O Augusto deu uma risada de canto, aquela risada seca, de quem se sente o dono da razão absoluta porque tem o ferro na cinta, o dinheiro no bolso e o destino de mil almas na palma da mão. O som da gargalhada dele se perdia no meio do grave do proibidão que estourava os tímpanos, mas pra mim, aquilo soava como o bater de um martelo num prego de caixão. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão, ajeitou o cordão de ouro que devia pesar uns dois quilos — um peso que ele carregava como se fosse a prova física da sua divindade no Turano e ficou olhando pra Samira lá embaixo. O olhar dele não era de homem, era de colecionador. Olhava pra ela como se estivesse conferindo se o brilho da pintura de um carro de luxo estacionado na garagem ainda tava intacto.
Eu aproveitei a brecha, mantendo a postura de soldado fiel, o corpo rígido como um pilar de contenção, mas com o veneno destilado na ponta da língua, pronto pra furar a bolha de ego daquele desgraçado.
— Mas vem cá, Imperador... Papo reto aqui de visão, de quem tá na pista todo dia. Pra que tanto cerco na primeira-dama? — Joguei o verde, querendo colher a podridão que eu já sabia que existia naquela mente doentia. — A mulher é tranquila, não fode, não dá um deslize, vive trancada naquela mansão que nem santa no altar. Ninguém do morro tem coragem nem de levantar o olho pra ela, geral sabe que se vacilar o destino é o micro-ondas. Pra que escalar logo a tua elite, o teu melhor gatilho, pra ser sombra de quem não oferece perigo nenhum pro comando?
O Imperador mudou o semblante na hora. A máscara de alegria do baile caiu, revelando a face do demônio que ele era. A cara dele ficou rígida, os olhos pequenos e injetados de ódio, possessão e aquela insegurança disfarçada de poder. Ele puxou o ar com força, sugando a vida do charuto, e soltou a fumaça bem na minha cara, um gesto de puro desrespeito, tentando me intimidar, tentando mostrar quem era o predador ali. Ele não sabia que eu era o lobo que ele mesmo alimentava.
— Tu não entende nada de poder, Renan. Tu é bom de gatilho, é cirúrgico na operação, mas de mente tu ainda é um aprendiz de bicheiro. — Ele se inclinou na minha direção, o cheiro de uísque barato e nicotina vindo forte. Falava baixo, num tom que só eu ouvia por cima do batidão que sacudia o camarote. — A Samira não é uma mulher, p***a. Ela é um patrimônio. É a bandeira do meu império. E patrimônio a gente não cuida só pra ninguém roubar, a gente cuida pra ela não esquecer, nem por um segundo, quem é o dono da p***a toda.
Ele deu um gole agressivo no uísque e cuspiu no chão, do lado da minha bota, um sinal claro de desprezo pela humanidade de qualquer um que não fosse ele.
— Ela é minha, tá ligado? Cada milímetro daquela pele, cada suspiro que ela solta, até a p***a do pensamento dela tem que ter o meu carimbo, a minha assinatura. Eu sou c***l com ela porque se eu der um palmo de linha, aquela potranca acha que pode galopar sozinha, que pode ter vontade própria. — O Augusto deu um sorriso macabro, de dar nojo, os dentes brilhando sob a luz do estrobo. — Ela é uma boneca de luxo, Caçador. E boneca a gente brinca, quebra, conserta e guarda na caixa quando enjoa do brinquedo. Eu coloco tu em cima dela porque eu quero que ela se sinta sufocada. Quero que ela saiba que, mesmo quando eu não tô tocando nela, os meus olhos que agora são os teus tão secando a alma dela. Ela tem que sentir o peso da minha mão em todo lugar, mesmo que seja por tabela. O medo dela é o que mantém o meu p*u duro.
Eu senti o meu sangue ferver, uma lava subindo pela espinha que quase me fez perder a postura de sombra. A vontade era de meter a mão na peça, puxar a Glock e descarregar o pente naquela cara inchada de prepotência ali mesmo, no meio do camarote, na frente de geral, pra ver se o ouro dele parava bala. Ver ele falando dela daquele jeito, como se ela fosse um objeto descartável, um pedaço de carne sem alma, fez meu instinto de predador virar algo mais sombrio.
— Tu tá ligado que se ela souber que tu pensa assim, o brilho dela apaga de vez, né? Que ela vira uma carcaça vazia? — Falei, tentando manter a voz seca, mas o ódio tava ali, vibrando nas cordas vocais.
— E quem disse que eu quero brilho, Renan? Eu quero obediência cega! — Ele gritou, perdendo a linha por um segundo, chamando a atenção de uns vapores que tavam por perto e que logo baixaram a cabeça, com medo de serem o próximo alvo do humor dele. — Ela é uma peça no meu tabuleiro. Se ela ficar triste, eu mando o gerente descer o morro e comprar um diamante de cem mil e ela sorri de volta. Mulher é tudo igual, mano. Elas gostam é do poder, da grana, do cheiro da pólvora que a gente carrega na roupa. Ela suporta o meu jeito porque sabe que fora daqui, sem o meu nome, ela não é nada. Sem o Imperador, a Samira é só mais uma p*****a do asfalto querendo subir o morro pra ganhar seguidor. Comigo, ela é a rainha. Mesmo que a coroa dela seja feita de espinho, ela vai usar e vai agradecer de joelhos por ser eu quem colocou na cabeça dela.
Ele virou as costas pra mim, rindo alto de novo, e gritou pro DJ soltar o proibidão mais pesado do comando. O cara tava em êxtase, se achando o pilar inabalável do Turano, sem perceber que cada palavra que ele soltou foi um prego a mais no caixão que eu já tava encomendando pra ele.
Eu fiquei ali, estático, vendo o Imperador se aproximar da Samira de novo. Ele chegou por trás, deu um puxão no cabelo dela um gesto de dominação que ele jurava que era carinho e a beijou com aquela baba de possessão nojenta. Vi o corpo dela tencionar. Vi a Samira fechar os olhos com força. E no momento que ela fechou, eu senti que a alma dela tava fugindo dali, procurando qualquer buraco no mundo que fosse seguro. E esse lugar, porra... esse lugar ia ser comigo, nem que eu tivesse que queimar o morro inteiro pra isso.
O Augusto, querendo mostrar que era o "alfa", começou a chamar outras minas pro lado dele, piranhas que tavam ali na caça de um pouco de sombra e água fresca. Ele começou a se esfregar nelas, rindo, desrespeitando a mulher na cara dela, enquanto a Samira aceitava tudo com aquela cabeça baixa, aquela postura de quem já tinha sido quebrada por dentro. Ela via as outras sentando no colo do marido, aceitava os olhares de deboche, e continuava ali, como um objeto de decoração que o dono resolveu usar de cinzeiro.
Eu apertei o fuzil no peito, sentindo o metal frio contra o meu corpo que tava a mil por hora. O Augusto tinha acabado de me dar todos os motivos do mundo pra ser impiedoso.
"Boneca de luxo, né, seu verme?", pensei, enquanto via os seguranças dele abrindo caminho. "Pois essa tua boneca vai ser o motivo da tua queda."
Eu me descolei do pilar. A caçada não ia esperar o baile acabar. Eu subi os degraus que levavam pra parte de trás do camarote, onde o som ficava um pouco mais abafado, mas a tensão era maior. Eu precisava passar por ela. Precisava sentir se o que eu tava sentindo era só ódio dele ou se o cheiro dela ainda era o mesmo de quando ela era livre.
Caminhei devagar. O camarote tava cheio, mas pra mim só existia ela. Passei por trás da Samira enquanto o Augusto tava ocupado entochando a mão no r**o de uma loira qualquer que tinha acabado de subir. Eu não disse nada. Não sou homem de gastar palavra com quem não merece. Eu só passei.
Passei tão perto que senti o calor que emanava daquela pele bronzeada. O cheiro dela... p***a. Não era perfume de frasco caro. Era cheiro de mulher desesperada, misturado com uma essência de baunilha que parecia lutar contra a podridão daquele ambiente. Eu não falei uma vírgula, mas no momento em que meu braço roçou no dela, senti um choque que atravessou o meu colete tático. Eu não olhei no rosto dela, mas parei um segundo atrás dela, tempo suficiente pra ela sentir a minha presença, sentir o cheiro de pólvora e metal que eu carregava.
Eu não sou o Imperador que precisa gritar pra ser notado. Eu sou a sombra que sufoca no silêncio.
Senti o perfume dela invadir minha mente, uma doçura que não combinava com o sangue que eu já tinha nas mãos. Mas naquele momento, eu soube: o Augusto podia ter o corpo dela, podia ter o papel passado, mas ele nunca ia ter o que eu senti naquele segundo. Eu senti a submissão dela, mas vi a revolta escondida na forma como ela segurava o copo.
Virei o resto do uísque, que agora tinha gosto de vitória antecipada, e me joguei no meio da massa, saindo do camarote e voltando pra escuridão da pista. A caçada tinha subido de nível. Agora não era mais só desejo carnal. Era por honra de bandido. Era pra mostrar pro Imperador que no Turano, o caçador mais perigoso é aquele que não faz barulho, que não ostenta ouro e que sabe exatamente onde o ponto fraco do rei fica escondido.
— Curte teu resto de reinado, Augusto. — Sussurrei pra mim mesmo, sumindo na neblina de lança e suor. — Porque a tua joia já mudou de vitrine. E o preço pra recuperar... vai ser a tua cabeça rolando na ladeira.