capítulo 16 Samira

1387 Palavras
O PREDADOR NA CONTENÇÃO Entrei na loja de lingerie de luxo com as pernas bambas, uma sensação de vertigem que não vinha do cansaço, mas do rastro de calor e perigo que o Renan deixava por onde passava. O ar-condicionado gelado da boutique, com aquele cheiro de perfume caro e aristocrático, não era suficiente para apagar o incêndio que ele tinha começado sob a minha pele no estacionamento. Eu sentia cada poro do meu corpo dilatado, uma traição física que me dava ódio. Passei as mãos trêmulas pelas rendas francesas, sedas e transparências que custavam o preço de um carro popular. Eu precisava manter a fachada de esposa fiel, a "Joia do Império", então escolhi algumas peças pretas e vermelhas o uniforme da submissão que o Augusto gostava de ver antes de me usar como um troféu. Mas o sossego durou o tempo de um suspiro. Senti a presença dele atrás de mim. O Renan não se aproximou como um segurança; ele se aproximou como um invasor. O cheiro de madeira, tabaco e pólvora abafou as fragrâncias florais da loja, reivindicando o espaço ao meu redor. — Essa daí não combina contigo, patroa — ele soltou, a voz baixa, vulgar e rouca, vibrando direto na minha nuca. Eu estava segurando um conjunto de renda preta, mas ele esticou a mão tatuada, os dedos grandes e firmes roçando propositalmente nos meus, e tocou na seda de um espartilho branco, puro, imaculado. O toque foi um choque elétrico. — Tu tem cara de quem fica melhor no branco. Combina com essa pose de santa que tu tenta manter pro morro, mas que a gente sabe que esconde um bicho por baixo, louco pra sair da jaula. Um bicho que o Imperador não tem calibre pra domar — ele sussurrou, a audácia transbordando em cada palavra. — Renan, chega! — sibilei, me afastando bruscamente, sentindo o ódio e a vergonha borbulharem. As vendedoras olhavam de longe, curiosas com aquele homem de preto, armado e imponente, que não guardava a distância regulamentar da "patroa". — Você não tem que opinar em nada. Você é pago pra vigiar a porta, não pra dar palpite na minha i********e. Fica no teu lugar! — Meu trabalho é cuidar do patrimônio. E eu gosto de saber exatamente o que eu tô protegendo por baixo desse linho todo — ele rebateu com um sorriso cínico, aqueles olhos cinzentos me despindo, mapeando cada curva minha sem o menor pudor, sem um pingo de respeito pela hierarquia. Enquanto eu tentava me recompor, vi pelo reflexo da vitrine uma silhueta conhecida. Era a Paula, uma amiga dos tempos de salão, uma das poucas que ainda tinha coragem de me olhar nos olhos. Eu abri a boca para chamá-la, uma necessidade desesperada de conexão com a minha vida real, com a Samira que não era "propriedade". — Paula! — comecei a dizer, mas o Renan foi mais rápido. Ele deu um passo lateral, bloqueando a minha visão e o meu caminho. A mão dele fechou no meu pulso com uma força que me fez morder o lábio. — Nem pensa nisso, Samira — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu, a expressão agora era de um carrasco. — Sem conversa com civil. Ordem do patrão. Tu não tá aqui pra fazer social, tá aqui pra consumir e voltar pro ninho. Esquece que tu tem amiga. Agora tu só tem dono... e sombra. A forma como ele me calou, como se eu fosse uma criança ou uma prisioneira de guerra, me deu um ódio que fez minha vista escurecer. Ele estava sendo pior que o Augusto. O Augusto gritava e agredia, mas o Renan... o Renan me sufocava com uma precisão tática que me deixava sem saída. Finalizei as compras com fúria. Entreguei as sacolas para ele com um gesto brusco, querendo que ele sentisse o meu desprezo. O Renan pegou tudo com uma mão só, sem reclamar, mantendo aquela postura de soldado de elite, mas o deboche no olhar era nítido. Caminhamos até a Land Rover no estacionamento em um silêncio absoluto e carregado de eletricidade estática. Assim que entrei no banco de trás, bati a porta com tanta força que o som ecoou pelo estacionamento subterrâneo. — Vamos logo. Volta pro morro agora! Já perdi tempo demais com você hoje e o Augusto vai saber de cada liberdade que você tomou — ordenei, sem olhar para ele, tentando recuperar o resto de autoridade que me sobrava. Ele deu a partida, soltando uma risada curta e seca. O trajeto seguia em direção às ladeiras do Turano, mas o destino parecia estar brincando com a minha sorte. No meio do caminho, em uma via expressa deserta que cortava o pé da comunidade, uma área de matagal e silêncio, senti o carro dar um solavanco violento. O Renan manobrou com uma perícia absurda, controlando o monstro blindado, e parou no acostamento, sob o sol escaldante de quase quarenta graus. Ele desceu do carro sem dizer uma palavra. Fiquei ali dentro, protegida pelo vidro fumê, vendo ele dar a volta no veículo. De repente, ele abriu a minha porta. O calor de fora entrou como um soco. — O que foi agora? Por que parou nessa merda de lugar? — perguntei, a voz carregada de uma impaciência que escondia o meu pavor. — O pneu furou, Samira. Azar o teu... ou sorte a minha — ele respondeu, me encarando com uma intensidade que fez meu coração martelar contra as costelas como um animal enjaulado. Antes que eu pudesse retrucar ou exigir que ele chamasse reforços pelo rádio, ele levou as mãos à bainha da camisa preta. Com um movimento lento, quase cinematográfico e carregado de malícia, ele tirou a peça. O sol bateu com força nos músculos rígidos do peito e dos braços dele, iluminando as tatuagens que subiam pelo pescoço e se perdiam nas costas largas. O suor já começava a brotar e brilhar na pele bronzeada, desenhando cada fibra muscular. As "dog tags" no pescoço balançavam enquanto ele se abaixava para pegar o estepe, o metal batendo no peito nu com um som rítmico. Fiquei sem ar. O Renan sem camisa ali, naquele cenário deserto, exalava uma masculinidade agressiva, crua e vulgar. Ele começou a soltar os parafusos com uma facilidade assustadora, as veias dos braços saltando com o esforço. Eu sabia que deveria ligar para o Augusto, que deveria estar exigindo que ele se vestisse, mas meus olhos estavam presos naquela visão proibida. — Por que você não usa o rádio? Manda alguém vir trocar isso — falei, a voz saindo mais fraca do que eu pretendia. Ele parou o que estava fazendo, ainda agachado, e olhou para cima. O suor escorria pelo rosto dele, parando nos lábios. — Pra quê, patroa? — ele perguntou, a ironia pingando da língua. — Tu tá com pressa de voltar pros braços do Imperador? Deixa o homem trabalhar. Aqui fora, o tempo é meu. E eu gosto de ver você assim... me vigiando enquanto eu faço o trabalho sujo. Ele se levantou, caminhando até a minha porta aberta, ficando a centímetros de mim, exalando calor, suor e testosterona. Ele colocou as mãos sujas de graxa no batente do carro, me cercando. — Tu pode ameaçar o quanto quiser, Samira. Pode dizer que vai me entregar. Mas a gente sabe que tu tá adorando ver o "segurança" sem o uniforme. Tu tá tremendo, morena. E não é de medo. É de vontade de saber se eu sou tão bruto quanto o teu dono diz que é. — Você é um desgraçado... o Augusto vai te matar — eu sussurrei, mas não recuei. — Ele pode até me matar depois. Mas antes disso, eu vou ter feito você esquecer que ele existe. — Ele se inclinou, o cheiro de homem e asfalto quente me dominando. — Agora fica quietinha aí e aprecia a vista. O pneu não é a única coisa que tá sob pressão aqui hoje. Ele voltou para o pneu, rindo baixo, me deixando ali, sufocada pelo calor e por um desejo que era a minha sentença de morte. O Renan não era um subordinado; ele era o dono da situação, e eu estava descobrindo que, no asfalto deserto, a coroa da primeira-dama não valia nada perto do instinto de um caçador.
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