CECÍLIA GRASSO
Acordo com o barulho dos funcionários da casa lavando as roupas, me levanto do chão, meu corpo já nem dói mais, a anos dormindo no chão, acordando com o barulho da lavanderia. Isso já era um costume, difícil de aceitar, mas era minha rotina.
— Bom dia, noivinha.
Minha irmã Eleonora entra no quarto. Não sei bem se posso chamar o local que durmo de quarto, apesar de estar aqui desde os meus seis anos de idade, quando estava com minha mãe, me lembro do nosso quarto e mesmo não sendo luxuosa, como a casa do maldito do meu pai é, eu lembro da cama que eu e minha mãe dormia, das cobertas, da forma que ela cuidava de mim, e esse cômodo minúsculo, não é um quarto.
— Sai daqui, Eleonora. — Já falo sem humor, ela ri irônica como sempre.
— Não sei porque ainda tenta ser rebelde, sabe que aqui quem manda sou eu.
— Não seu porque ainda acha que me importo.
Um tapa é dado no meu rosto, tento revidar como sempre, mas meu corpo não é forte, e a filha da p**a da minha irmã é treinada, a substituta do meu pai na máfia, era treinada em tudo, enquanto eu a filha bastarda a vergonha da família, era trqncafiada como um bicho, só não fui morta ainda, pelas regras insanas da máfia, mas de resto já fizeram de tudo comigo.
— Ainda bem que vai sumir daqui, que vai casar com o animal do Trentino, e com certeza ele vai te matar
Ela diz rindo, e eu sinceramente não me importo se isso acontecer, pelo menos não estarei mais aqui, morta é melhor que isso.
Eu fui dada como noiva a um assassino da máfia rival a do meu pai, como um cessar fogo, uma trégua, a união das duas famílias.
Mas não é nada bom como parece, eu serei apenas um objeto a ser descartado na mão desse homem, Serei sim sua esposa, a paz será selada, e quando tudo se acalmar serei morta com certeza, assim são os homens da máfia, são fiéis a suas esposas pelas regras, mas quando não as querem, elas desaparecem misteriosamente.
Mas pra mim pouco importa, se eu tiver o mínimo de chance de fugir, eu vou. Sei que não vão atrás de mim.
Ninguém quer a filha bastarda do Grasso, e é nisso que me agarro, e mesmo senão der certo e eu acabar morrendo, pra mim está bom também.
— Sua v***a, tomara que o Animal do Trentino te mate com muita crueldade, sua bastarda.
Eleonora cospe suas palavras com ódio, ela me odeia por nosso pai ter traído a mãe dela com a minha, eu ter nascido, e a mãe dela ter se suicidado por isso, ela me acusa, sendo que o único safado é nosso pai.
— As empregadas vão vir te dar um banho e vou levar para escolher seu vestido de noiva, amanhã estaremos livres de você, sua bastarda nojenta.
Ela diz e sai do quarto, eu me sento no chão, olho os roxos nos meus braços, pelo corpo todo, fico imaginando como meu noivo reagiria a isso, com repulsa com certeza, já ouvi as empregadas conversando sobre os trigêmeos Trentino, o quão cruéis são, por isso meu pai pediu um acordo, um cessar fogo, com medo deles. E eu entrei no meio, não sei como, mas agora meu destino estava selado.
Alguns minutos depois, as empregadas entram, com toalhas, produtos de higiene, roupas, isso é tão raro, que fico olhando encantada.
— Oi, menina. — a mais velha dela diz sorrindo, ela era gentil comigo, todas são, mas ela sempre me dava comida a mais escondida, tentava me dar um pouco de dignidade, algo impossível para mim.
Sou levada para fora, olho tudo com cuidado, a última vez que sai daquele quarto, tem mais de dois meses, e dessa casa tem anos, nem sei mais como o mundo é lá fora.
Me levam para o andar de cima, tomo um banho e quando a água quente cai no meu corpo, eu acabo chorando, como algo tão nono como tomar banho pode ser tão emocional para mim.
— Obrigada.
Falo baixinho, elas se entreolham e me ajudam com carinho no banho, logo após coloco um moletom horroroso que me foi dado, com certeza escolhido por minha irmã.