Capítulo 30- Partidas sem despedidas

1381 Palavras
“Por mais mágoa que alguém nos tenha deixado, por mais feridas que ainda não tenham sarado… a verdade é que ninguém está realmente preparado para a perda. A ausência definitiva de alguém, silencia até os ressentimentos mais profundos. No fim, ninguém merece um final trágico”. A vida prega-nos partidas sem avisar.. o tempo e o imprevisto sobrevém-nos a todos… Estava cansada, era o fim do meu turno. No mesmo instante peguei minha bolsa e saí do hotel. Não queria encontrar ninguém, só precisava respirar. Chamei um táxi e pedi que me levasse direto pra casa. O rádio do carro tocava baixo, e eu observava a estrada pela janela. Foi então que, alguns minutos depois, o trânsito começou a parar bruscamente. — O que aconteceu? — perguntei ao motorista. — Parece que teve um acidente grave mais à frente. Estão a interditar parte da estrada. Fiquei ali sentada, esperando como todos. Mas o tempo passava e nada se resolvia. Minutos se arrastaram, até que minha inquietação falou mais alto. — Eu vou caminhar um pouco. Só quero ver o que está a acontecer — avisei, abrindo a porta do carro. Caminhei devagar pela lateral da estrada, passando por outros carros parados, até que vi um aglomerado de gente e luzes piscando. Quando cheguei perto, meu coração disparou. Um carro estava virado de cabeça pra baixo, destruído. Fiquei imóvel. Algo naquele carro me era familiar. Dei mais alguns passos, com o coração batendo cada vez mais forte… Foi quando vi a placa. Senti um arrepio subir pelo meu corpo inteiro. A respiração travou. E, por um momento, o mundo pareceu parar. Era… O carro do pai do Anderson. As pernas fraquejaram. Por instinto levei a mão à boca, como se isso pudesse conter o grito preso na garganta. O peito começou a subir e descer num ritmo descompassado, e uma sensação de náusea tomou conta de mim. Senti o coração bater tão forte que quase o ouvia nos meus ouvidos. O cheiro de metal queimado me fez engolir em seco. O barulho das sirenes... — Não… — murmurei, num fio de voz que m*l consegui ouvir. Me aproximei mais, mesmo sem querer, mesmo com o corpo a dizer “não”. Cada passo parecia pesar toneladas. Minhas mãos tremiam, o suor frio escorria pelas costas, e meus olhos ardiam, mas eu nem piscava. Vi os bombeiros, vi uma maca sendo preparada… e mesmo sem ver o rosto, eu sabia. Sabia que era ele. Aquele carro, aquela placa, aquela energia pesada ao redor... era o pai do Anderson. Senti um nó na garganta. Não era dor pelo que ele foi comigo. Era dor pelo que aquilo significava. A queda. O fim. A possibilidade real da morte. E, mais do que isso, o que isso causaria ao Anderson e a Lukela. Fechei os olhos com força, respirei fundo tentando recuperar o controle, mas era impossível. O corpo inteiro estava em choque. As mãos tremiam, os joelhos fraquejavam e tudo o que consegui pensar foi que “Por mais mágoa que alguém tenha deixado, ninguém merece um fim assim.” Tirei o celular do bolso com as mãos ainda trêmulas e disquei o número do Anderson. Uma, duas, três vezes... e nada. Sem resposta. Foi então que me lembrei — ele tinha mencionado uma operação importante hoje, algo que exigiria concentração total e sem acesso ao telefone. Guardei o celular e respirei fundo, tentando manter a calma. Me aproximei da ambulância, mas fui imediatamente barrada por um dos socorristas. — Por favor, eu preciso ver — insisti, mas ele apenas balançou a cabeça. — Senhora, não pode passar. A dor na garganta virou desespero. As palavras escaparam sem que eu pudesse controlar: — É o meu pai! — gritei, já com a voz embargada. — É o meu pai... por favor. Houve um silêncio. Me olharam com espanto e compaixão ao mesmo tempo, talvez duvidando da relação, talvez apenas tentando entender minha dor. Um dos socorristas se aproximou e, com um olhar sério, disse com delicadeza: — Ele está vivo, estamos estabilizando. Mas a senhora que estava com ele… — fez uma pausa breve. — Infelizmente não resistiu. Foi como se o chão tivesse sumido. Dei dois passos para trás, e minhas pernas não aguentaram. Me agachei no meio da estrada, as lágrimas caindo descontroladas. Meus lábios tremiam e minha visão ficou turva. Eu não conhecia bem aquela mulher, mas saber que uma vida se perdeu ali, ao lado do pai do Anderson, era sufocante. A morte tinha passado por nós. E agora… tudo mudaria. Subi na maca ainda em estado de choque, o corpo tremia e os olhos ardiam de tanto chorar. O barulho da sirene cortava o silêncio que fazia dentro de mim. Enquanto a ambulância se preparava pra partir, olhei de relance pela pequena a******a da porta traseira. Foi então que vi — de longe — Shelma e Shelby correndo em minha direção, o rosto deles carregando pânico e confusão. Mas antes que se aproximassem, foram barrados pelos paramédicos. Um deles ergueu a mão, impedindo a passagem, e o outro apenas disse algo rápido que não consegui ouvir. A porta da ambulância se fechou, abafando tudo. E então, partimos em direção ao hospital. Me recostei na maca, tentando acalmar a respiração. Ainda não entendia tudo o que havia acontecido, só sabia que aquela cena ficaria marcada em mim. Para sempre. Chegamos ao hospital com pressa, as luzes fortes da entrada de urgência me cegaram por um segundo. Assim que a ambulância parou, os enfermeiros o levaram rapidamente para dentro, e eu desci ainda atordoada, com as mãos cobertas de sangue e o vestido manchado. Fiquei girando de um lado pro outro no corredor, sem saber pra onde ir, sem saber o que fazer. A cabeça rodava, o coração batia descompassado. Foi quando, no meio da confusão de médicos, enfermeiros e pacientes entrando e saindo, eu vi ele — Anderson. Ele estava ali, vindo na minha direção, vestindo o jaleco, os olhos arregalados, como se já soubesse que algo terrível tinha acontecido. Quando nossos olhos se encontraram, meu corpo paralisou. Ele veio depressa até mim, segurou meus ombros com firmeza e perguntou: — Kataleya, o que aconteceu? Mas eu... eu simplesmente congelei. A boca não conseguia formar palavras. Só conseguia olhar pra ele, tentando encontrar algum lugar seguro naquela tempestade. Foi então que, com a voz embargada e trêmula, consegui finalmente falar: — É o teu pai, Anderson... foi um acidente. Ele arregalou os olhos, me soltou imediatamente e, sem perder tempo, virou-se e correu até a recepção. A preocupação tomou conta do seu rosto, a respiração acelerada, o passo firme e apressado. — Em que sala está o meu pai? — perguntou, já impaciente, com o crachá de médico pendurado no peito. A recepcionista olhou rápido no sistema, digitou algumas coisas e respondeu: — Sala 3, ala de cirurgia de emergência. Anderson não esperou mais nenhuma palavra. Saiu quase correndo pelos corredores. Fiquei parada, observando ele desaparecer entre portas e paredes brancas. O coração apertava. Mesmo sem conseguir esquecer tudo o que aquele homem nos fez, ninguém merece um fim trágico. Ninguém. Anderson insistia em tentar entrar, mas alguns enfermeiros tentavam contê-lo. — Eu sou o filho dele! — gritou, com os olhos arregalados e a voz embargada. — É o meu pai! Um dos médicos saiu e, ao vê-lo, apenas balançou a cabeça negativamente. — Sinto muito. Perdemos ele. Não foi a tempo. Aquelas palavras não ecoaram de imediato. Anderson ficou parado, imóvel, como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos pés. — Como assim? Ele estava… ele estava bem hoje de manhã… — murmurava, confuso. . Me aproximei e vi tudo à distância, ainda com o sangue seco na minha roupa, as mãos trêmulas. O corpo dele já havia sido coberto com um lençol branco. A imagem me gelou por dentro. Anderson caminhou lentamente até a maca. Parou diante do corpo. Olhou. As lágrimas caíram, silenciosas. Não gritou. Não desabou. Apenas ficou ali, em pé, com o rosto vazio. Eu me aproximei devagar, sem saber o que dizer. Toquei no seu ombro, ele virou-se devagar e me abraçou. Forte. Naquele momento, eu entendi: “ninguém está preparado para perder, nem mesmo quem sempre o feriu”.
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