Capítulo 7

1512 Palavras
GUI NARRANDO Tem gente que acha que quem vai parar no crime já nasce com isso no sangue. Que é destino, que é caminho sem volta. Mas comigo não foi assim. Eu cresci ouvindo funk na laje, jogando bola na rua, indo pra escola todo dia com a Maju. Eu nunca fui de beber, nunca fui de usar d***a, nunca fui de arrumar confusão. Minha mãe sempre me deu liberdade, mas eu nunca abusei. Pelo menos até um certo ponto. A real é que eu sempre quis dar mais pra minha família. A gente nunca passou fome, mas eu via o corre da minha mãe e do meu pai, trabalhando de tudo quanto é jeito, e aquilo me pesava. Eu olhava pros moleque do bairro, que andavam de moto zero, cordão de ouro no pescoço, roupa de marca, e pensava: “Por que eu não posso ter isso também? Por que minha mãe não pode ter uma vida melhor?” Foi essa vontade que me levou pro baile. Não que eu não gostasse da música, da energia, mas era ali que o dinheiro circulava. Eu via os caras ostentando, gastando em uma noite o que a minha mãe demorava um mês inteiro pra juntar. E eu, com 18 anos na cara, me sentia pequeno. Queria mais. No começo foi só amizade. Os caras me tratavam bem, me davam moral, me faziam sentir parte de alguma coisa grande. Eles sabiam que eu não era do corre, mas também não me empurravam nada. Era aquela sedução lenta, quase imperceptível. Até que um dia, um deles me chamou no canto e disse: — Gui, tu é desenrolado. Faz esse favor pra mim, leva esse pacote até tal lugar. É rapidinho, sem risco. Eu pensei duas vezes, mas aceitei. Foi só uma entrega. Depois outra. E mais outra. No início, eu me convencia de que não era nada demais. Eu não estava vendendo, não estava armado, não estava “na pista” de verdade. Eu era só um mensageiro. Mas a verdade é que cada pequeno passo já era um mergulho mais fundo. Eu comecei a ganhar dinheiro que eu nunca tinha visto antes. Notas que pareciam leves no bolso, mas pesavam na consciência. Só que a consciência eu empurrava com desculpas: “É só por enquanto. É só até eu ajudar a mãe a pagar as contas. É só até eu juntar um dinheiro.” E aí já era. O problema é que a gente sempre acha que tem controle, mas não tem. Eu achava que sabia a hora de parar. Que podia brincar de encostar nesse mundo sem me sujar de verdade. Só que esse mundo não é feito pra brincadeira. Uma hora a conta chega. No dia que eu fui preso, parecia uma cena de filme. A gente tava na rua, eu e mais dois, quando a viatura encostou. O coração disparou. Eu nunca tinha passado por aquilo de verdade. Quando senti o ferro frio da algema no meu pulso, pareceu que a minha vida inteira desmoronou de uma vez só. Na hora, o que eu mais pensei não foi nem em mim. Foi na minha mãe. Eu sabia que ela ia estar em casa, esperando eu chegar do baile, sem imaginar que eu ia voltar daquele jeito. E na Maju também. Minha irmã, tão nova, ia carregar o peso do meu erro. A cela não é só ferro e concreto. É também silêncio, arrependimento e memória. É ter que encarar a própria consciência todo dia. Eu olhava pro teto e pensava: “Como eu fui tão burro? Como deixei isso acontecer?” Eu nunca fui do crime. Eu caí por querer ser esperto, por querer mostrar que podia. E, no fim, só mostrei que não sabia nada. Na primeira noite preso, eu juro que pensei que ia enlouquecer. O barulho das grades batendo, os gritos dos caras que já estavam lá há muito tempo, o cheiro pesado de suor e cigarro velho. Eu fiquei num canto, quieto, tentando não chamar atenção. Eu não era dali. Não tinha tatuagem no rosto, não tinha olhar frio, não tinha histórico. Eu era só mais um moleque que tinha se achado esperto e tinha rodado. No fundo, eu sabia que não ia ser fácil. Os caras que já estavam lá dentro tinham outra vivência, outra casca. Eu era só um peixe pequeno no meio de tubarões. E peixe pequeno aprende rápido a ficar calado se não quiser virar alvo. Mas o pior não era o medo do lugar. O pior era o peso dentro de mim. Cada minuto que eu passava olhando aquelas paredes era um minuto lembrando da minha mãe. Eu imaginava ela chorando sozinha, se culpando. Eu conheço minha mãe, sei que ela ia carregar essa cruz como se fosse só dela. Ia pensar que deu liberdade demais, que confiou demais, que falhou como mãe. E a Maju… a minha pequena. Ela sempre olhou pra mim como referência. Mesmo brigando, mesmo discordando, eu sabia que ela tinha orgulho de mim. E agora? O que restava pra ela além da vergonha? Além de ter que andar de cabeça baixa porque o irmão escolheu o caminho errado? Esses pensamentos eram como uma prisão dentro da prisão. Eu não conseguia fugir deles. Às vezes fechava os olhos e lembrava da última vez que sentei na mesa da cozinha com as duas, rindo de besteira, comendo a comida da minha mãe. Lembrava do cheiro do feijão borbulhando na panela, do barulho da Maju brigando porque eu pegava o copo dela. Parecia uma vida inteira atrás de mim, e no entanto tinha passado só alguns dias. Dentro da cadeia o tempo tem outro ritmo. Um dia parece uma semana, uma semana parece um mês. Você começa a medir o tempo pelas cartas que recebe, pelas visitas que consegue. Minha mãe foi me ver na primeira oportunidade. Quando eu vi ela entrando, com aquele olhar misturado de amor e tristeza, eu desabei por dentro. Por fora tentei ser firme, mas por dentro eu era só culpa. Ela tentou sorrir, mas o sorriso tremia. Pegou minhas mãos através da grade e disse: — Meu filho, eu tô aqui. Eu nunca vou te abandonar. Eu quase chorei ali mesmo, mas me segurei. Eu não queria que ela me visse fraco, não queria que ela sofresse ainda mais. Só consegui responder: — Me perdoa, mãe. Ela balançou a cabeça, dizendo que não precisava pedir perdão, mas eu sabia que precisava sim. Porque se tinha alguém que não merecia nada daquilo era ela. As visitas da Maju demoraram mais. Acho que ela não queria me ver daquele jeito, preso, algemado, com uniforme. Quando finalmente foi, eu senti vergonha. Vergonha de ser visto assim por ela. Eu era o irmão mais velho, aquele que devia proteger, e estava ali, do outro lado da grade. Ela não disse muito, só me abraçou forte quando pôde e sussurrou: — Eu sinto sua falta. Foi o suficiente pra me quebrar. Porque ali eu percebi que, além de ter decepcionado minha mãe, eu tinha arrancado um pedaço da infância dela também. O dia a dia dentro da cadeia é um teste constante. Você tem que aprender a conviver, a respeitar, a não dar motivo pra arrumar confusão. Eu observava mais do que falava. Escutava histórias de caras que tinham crescido no crime, que nunca conheceram outra vida. E me perguntava: o que eu tô fazendo aqui? Eu não era como eles, mas estava pagando como se fosse. Às vezes, à noite, eu me perguntava onde eu tinha errado de verdade. Foi no primeiro baile? Foi na primeira entrega? Ou foi lá atrás, quando eu decidi que a vida simples que a gente tinha não era suficiente? A verdade é que eu quis mais. Quis rápido. Quis fácil. E a vida não perdoa esse tipo de atalho. Eu tentava me agarrar à ideia de que, um dia, eu ia sair dali. Que ia poder recomeçar, provar que eu não era só mais um. Mas a cada barulho de grade, a cada chamada de conferência, essa esperança diminuía um pouco. Não porque eu não acreditava, mas porque eu sabia que, mesmo saindo, a marca ficaria. Sempre seria “o Guilherme que foi preso”. Sempre carregaria isso no olhar das pessoas, no sussurro das vizinhas, no currículo recusado. Ainda assim, tinha algo dentro de mim que insistia em resistir. Eu não queria ser definido por aquele erro. Não queria que a minha mãe passasse o resto da vida com a sombra do meu fracasso. Não queria que a Maju crescesse acreditando que o destino dela era seguir o mesmo caminho. Foi aí que eu comecei a escrever. Não cartas só, mas pensamentos. Coisas que eu não conseguia dizer em voz alta. Às vezes escrevia pra minha mãe, às vezes pra minha irmã, às vezes pra mim mesmo. Escrevia sobre arrependimento, sobre o tempo, sobre como a liberdade só é valorizada quando a gente perde. E, aos poucos, percebi que escrever era a única coisa que me mantinha inteiro ali dentro.
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