Te vejo em breve

1079 Palavras
Clara começou a ajudar nos serviços leves — segurava ferramentas, anotava pedidos, aprendia o nome das peças com uma curiosidade que o fazia sorrir. Às vezes, ele fingia que precisava de ajuda só para tê-la por perto. Outras, ela aparecia sem avisar, trazendo café e histórias da faculdade. O rádio da oficina vivia ligado, tocando canções antigas. Entre o som dos motores e o barulho do vento entrando pela porta entreaberta, havia algo que só os dois entendiam: o ritmo sereno de um amor que crescia devagar, firme, sem pressa. — Engraçado — ela dizia, com as mãos sujas de graxa —, nunca imaginei que fosse gostar tanto do cheiro de graxa. Heitor ria, limpando o rosto com um pano. — Acho que é porque tem cheiro de nós dois. O tempo passou — como sempre passa —, mas sem pressa de apagar o que era verdadeiro. O dias passaram e as férias chegaram ao fim. — Eu volto pra faculdade em dois dias — a voz de Clara tremia. O tempo parou. Ele se aproximou, a abraçou forte, como se pudesse guardá-la inteira na lembrança daquele instante. Ela se afastou um pouco, o sorriso tremendo. — Por que eu tinha que escolher uma faculdade tão longe? - A gente vai dar um jeito - Ele respirou fundo, olhando-a nos olhos. O silêncio se fez de novo, aquele tipo de silêncio que pesa e acolhe ao mesmo tempo. Ela encostou a testa na dele. — Mas eu acabei de voltar — E agora eu saberei onde te encontrar — A voz dele saiu firme, sem hesitação - Ainda temos dois dias. A noite caía lenta sobre a cidade, vestida de um frio suave que trazia cheiro de chuva distante e lembranças antigas. As luzes da oficina já estavam apagadas quando Heitor fechou a porta atrás de si, levando na mão uma sacola discreta e o coração batendo como se fosse o primeiro encontro. Ele passou o dia inteiro planejando tudo em segredo. Comprou flores, arrumou a mesa com cuidado: uma toalha branca, duas taças de vinho, velas perfumadas, encomendou comida no restaurante que ele descobriu que era o seu favorito. Clara estava em casa, revisando anotações da faculdade, quando o celular vibrou sobre a mesa. Heitor: “Preciso de você aqui. É importante.” O coração dela disparou. Leu a mensagem mais de uma vez, tentando decifrar o tom. Ela nem pensou. Vestiu o casaco grosso, ajeitou o cachecol e saiu apressada. O vento frio soprava pelas ruas quase vazias, e o ar tinha aquele cheiro limpo e úmido de inverno. Quando chegou, a oficina estava fechada, mas uma luz suave escapava pela janela do andar de cima. Subiu a escada laterais o coração batendo rápido. Bateu na porta. — Heitor? A porta se abriu devagar, revelando-o ali — o rosto sereno o olhar com um brilho de excitação — Você veio — disse ele, num tom baixo, quase rouco. O apartamento era diferente do que ela imaginara. Nada de desordem de oficina ou cheiro de graxa. O lugar tinha uma elegância simples, um charme silencioso. O piso de madeira clara, o sofá de linho cinza, quadros discretos nas paredes — fotos antigas de carros clássicos e uma pintura abstrata que ela reconheceu de um artista local. As cortinas pesadas em tom de grafite filtravam a luz, criando uma penumbra acolhedora. Sobre a mesa de jantar pequena, um arranjo de flores brancas e duas velas tremeluzindo. O rádio tocava uma canção antiga, em volume baixo. E, no ar, o perfume discreto de algo recém-preparado na cozinha. — Heitor... o que é isso? Ele sorriu, meio sem jeito, passando a mão pelos cabelos. — Um jantar de aniversário atrasado. Eu não estive no seu.. — respirou fundo — eu queria comemorar com você. Clara deu um passo à frente, os olhos fixos nele. - É perfeito Sentaram-se. O jantar foi simples, mas cheio de risos e silêncios bons. De vez em quando, ele olhava para ela e pensava no quanto o amor, às vezes, é feito de pequenas coisas — um olhar demorado, uma mão sobre a mesa, o som das velas queimando no frio da noite. Quando terminaram, Heitor se levantou, pegou a pequena caixa de dentro da jaqueta e voltou para perto dela. — Tenho mais uma coisa. Clara arregalou os olhos, surpresa. — Mais? Ele abriu a caixinha: dentro, dois anéis prateados, simples, mas com brilho de sinceridade. — É um compromisso, — ele disse, a voz baixa. — Não de promessa eterna, mas de presença. De verdade. De ser teu, de estarmos juntos. Clara levou a mão à boca, emocionada. Os olhos marejados, o coração disparado. — Você não precisava... — Eu quis, — ele interrompeu, firme. — Porque te amo, e porque quero que o mundo saiba disso, mesmo que o mundo ainda não entenda. Ela respirou fundo, as lágrimas caindo sem pressa. Estendeu a mão, e ele colocou o anel em seu dedo, com um cuidado reverente. Depois, ela fez o mesmo, tremendo um pouco. — Agora é oficial, — murmurou ela, sorrindo entre lágrimas. — O mecânico e a menina da faculdade. Heitor riu, puxando-a para perto. — O que importa é que é a gente. E ali, entre o som distante do vento e o calor das velas quase se apagando, o tempo pareceu parar outra vez — só para que os dois coubessem dentro daquele instante. Na manhã da despedida, o céu estava limpo, e o Fusca azul reluzia sob a luz. Clara ajeitou a mala dela no banco de trás, e passou na oficina para se despedir dele mais uma vez, e mais uma vez ele checou se estava tudo certo com o carro. Clara o abraçou pela última vez antes da partida. — Cuida de voce por mim tá? - Ele a abraçou com força, querendo que aquele segundo durasse para sempre. O motor roncou, suave como no primeiro dia. Ela acenou pela janela, o vento bagunçando o cabelo, o sorriso misturado com lágrimas. Heitor ficou parado até o carro sumir na curva, com o coração cheio de algo que era saudade e esperança ao mesmo tempo. À noite, de volta à oficina, o rádio tocava uma música antiga, e ele sorriu sozinho, certo de que, mesmo distante, ela ainda estava ali — em cada detalhe, em cada som, em cada batida do motor. O amor deles não terminava com a estrada. Apenas começava um novo caminho.
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