GUILHERME NARRANDO
Eu não dormi direito aquela noite.
E não foi pelo barulho.
Nem pela bagunça.
Nem pela adrenalina de ter voltado pra casa depois de tanto tempo.
Foi por causa dela.
Clara.
Eu deitei, virei de um lado, virei do outro… fechei o olho, abri de novo… e nada.
Minha cabeça não parava.
E o pior?
Eu nem queria que parasse.
Fiquei lembrando de tudo.
Desde a hora que ela chegou.
Cinco horas da tarde.
Eu lembro porque eu tava na varanda, trocando ideia com uns caras, quando ela entrou.
E foi automático.
Meu olhar foi.
Sem esforço.
Sem intenção.
Foi.
Ela entrou mais quieta, meio na dela, olhando o ambiente, analisando tudo.
E eu pensei na hora:
“Essa aí não é qualquer uma.”
Não sei explicar.
Mas tinha algo diferente nela.
E eu sou bom nisso.
De ler gente.
De sentir energia.
E a dela…
Era leve.
Mas não era boba.
Era daquelas que observa antes de se entregar.
E isso me chamou atenção.
Muito.
⸻
Durante a noite, eu tentei não ficar reparando tanto.
Até porque…
Tinha muita gente ali.
Família.
Amigos.
Todo mundo querendo falar comigo.
Todo mundo querendo saber como eu tava.
E eu precisava dar atenção.
Eu queria dar atenção.
Mas mesmo assim…
Volta e meia…
Meu olhar ia nela.
E eu percebia uma coisa.
Ela também me olhava.
Não direto.
Não descarado.
Mas olhava.
Aquele tipo de olhar rápido.
Que desvia logo depois.
Mas que entrega.
E isso…
Só me deixou mais curioso.
⸻
Teve um momento específico que ficou na minha cabeça.
Ela tava conversando com a minha tia.
Sentada.
Comendo.
Rindo.
Solta.
E eu fiquei olhando de longe.
Observando.
O jeito que ela falava.
O jeito que ela gesticulava.
O jeito que ela se envolvia na conversa.
E o mais louco?
Minha tia, que não é fácil com qualquer pessoa…
Tava adorando ela.
Minha vó também.
Minha mãe então…
Nem se fala.
Quando eu vi minha mãe abraçando ela e falando “eu te amo”, eu pensei:
“Pronto.”
— Já era.
Ela já tinha ganhado todo mundo.
E eu…
Eu tava começando a entrar nessa também.
Sem perceber.
Ou talvez percebendo e fingindo que não.
⸻
Mas o que me pegou mesmo…
Foi lá embaixo.
Naquela hora da madrugada.
Quando eu fui procurar a Maju.
E dei de cara com ela no quarto.
Sozinha.
Ali…
Foi diferente.
Porque não tinha mais distração.
Não tinha barulho.
Não tinha ninguém.
Era só ela.
E eu.
E foi ali que eu vi de verdade.
Sem maquiagem pesada.
Sem produção.
Sem nada.
E mesmo assim…
Bonita pra caramba.
Mas não era só beleza.
Era o jeito.
O olhar.
A calma.
E quando eu falei com ela…
Quando a gente começou a conversar…
Eu senti.
Senti que tinha alguma coisa ali.
E quando eu chamei ela pro baile…
Eu já sabia que ela ia negar.
Ela tinha cara disso.
Certinha.
Cuidadosa.
Mas mesmo assim…
Eu insisti.
Não só pelo baile.
Mas porque eu queria ver até onde aquilo ia.
Queria ver até onde ela ia.
E quando ela disse que ia tentar…
Ali eu já ganhei.
Eu sabia.
Ela podia até não ir.
Mas ela queria.
E isso já era suficiente pra mim naquele momento.
⸻
Depois eu voltei lá pra cima.
Mas minha cabeça não ficou lá.
Ficou lá embaixo.
No quarto.
Com ela.
E quando a festa foi acabando…
Eu desci de novo.
Só pra ver.
Se ela ainda tava acordada.
Se ela tava bem.
Se… sei lá.
Qualquer coisa.
E foi aí que eu dei o beijo na testa da Maju.
Mas aquilo ali…
Aquilo era normal.
Sempre foi.
Eu sempre fui assim com minha irmã.
Carinhoso.
Presente.
E aí…
Eu olhei pra Clara.
Ela tava mexendo no celular.
Mas eu sabia que ela tava ali.
E eu fui.
Sem pensar muito.
Dei o beijo na testa dela também.
— Dorme com Deus, anjinha.
E, na hora que eu falei…
Eu percebi.
Percebi que com ela não foi igual.
Não foi automático.
Não foi só costume.
Teve intenção.
Teve vontade.
E quando eu saí do quarto…
Eu soube.
Eu tinha mexido com ela.
E isso ficou na minha cabeça.
⸻
Por isso eu não dormi.
Fiquei lembrando.
Repassando.
Pensando.
E tentando entender uma coisa:
Eu tava interessado?
Ou era só coisa do momento?
Porque eu acabei de sair de um lugar onde você aprende a não se apegar a nada.
A não confiar.
A não criar expectativa.
E agora…
Eu tava ali.
Pensando numa menina que eu conheci naquele mesmo dia.
Balancei a cabeça.
— Tá maluco, mano…
Mas mesmo assim…
Eu não conseguia parar.
⸻
Quando deu umas oito e pouca da manhã, eu já tava de pé.
Sem sono.
Sem paciência pra ficar deitado.
Desci.
A casa tava em silêncio.
Meu pai já tava acordado.
— E aí — ele falou.
— E aí.
A gente trocou aquela ideia rápida.
E aí eu tive uma ideia.
Do nada.
Mas fez sentido pra mim.
— Bora fazer um café da manhã aí?
Ele me olhou.
— Pra quê?
— Pra elas.
Ele riu de leve.
— Tá apaixonado?
Revirei o olho.
— Para com isso.
Mas ele percebeu.
Pai percebe.
— Bora então.
E a gente fez.
Pão.
Café.
Organizamos a mesa.
E aí, quando ficou pronto…
Eu saí.
Fui na rua.
E achei umas florzinhas simples.
Nada demais.
Mas bonitas.
Peguei uma pra cada.
E voltei.
⸻
Fiquei esperando elas acordarem.
Uma por uma.
E cada uma que saía do quarto…
Eu entregava a flor.
Normal.
Leve.
Sem pressão.
Mas quando eu olhava pro quarto…
Eu sabia.
Eu tava esperando ela.
Clara.
E isso já dizia muita coisa.
⸻
Ela foi a última.
Claro.
Eu até ri sozinho.
— Dorminhoca…
Quando ela apareceu no corredor…
Ainda meio sonolenta…
Cabelo bagunçado…
Rosto limpo…
Eu senti.
De novo.
Aquela sensação.
Ela passou direto pro banheiro.
E eu fiquei ali.
Esperando.
Sem nem disfarçar.
⸻
Quando ela entrou na cozinha…
Deu bom dia.
Toda educada.
Toda… ela.
Eu nem deixei ela se acomodar.
Fui direto.
Com a flor na mão.
Parei na frente dela.
E estendi.
Ela me olhou.
Surpresa.
— É… pra mim?
Eu sorri.
— É.
Simples.
Mas por dentro…
Eu tava prestando atenção em tudo.
Na reação.
No olhar.
No jeito.
Ela pegou.
Com cuidado.
Como se aquilo tivesse valor.
E isso me ganhou.
De verdade.
⸻
E aí…
Eu fiz.
Sem pensar muito.
Segurei a mão dela.
Senti na hora que ela ficou tensa.
Mas não puxou.
Não recuou.
E isso…
Falou mais do que qualquer palavra.
Levei a mão dela até minha boca.
E beijei.
Devagar.
E, naquele momento…
Eu não tava brincando.
Não tava zoando.
Não tava sendo só simpático.
Eu tava mostrando.
Do meu jeito.
Que eu tinha interesse.
⸻
— Eu e meu pai fizemos café da manhã pra vocês.
Falei normal.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas eu sabia.
Eu sabia que tinha.
— Vai lá.
Ela respondeu meio perdida.
E eu segurei o sorriso.
Porque eu reconheci aquilo.
Ela tava sentindo.
E isso era só o começo.
⸻
Naquele momento, uma coisa ficou clara pra mim.
Eu não queria só zoar com ela.
Não queria só passar o tempo.
Não queria só brincar.
Eu queria ver onde aquilo ia dar.
Sem pressa.
Mas sem fugir também.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu senti vontade de construir alguma coisa.
E isso…
Pra mim…
Era novo pra caramba.