Capítulo 5

1060 Palavras
Beatriz passou o resto da manhã sentada na cama, encarando o caderno aberto. As palavras de Gabriel ainda brilhavam em sua mente: “Eu vou esperar você amanhã. — Gabriel.” Ela passou a mão pelo cabelo, nervosa e intrigada. Aquilo não podia ser coincidência. Ela tinha visto o rosto dele, conversado, sentido a água da fonte — e agora ele deixava mensagens para ela em um universo que não era o seu. — Eu preciso entender — murmurou para si mesma. No momento seguinte, uma determinação inesperada se apoderou dela. Não podia mais apenas esperar. Precisava agir. Precisava descobrir se o que estava acontecendo era realmente real. Quando a noite caiu, Beatriz preparou-se com cuidado. Evitou pensar no cansaço do dia ou nos estudos. Cada pensamento estava concentrado no mesmo objetivo: voltar à praça, encontrar Gabriel, e finalmente descobrir se ele existia de verdade — ou se tudo não passava de uma ilusão de sua mente. Deitou-se na cama, respirou fundo, fechou os olhos… e deixou o sono tomar conta. O mundo voltou a se formar ao seu redor com a mesma precisão assustadora. Primeiro, a sensação de ser puxada, depois o ar fresco e a leve brisa da noite. O som da água começou a enchê-la de expectativa. E então ela abriu os olhos. A praça estava ali. Exatamente como na noite anterior. A fonte caía com o som ritmado e constante, os postes de luz iluminavam o espaço com um brilho dourado, e algumas pessoas passavam, indiferentes a tudo. — Estou aqui — murmurou Beatriz para si mesma, sentindo o coração disparar. Ela olhou em volta e avistou Gabriel, sentado no banco de sempre, violão encostado ao lado, olhos fixos na água da fonte. Parecia que nada havia mudado desde a última vez. — Gabriel! — chamou ela, com voz trêmula. Ele levantou a cabeça lentamente, o olhar fixo nela. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele, e naquele instante, Beatriz soube que ele a reconheceu imediatamente. — Você voltou — disse ele calmamente, levantando-se. — Eu… sim — respondeu ela, aproximando-se. — Eu precisava ver se… se era real. Gabriel deu um passo mais perto. O ar entre eles parecia carregado de eletricidade. — Eu sabia que você voltaria — disse ele. — Mas não pensei que seria tão rápido. Beatriz sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Sabe de mim? — perguntou, a voz quase um sussurro. — Sei o suficiente para esperar você. — Ele tocou o violão suavemente, uma nota única, prolongada, que fez o coração dela acelerar. — E agora você está aqui. — Gabriel… eu preciso te contar algo — disse Beatriz, engolindo em seco. — Quando estive aqui da primeira vez… eu tive… uma visão. Uma memória. Você correndo, um carro vindo… e então você… morria. Gabriel parou de tocar e a encarou com atenção. Seus olhos, profundos e misteriosos, revelavam compreensão e uma estranha melancolia. — Eu… morri? — perguntou ele baixinho. — Eu não sei — respondeu ela. — Mas parecia real demais. E agora… eu não consigo deixar de pensar que pode ser algum tipo de aviso. Gabriel respirou fundo. — Então você também sente isso. Essa estranha sensação de que nossos mundos estão… conectados. — Conectados… — Beatriz repetiu, olhando para a água da fonte, refletindo as estrelas acima. — Talvez seja mais do que isso. Talvez cada vez que eu durma, eu volte para cá. Para você. Mas não posso ter certeza do que isso significa. Gabriel olhou para ela, sério. — Então precisamos descobrir juntos. Beatriz engoliu em seco. As palavras dele tinham um peso que não podia ignorar. Sentiu que estava dando um passo importante, que aquele momento podia mudar tudo. — E se houver um risco? — perguntou ela, baixando os olhos. — Se algo r**m acontecer? Ele estendeu a mão. — Então enfrentamos juntos. Ela hesitou, mas tomou a mão dele. O contato foi elétrico, como se cada célula de seu corpo reconhecesse aquela conexão inexplicável. — Você sente isso? — perguntou Gabriel. — Sim — respondeu Beatriz. — Como se… algo nos prendesse. — Talvez seja — disse ele, com um leve sorriso. — Talvez nossas almas estejam ligadas entre universos. O coração dela acelerou. A ideia parecia impossível, mas tudo o que ela havia experimentado até agora apontava para a mesma conclusão: havia algo maior acontecendo, algo que desafiava a lógica, o tempo e o espaço. Eles se sentaram à beira da fonte. Gabriel pegou o violão e começou a tocar uma melodia lenta, quase triste, enquanto Beatriz observava cada movimento dele. Ela não sabia se aquilo era real ou apenas mais uma experiência de outro universo, mas não importava. Cada nota parecia trazer respostas silenciosas, lembranças que não eram dela, mas que ela reconhecia como próprias. — Eu preciso te perguntar algo — disse ela, ainda tentando organizar os pensamentos. — O quê? — Você lembra… de alguém que você nunca conheceu, mas sente como se já tivesse conhecido? Gabriel sorriu tristemente. — Sim. Ontem. Quando você apareceu na praça. Eu senti que já sabia quem você era. O ar entre eles ficou pesado, carregado de algo que Beatriz não conseguia nomear. Uma mistura de fascínio e medo. O violão silenciou, e o mundo pareceu segurar a respiração. — Então — disse Gabriel finalmente — não é só imaginação. Algo nos liga. E se não for apenas coincidência… talvez devêssemos tentar entender por quê. Beatriz assentiu. — Mas e se for perigoso? — perguntou, olhando em volta. — E se algo r**m acontecer toda vez que estivermos juntos? Gabriel segurou a mão dela com firmeza. — Então enfrentaremos. Sempre. E naquele instante, Beatriz soube que o encontro consciente com Gabriel não era apenas um acidente. Algo maior estava começando a se desenrolar. Algo que iria testar não apenas os limites de sua coragem, mas também o próprio tecido da realidade. Enquanto a noite se aprofundava e a luz da lua iluminava a praça, Beatriz sentiu que aquela conexão era mais do que destino. Era inevitável. E, sem perceber, uma nova certeza se formava dentro dela: em algum universo, Gabriel sempre a esperaria — e em algum universo, ela sempre o encontraria. Mas, ao mesmo tempo, uma sombra silenciosa pairava sobre essa promessa: em algum outro universo, o destino tinha planos diferentes… e nem todos sairiam vivos dessa história.
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