Capítulo 28- “ Preciso decidir”

1284 Palavras
A noite toda foi estranha, sem sono, ansiedade atrás de ansiedade. “O que será que vai acontecer durante o dia, o que farei?”. Foram esses os meus pensamentos. O dia amanheceu sem brilho, como se até o sol estivesse confuso — ou talvez fosse só eu mesma. No trabalho, meus movimentos eram automáticos, cumprindo as tarefas sem de fato estar presente. Meu corpo ali, mas minha mente… em outro lugar completamente diferente. Anderson. O beijo. As palavras. O ultimato. A recepção estava mais tranquila que o normal, e talvez por isso meus pensamentos se alongaram, mergulhados demais nesse turbilhão. Só voltei ao mundo real quando uma voz se repetiu pela segunda vez bem à minha frente. — Dona Kataleya...? Pisquei, voltei, pedi desculpas, e segui com o atendimento como se tudo estivesse bem, mas por dentro, nada estava. Meu turno terminou mais cedo naquele dia. Agradeci internamente. Precisava de silêncio, de espaço, de ar. Fui direto pra casa. Ao entrar, encontrei Natália jogada no sofá, com um pacote de batatas fritas nas mãos. Assim que me viu, largou o pacote e veio ao meu encontro. — Então? Vai continuar muda? Não hesitei mais. Sentei com ela no sofá e contei tudo — detalhe por detalhe. O beijo, as palavras do Anderson, a confusão dentro de mim. Quando terminei, olhei pra ela com um nó na garganta. — E agora, Naty? O que eu faço? Ela me olhou com ternura, mas com firmeza nos olhos: — Isso não sou eu que posso te dizer, Kataleya. A decisão final é só tua. Só tu sabes o que sentes, o que queres, e o que estás disposta a viver. Pensa com calma. E decide com o coração, mas também com a razão. Fiquei em silêncio, absorvendo. Era isso. Estava tudo em minhas mãos. Subi pro quarto com o coração ainda apertado pelas palavras da Natália. Joguei-me na cama, encarei o teto e suspirei. Pensar com o coração… e com a razão. Difícil quando um não sabe o que realmente quer!. O celular vibrou ao meu lado. Peguei, sem muita expectativa…mas era ele. Anderson: “Hoje, às 19h. Sala de cinema. Ingresso pago. Só falta você.” Fiquei ali parada, lendo e relendo a mensagem como se fosse um código a ser decifrado. Meu coração acelerou. Minha mente baralhou. — Deus me ajude! - falei, passado as mãos pelo cabelo. Fechei os olhos e respirei fundo. Talvez fosse o momento de deixar me levar. Me preparei e fui decidida. Fui. Dei um abraço na Natália , sem pensar demais. Apenas fui. Cheguei no cinema alguns minutos antes. Entreguei meu bilhete dado pelo segurança, e segui até a sala indicada. Quando abri a porta, levei um susto — a sala estava completamente vazia. Nenhum som, nenhum movimento. Apenas eu. Hesitei por um segundo, mas entrei. Sentei na cadeira do meio, olhando em volta, tentando entender. As luzes se apagaram suavemente, e a tela ganhou vida. Começaram a passar imagens… minhas imagens. De mim criança, com as trancinhas bagunçadas, o sorriso tímido. Depois, fotos ao lado do Anderson… de momentos que eu nem lembrava mais. E então, frases. Simples, mas com um peso doce. Foi realmente emocionante. Meus olhos se encheram d’água. Mas antes que pudesse absorver tudo, um estalo forte, um clarão na tela e uma faísca. O barulho ensurdecedor de um curto-circuito me tirou o ar. As lágrimas nem tiveram tempo de cair e levantei instintivamente. Tudo ficou escuro. Só tive uma reação… correr. E na escuridão… esbarrei com força em alguém. Quase gritei, mas antes disso, ele segurou os meus braços e chegou perto do meu ouvido, dizendo com uma voz baixa, firme e quase serena: — “t**a os ouvidos… e o medo acaba”. Fiquei paralisada. Era ele. Era o Anderson. Meu coração parou por um segundo. O corpo, antes tenso, cedeu no instante em que reconheci sua voz, seu cheiro, seu toque. Me atirei nos braços dele, sem pensar, sem hesitar. O abracei com muita força, como se aquele gesto pudesse deter o mundo por um instante. E então… chorei. Não de medo, mas de alívio, de emoção, de tudo o que estava preso dentro de mim. Ele não disse muito. Só me envolveu com os braços e acariciou meus cabelos com calma, murmurando: — Shhh… já passou, está tudo bem agora… eu tô aqui. Era tudo o que eu precisava ouvir. Às vezes, a presença de alguém diz mais do que qualquer declaração. As luzes se acenderam lentamente, revelando a sala agora tranquila, como se nada tivesse acontecido. Ainda envolvida naquele abraço, sentia meu peito aos poucos desinchar. A tensão foi cedendo espaço a um silêncio bom. Um silêncio que acalma. Anderson me guiou com gentileza até uma das poltronas da sala. Sentei-me com cuidado, ele tratou-me com muita delicadeza. Seus olhos me analisavam com atenção, mas sem pressa.Eu olhei pra esse gesto, e com certeza…estava gostando…e muito. Ele tentou me acalmar outra vez. — Agora tá tudo bem — ele disse com a voz baixa, mas firme. Assenti com a cabeça, enxugando discretamente as lágrimas que ainda me escorriam. Depois de ficar tranquila. Anderson olhou direitamente nos meus olhos. Sem dizer nada, colocou a mão no bolso do casaco e tirou uma pequena caixinha preta. Meu coração disparou de novo, mas dessa vez por outro motivo. Ele abriu com calma — dentro, um anel simples e bonito, exatamente como eu imaginaria vindo dele. — Eu disse que te daria um dia pra pensar… mas também preparei esse momento caso tua resposta fosse "sim". — Ele segurou minha mão com delicadeza. — Kataleya, eu quero estar muito contigo. Não prometo perfeição, mas prometo chegar perto. Talvez não seja fácil, mas tentei não tornar nada difícil no nosso relacionamento. Kataleya, queres namorar comigo? Olhei pra ele por um instante, sentindo cada pedacinho da minha resistência desaparecendo. As dúvidas ainda existiam, mas o sentimento falava mais alto. Respirei fundo e, com um sorriso tímido, assenti. — Sim, Anderson… eu quero. Ele colocou o anel no meu dedo, depois me puxou pra um abraço forte. E ali, no meio daquela sala de cinema vazia, com a tela ainda escura, o nosso mundo parecia finalmente estar se encaixando. E… desta vez… fui eu que o beijei. Naquela noite, quando saímos da sala de cinema, as coisas pareciam mais leves… ou talvez fosse só eu. Havia uma calma estranha dentro de mim, como se eu tivesse parado de lutar contra os meus sentimentos. O “sim” saiu da minha boca com naturalidade, o que ainda parecia estranho pra mim. No carro, a gente sorria muito, como se nossos lábios estivessem a ser puxados pra cima, era incontrolável. Anderson segurava a minha mão enquanto dirigia, e eu não pensava em largar de jeito nenhum. Mas… Os nossos sorrisos mudaram assim que chegamos à porta da casa do Anderson. Lá estava ele — o pai do Anderson — parado, com as mãos cruzadas nas costas, como se estivesse à nossa espera. O olhar dele era firme, pesado… e por um instante, me senti de novo uma intrusa. Meu coração palpitou. Não de medo, mas de pressentimento. Anderson apertou levemente a minha mão, como se dissesse “calma, eu estou aqui”. E eu respirei fundo. A felicidade da noite anterior parecia querer escorregar por entre os dedos, mas eu não podia permitir. Não agora. O pai dele não disse uma palavra. Apenas olhou pra nós. E naquele silêncio incômodo, havia tanta coisa não dita… … "Às vezes, tudo o que o coração precisa é de uma chance. Quando deixamos o medo de lado e damos espaço aos sentimentos, podemos descobrir algo bonito e verdadeiro."
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