorá-lo, ela continuou atenta ao jogo. Irritado, Luke atravessou o quarto e desligou a máquina. — i****a. A indiferença daquele tom de voz o impressionou. — Venha ajudar a preparar o jantar. Sua avó trabalhou o dia inteiro e está cansada. Devemos fazer nossa parte. — Não estou com fome. O comportamento da menina, frio e controlado, che­gava a assustá-lo, pois parecia estar lidando com al­guém muito mais velho e malicioso. Não era à toa que Leda evitava confrontá-la. —  De qualquer maneira, desça comigo. — Luke pro­curava não se alterar, sabendo que de nada adiantaria partir para a agressão verbal . — Conte-me sobre seu dia. Quero conhecê-la melhor. —  Oh, quanta bobagem. —  Ouça, sei que não sou muito bom nisso, portanto, pode deixar a ironia de lado, ok? —  Caia fora daqui, está bem? Ela tornou a ligar o computador. Enfurecido, Luke pensou em arrancar o plugue da tomada e jogar a máquina contra a parede, mas as palavras da mãe voltaram-lhe à mente e o impediram de seguir o im­pulso. A garota havia sofrido duros golpes e, se desse um passo em falso, talvez destruísse por completo o que ainda restava do equilíbrio emocional daquela per­sonalidade conturbada. Nick, sua criatura patética, veja no que transformou sua filha... —  Você não vai poder ficar trancada aqui dentro para sempre. —  Será? —  Não permitirei que o faça. —  Você não vai conseguir me impedir — Kieran o desafiou, retomando o jogo. Rachel consultou o número do telefone de Lauren na agenda. Estivera adiando o momento de ligar para irmã caçula até a noite de hoje simplesmente porque não sabia o que dizer. Porém estava convencida de que seu plano daria certo. Que mulher resistiria à proximidade' de Luke Costas? Apesar da hora avançada, Lauren não estava em casa, obrigando-a a deixar recado na secretária eletrônica. Era triste pensar que até mesmo a gravação da voz da irmã a intimidava. Mas não seria assim para sempre. Lauren voltaria para Hurricane Beach dentro em breve. E bastaria uma troca de olhares, para que ela e Luke se apaixonassem um pelo outro novamente. Ela reconhecia que estava adiantando um pouco a história. Porém, com uma certa ajuda, é sempre pos­sível transformar contos de fada em realidade. Rachel sorriu, ignorando o desconforto causado pela idéia de ser obrigada a tratar Luke Costas como um irmão outra vez. Afinal, já o fizera antes e agora, mais madura e experiente, poderia tornar a fazê-lo. Pela felicidade da irmã, faria qualquer coisa. De fato, começaria a praticar naquele exato momento.
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