Depois de muita conversa e lágrimas, decidimos levar Lukela para casa. O carro estava confortável — não o tipo dos bancos serem confortáveis, na verdade, era uma total bagunça. Relembramos as nossas músicas favoritas, petiscos no carro. Era uma total confusão. Na realidade, aquela foi a despedida da Lukela, ela estudaria um tempo em um internato.
De volta à nossa casa, Shelma, Natália e eu nos sentamos na sala, como tantas outras vezes. Fizemos um chá, e por um instante, parecia que o tempo havia recuado para antes de tudo aquilo acontecer.
— Preciso contar uma coisa — disse Natália, rindo com aquele jeito dela de quem sempre guarda uma pequena aventura.
Ela começou a relatar a corrida da manhã, o trajeto, a maneira como o Zen havia surgido do nada, aparecendo com uma garrafa de água. Falava com os olhos acesos, como quem se lembrava de detalhes que nem precisava contar para que fossem sentidos.
— Pior ainda! Ele é o nosso vizinho — disse ela colocando a mão a boca.
Isso me pegou desprevenida
— O vizinho?! O nome dele é Zen? — perguntei sem pensar, com o coração acelerando levemente.
Ela franziu o cenho.
—Sim. Descobri hoje mesmo durante a nossa corrida.
Natália falou de um jeito alegre, foi a primeira vez que ela falava de forma alegre de um homem, após o seu marido ter morrido. Teve um pequeno silêncio. O silêncio durou poucos segundos, mas foi o suficiente para eu e a Shelma nos entreolhar surpresas. Shelma arregalou os olhos. Natália ficou tímida e com vergonha. Percebemos que talvez estava crescendo algo aí no seu coração.
—Até que eu gostei dele —disse a Natália sorrindo meio curiosa — E o que você acha disso, Kat? — perguntou.
Respirei fundo antes de responder.
— Acho que quando uma situação insiste duas vezes na mesma pessoa, talvez seja hora de parar e pensar com mais atenção. Talvez seja o momento de descontraíres um pouco, e não pensar que todo homem vai te magoar. Então se queres mesmo a minha opinião…vá em frente.
— Siga o teu coração — acrescentou a Shelma.
Ela ficou pensativa, olhando para a xícara em suas mãos. E naquele instante, tive certeza de que algo novo estava por começar— não apenas entre ela e o Zen, mas entre todas nós, mas porque, mesmo depois de tudo, ali estávamos: três mulheres, três histórias, ainda entrelaçadas — não mais por passado ou feridas, mas por escolhas que o tempo diria se foram certas ou erradas.
E essa escolha, era o verdadeiro recomeço de algo r**m.
Conversamos tanto que nem percebemos quando o sono nos venceu. As três, esparramadas pela sala como adolescentes depois de uma festa, adormecemos ali mesmo — cada uma numa posição esquisita, cercadas por xícaras vazias, e travesseiros m*l colocados. Parecíamos loucas… ou apenas livres por uma noite.
Quando a luz da manhã começou a invadir a casa, foi a Shelma quem despertou primeiro. Meio sonâmbula, pegou suas coisas e seguiu em silêncio para sua casa, ainda tropeçando nos próprios passos. Tinha um dia cheio de trabalho pela frente — era assim com ela: mesmo depois de noites m*l dormidas, o compromisso sempre vinha em primeiro lugar.
Eu também me levantei pouco depois, arrumei o essencial e saí para o trabalho. A rotina chamava, como sempre, impiedosa. Natália, por sua vez, resolveu descansar mais um pouco.
Natália havia decidido ficar em casa durante a manhã, gravando mais um dos seus vídeos de exercícios físicos. O cenário já era habitual: roupas esportivas, um tripé improvisado, celular em gravação, e ela movendo-se com precisão e carisma para a sua audiência fiel.
Em determinado momento,Natália pausou o vídeo. Precisava de água. Foi até a cozinha, apanhou uma garrafa na geladeira, e no caminho de volta — com a respiração ainda acelerada — passou pela janela da sala. Foi aí que o viu.
Zen.
Do lado de fora. Parado. Olhando.
O susto foi quase cinematográfico: a garrafa escorregou-lhe das mãos e caiu no chão, espalhando a água como se fosse parte do susto. Ela arregalou os olhos, ainda tentando entender se era real ou apenas fruto do esforço físico misturado ao sono m*l dormido.
Do lado de fora, ele fez uma expressão de preocupação — ou fingiu fazer — e caminhou até a porta, tocando a campainha com um ar de quem quer ajudar… ou de quem viu mais do que deveria.
Shelma ficou parada por um segundo, entre o impulso de abrir a porta ou deixá-lo aí fora. A campainha tocou de novo, e antes que ela pudesse refletir por completo, seus pés já se moviam em direção à porta. Era como se seu corpo agisse antes da sua mente, mas ela sabia quem estava ali do outro lado. Abriu sem pensar muito, e m*l a porta se entreabriu, foi surpreendida por um abraço — quente, firme, inesperado.
Zen.
Por um instante, ela ficou imóvel, sem saber como reagir. O gesto, embora suave, trazia um traço de urgência. Era como se ele estivesse aflito por algo que só ele compreendia.
— Espera… — murmurou ela, soltando-se levemente. — O que foi isso?
Ele recuou, com um ar meio sem graça, meio brincalhão, como quem se deu conta do impulso só depois de tê-lo cometido.
— Desculpa. É que… eu ouvi um barulho vindo daqui e… sei lá, fiquei preocupado.
— O que fazias parado ao lado da janela? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha, ainda processando a cena toda.
Zen coçou a nuca, hesitou um segundo e respondeu com um meio sorriso:
— Estava correndo, como sempre faço. E aí… vi um coelhinho atravessando a rua. Um dos meus animais favoritos, acredita? Então fui atrás. Mas, quando olhei, vi você… fazendo exercícios. E pronto. Me perdi no pensamento.
Natália ficou sem saber se ria ou se achava aquilo estranho. Um coelho! Essa foi a pior desculpa que ele poderia ter dado.
— Te perdeste… na imaginação? —perguntou a Natália.
— Sim — disse, rindo, como se a resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Você parecia… tão concentrada. Foi meio hipnótico.
Ela baixou o olhar, sentindo um calor subir pelo rosto. Estava claramente desconcertada, e ele parecia saber disso.
— Estás bem? — perguntou, voltando ao tom preocupado.
Natália assentiu rapidamente.
— Sim, está tudo bem. E não precisavas te preocupar assim. Foi só uma garrafa que caiu.
— Certo. Prometo que não volto a assustar você desse jeito.
— Tudo bem — respondeu ela, mais calma agora.
Ficaram em silêncio por alguns segundos. Um daqueles silêncios que não sabem se querem acabar ou se devem permanecer.
— Bem… eu vou tomar um banho e me trocar — avisou ela, recuando um pouco, já indicando que a conversa havia terminado.
Mas Zen continuou parado, como se algo o prendesse ali. Observava com um olhar fixo demais para aquele momento casual.
— Zen… me ouves? — chamou a Natália, cruzando os braços. — Eu preciso mesmo me arrumar.
Ele piscou como quem desperta de um transe, riu baixinho e finalmente se virou.
— Claro. Vai lá. A gente se vê.
E saiu, deixando para trás não só o rastro do perfume amadeirado misturado ao suor da corrida, mas também a estranha sensação de que aquele homem era uma interrogação que ninguém ainda ia querer decifrar.
Natália ficou ali, parada na porta entreaberta, por alguns segundos a mais.Os olhos perdidos, o corpo levemente inclinado, se desconectou do presente porque a mente se atrasou, presa em alguma sensação nova.
Ela ficou assim por um momento, até piscar, respirar fundo… e lembrar que ainda precisava tomar banho.
“Conto tudo isso em detalhes, porque sempre que estivéssemos juntas, a Natália não falhava em contar o que acontecia no seu dia.”
Ela contava tudo. E quando digo tudo, é tudo mesmo. Do sabor do café até o modo como alguém a olhou no caminho.