CAP 1

1515 Palavras
Nancy Keller O suor escorre pela minha testa e desce pela nuca como se estivesse zombando de mim. Dia de faxina sempre é assim: pesado, quente, cansativo. E hoje parece ainda pior, talvez porque eu já esteja exausta antes mesmo de terminar metade do que precisa ser feito. O pano úmido pesa na mão, o cheiro de produto de limpeza se mistura com o calor abafado que entra pelas janelas abertas, e meu corpo inteiro pede uma pausa que eu não posso dar agora. — Nancy, me passa o esfregão! — A minha mãe pede da sala, a voz firme, daquele jeito que já conheço bem. Pego o esfregão encostado na parede e caminho até ela, desviando das cadeiras afastadas, dos baldes, das vassouras espalhadas estrategicamente pelo caminho. — Aqui. — Digo, entregando. Ela pega e volta a esfregar o chão com dedicação quase exagerada. Conheço esse ritmo. Minha mãe está aproveitando o fato de eu estar em casa. Aproveitando o fato de eu não ter trabalho no momento. E isso me incomoda mais do que deveria. Estou desempregada há quase um mês. Um mês inteiro sem rotina, sem salário, sem aquele cansaço bom no fim do dia que vem acompanhado da sensação de dever cumprido. Eu odeio ficar parada. Odeio depender. Odeio a sensação de que estou encostada, mesmo sabendo que minha mãe nunca diria isso em voz alta. Ela é costureira. Boa no que faz, conhecida no bairro e sabe não só consertar, mas fazer belas peças de roupas. Ela tem uma sala toda planejada com as máquinas e foram uma bela fortuna. Sempre tem alguém batendo à porta com uma barra para ajustar, um vestido para apertar, um casaco para reformar. E até com modelos de vestidos para ser feitos do zero. Geyse, minha irmã, estuda e trabalha como recepcionista em um restaurante local. Chega cansada, mas orgulhosa. E eu? Eu sou a única sem trabalho agora. Isso precisa mudar. — Depois você me ajuda com as roupas na pia... — A minha mãe diz, sem parar o movimento do esfregão. — Não é muita coisa, afinal... a máquina foi consertada. — Ajudo. — Respondo, mesmo já sentindo os braços pesados. O tempo vai passando devagar e rápido ao mesmo tempo. Lavo roupas, torço, estendo. Limpo o chão da cozinha, depois as paredes. Passo pano nos móveis, tiro pó, organizo o que já estava organizado. O suor gruda na pele. Meu cabelo cola na nuca. E, no meio disso tudo, a frustração cresce. Todos os dias eu entro em sites de vaga de emprego. Todos. Babá. Cuidadora. Auxiliar. Garçonete. Qualquer coisa. Saio perguntando nos comércios do bairro, entro em lojas pequenas, converso com conhecidos. Sempre a mesma resposta: vamos ligar. E o telefone nunca toca. É frustrante! Eu odeio ficar parada e odeio ver elas duas tendo seus trabalhos e eu parada. Sou a filha mais velha e sei o peso de prover sempre. Quando finalmente terminamos, a casa está irreconhecível. Brilhando. Cheirosa. Limpa de verdade. O tipo de limpeza que dá orgulho… e cansaço até a alma. — Vai tomar um banho, Nancy. — A minha mãe diz, enxugando as mãos no pano. — Depois eu faço uma torta. — Ela solta aquele sorriso que conheço. — De maçã? — Pergunto, já animada. — De maçã! Não penso duas vezes. Corro para o banheiro com um riso alto na boca. Pareço uma criança. O banho é demorado. Preciso tirar o suor, o peso do dia, o cansaço acumulado. A água quente vem de forma deliciosa e relaxa músculos que eu nem percebia estarem tão tensos. Lavo o cabelo com calma, fecho os olhos por alguns segundos a mais do que o necessário. Estamos em Berlim há sete anos. Às vezes parece uma vida inteira. Às vezes parece que foi ontem que cheguei aqui com algumas malas, uma mãe machucada e uma irmã assustada. Moramos em Mitte. Gosto daqui. É um bairro tranquilo, bonito, vivo. Há cafés, pequenas lojas, ruas agradáveis para caminhar. E o mais importante: desde que chegamos aqui, vivemos em paz. Paz de verdade. Problemas existem, claro. Sempre existem. Um aperto financeiro ali, uma recaída de resfriado, uma falta de algo na dispensa, um boleto novo. Essas coisas. Mas nada que não possamos resolver. Nada comparado ao que deixamos para trás. Não tenho notícias do meu pai. Não sei como ele reagiu quando percebeu que fomos embora. Não sei se nos procurou. Não sei se ainda é o mesmo homem violento. E não quero saber. Não procuro nada sobre ele. Não revisito o passado. Minha mãe também não. Geyse muito menos. Temos uma nova vida e é assim que precisa continuar. No começo foi difícil. Lugar novo, aquela desconfiança, os olhares curiosos das pessoas, o problema com o i****a. Mas, por incrível que pareça, falar inglês aqui ajudou muito. E claro, aprendemos o básico. Saio do banho, coloco um vestido soltinho, confortável. Passo um pouco de creme no corpo, perfume. Escovo os cabelos ainda úmidos. Quando volto para a cozinha, minha mãe já tomou banho também. Está com roupa limpa, avental amarrado à cintura, cortando maçãs com cuidado. O cheiro doce começa a se espalhar pelo ambiente. Eu amo essa torta. Sei fazer? Sim, mas ela tem um toque especial. — Você está melhor? — Ela pergunta, sem me olhar. — Um pouco. Sentamos à mesa enquanto ela começa a montar a base. Conversamos sobre coisas simples. Sobre o bairro. Sobre uma cliente nova. Sobre o restaurante onde Geyse trabalha e claro, o curso dela. Geyse quer ser advogada. Até que ouvimos batidas na porta. Minha mãe estranha, mas vai atender. — Flor! — Ela exclama, surpresa. Dona Flor entra sorrindo. Não é alemã, mas mora aqui há anos. Conhecida, falante, sempre com alguma novidade. Cumprimenta a gente com dois beijinhos, senta-se à mesa como se fosse de casa. Eu gosto dela. Já nos ajudou tanto em certos momentos. Sempre gentil mesmo que curiosa. — Vim devolver um molde que peguei emprestado. — Diz, colocando a bolsa no colo. Conversamos um pouco. Assuntos aleatórios. O clima é leve e em minutos a torta vai ao forno. Eu pego o meu celular discretamente e abro o e-mail. Nenhuma resposta. Nenhuma vaga. Nada. Solto um suspiro de frustração. — E você, Nancy... — Dona Flor pergunta, olhando para mim. — Já está trabalhando? Balanço a cabeça, desanimada. — Ainda não. Está difícil. Aqui perto quase não tem casais com crianças pequenas. Ela faz um som pensativo com a boca. — Eu imaginei… — Diz. — Mas olha, eu fiquei sabendo de uma coisa. Levanto os olhos imediatamente. — Que coisa? — Não é no centro da cidade... — Ela continua. — É mais afastado. Bem afastado, na verdade. Meu coração acelera um pouco. — Onde? — Numa mansão. De um casal bilionário... uma menina nasceu e precisa de cuidados Minha mãe para o que está fazendo e olha para ela. — Mansão? — Pergunta. — Isso. — Dona Flor assente. — Paga muito bem. Bem mesmo, coisa que não se paga por aqui. Mas provavelmente é pra morar lá vários dias. Dormir no local. Minha atenção agora é total. — Fazer o quê? — Pergunto. — Cuidar de uma bebê. — Ela faz um gesto suave com as mãos. — Nasceu há pouco tempo. Precisa de cuidados diários... essas coisas. Sabe como é, gente rica é ocupada... viaja demais. Mas não sei o nome da criança ainda. — E como você sabe disso? — A minha mãe pergunta. — Pela governanta da casa. — Dona Flor sorri. — Uma amiga minha. O nome dela é senhora Odete. Meu coração dá um pulo. — Eles estão procurando alguém que saiba cuidar de bebê. — Ela continua. — Alguém de confiança. E como é longe, a babá ficaria lá. Com quarto preparado e tudo... Odete que está responsável pela contratação. Olho para minha mãe. Ela parece surpresa, mas interessada. — Você acha que… — Começo. — Eu acho que você devia tentar. — A minha mãe diz, antes mesmo de eu terminar. — Mas, eu fico preocupada com isso... morar lá? Isso é um ponto novo. Mas se paga tão bem, vale a pena saber mais. — Como eu falo com essa senhora Odete? — Pergunto, sentindo uma animação que não sentia há semanas. Dona Flor sorri mais ainda. — Eu posso passar o contato. Ou falar com ela antes, se você quiser. Assinto, sentindo algo novo se formar no peito. Esperança. Nesse momento, a porta se abre novamente. — Oi, família! — Geyse anuncia, entrando animada. — Estou morrendo de fome! — Banho primeiro!!! — A minha mãe diz automaticamente. Geyse revira os olhos e ri, indo em direção ao banheiro. E eu fico aqui, sentada, pensando nisso tudo que eu ouvi. Essa pode ser a chance de eu ter um bom emprego. {Deixe o livro na sua biblioteca do app que eu volto em breve. RECADINHO: Eu uso o trema (Ä) para evitar a censura de certas palavras. Apenas por isso.} Me siga aqui no app e no insta @aut.gsilva
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