Linhas Tênues

1064 Palavras
Cecília já estava há uma semana no morro. O tempo parecia ter um ritmo diferente ali. O que deveria ser prisão começou a se transformar em curiosidade, e, sem perceber, ela havia deixado de procurar uma rota de fuga. Agora, buscava entender. Danilo, por sua vez, continuava sendo um enigma — protetor e perigoso, silencioso e impulsivo. Naquela manhã, acordou com o som dos fogos. Alguém importante havia subido o morro. Quando saiu na varanda da casa de apoio, avistou carros pretos e homens armados descendo deles. Danilo estava de pé, firme, no topo da escadaria de concreto que levava à laje principal. Seu olhar era duro, sua expressão impenetrável. — Quem são? — perguntou ela, aproximando-se de Ivan, que estava com os braços cruzados ao lado. — Parceiros de fora. Gente que Danilo precisa manter por perto. Ivan não a olhou diretamente. Desde o segundo dia, seu comportamento oscilava entre proteção e irritação. E agora, seu tom era seco, impessoal. — E você? Tá gostando daqui? — Não estou em um hotel cinco estrelas, mas já estive em lugares piores com gente de alma podre — respondeu Cecília, firme. Ivan finalmente virou o rosto para ela. — Só cuidado. Esse lugar engole quem não sabe a hora de ir embora. Antes que ela pudesse responder, Lívia apareceu, sorridente, trazendo duas sacolas de compras. — Vem me ajudar aqui, Ceci! Trouxe umas roupas suas que mandei buscar com o motorista do Danilo. Ele tem os contatos dele. Cecília arregalou os olhos. — Como ele teve acesso às minhas coisas? — Danilo é Danilo — disse Lívia, rindo. — E... ele te observou mais do que você imagina. --- Naquela tarde, Danilo estava na quadra novamente. Sem camisa, como de costume, treinava com Ivan, que parecia descontar toda a raiva nos socos. Cecília, encostada na grade, observava. Não conseguia evitar. Por mais que sua mente gritasse para manter a distância, seu corpo traía essa intenção. O jeito como ele se movia, a firmeza, a intensidade… era hipnótico. — Quer tentar? — perguntou Danilo, ao notar seu olhar. — Tentar o quê? Quebrar meu nariz? Ele sorriu. — Te ensino a se defender. Vai que um dia precisa se virar sozinha de novo. Ela hesitou, mas o desafiou com um olhar firme. — Então me mostra. Ele se aproximou, entregou-lhe as luvas e ajustou com cuidado em suas mãos. O toque dele era preciso, forte, mas ao mesmo tempo cuidadoso. Quando seus dedos roçaram a pele do pulso dela, um arrepio percorreu sua espinha. — Primeira coisa: postura. Abre os pés. Isso. Mãos aqui — disse, colocando as dela na altura do rosto. Ela tentou repetir os movimentos que ele demonstrava, mas errava o tempo. Danilo se posicionou atrás dela, corrigindo com o corpo. — Muito perto, Danilo — sussurrou, sem se mover. — Você que não devia me provocar — murmurou ele, o rosto tão perto que ela podia sentir sua respiração. O silêncio entre os dois foi rompido por Ivan, que arremessou as luvas no chão. — Chega por hoje. Danilo olhou de relance para o amigo, entendendo o recado. Ivan saiu da quadra sem olhar para trás. Cecília tirou as luvas em silêncio. — Ivan não gosta de mim, né? — Ivan não gosta de não estar no controle — respondeu Danilo. — E ele sabe que você me tira do eixo. Ela encarou Danilo com os olhos firmes. — E isso te incomoda? — Me excita. Cecília sentiu o corpo responder antes que pudesse controlar. Aquele homem era um perigo real. Mas mais perigoso ainda era o que ele despertava dentro dela: desejo, raiva, dúvida, impulso. E um tipo de conexão que ela nunca teve com ninguém. --- Naquela noite, o morro estava mais agitado que o normal. Um carro da polícia tinha sido visto circulando pelas redondezas. A tensão pairava no ar. Danilo desapareceu por horas, dando ordens, checando câmeras, conversando com olheiros. Cecília ficou na laje com Lívia, ajudando a organizar os mantimentos recém-chegados. — Você mudou — comentou a irmã dele, em tom suave. — Mudei? — Quando chegou aqui, parecia uma princesa perdida. Agora já sabe lidar com o caos. Até com o meu irmão. Cecília sorriu, sem graça. — Não sei se estou lidando com ele ou se estou sendo engolida por esse lugar. Lívia a encarou com seriedade. — Danilo já teve outras mulheres. Algumas até bonitas, ousadas… mas nenhuma fez ele baixar a guarda. Você é a primeira que ele ouve calado. Isso diz muito. Antes que Cecília pudesse responder, a porta da laje se abriu com força. Danilo entrou, o rosto tenso, os olhos acesos. — Preciso falar com você. Agora. Ela o seguiu até um dos cômodos isolados. Ele trancou a porta atrás de si. — O que houve? — Tem gente de fora querendo informação sobre você. Alguém da Zona Sul. Meus contatos dizem que teu tio tá se mexendo. Ele quer te achar, mas não pela polícia. — Ele quer me comprar de volta? Danilo assentiu. — Tá oferecendo dinheiro, favores… qualquer coisa. Ele acha que pode te negociar como se você fosse mercadoria. Ela sentou na cadeira, atordoada. O desprezo que já sentia pelos tios virou nojo. — E você? Vai aceitar? Danilo caminhou até ela, agachando-se à sua frente. Pegou sua mão entre as dele. — Não. Você não é moeda. Você é… você. Cecília o olhou, sentindo os olhos arderem. — Você fala como se eu fosse importante. Mas eu sou só uma garota que caiu no seu mundo. — Não, Cecília. Você é a primeira coisa real que apareceu no meu mundo em muito tempo. Por um segundo, o tempo parou. E antes que ela pensasse, antes que pesasse prós e contras, ela se inclinou e o beijou. Não foi suave. Foi intenso, cheio de medo e desejo, como se ambos soubessem que estavam quebrando uma regra invisível. Danilo a puxou para mais perto, as mãos firmes em sua cintura, o corpo colado ao dela. Por alguns instantes, não existiam tiros, morro, dívidas ou crimes. Só dois corações machucados encontrando um no outro a única brecha de paz. Quando se afastaram, ofegantes, Cecília o olhou, assustada com o que sentia. — Eu devia te odiar. — Eu devia te manter longe. Mas ali estavam eles. Em silêncio. Já amarrados por algo mais forte do que queriam admitir.
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