Tomamos algumas cervejas e falamos sobre nossas vidas no Brasil, sobre planos pro futuro, sobre política, religião, esportes, animais, enfim, quase tudo.
Obviamente, nem toquei no assunto Heloisa. Ela era uma ferida aberta que eu queria evitar.
Me sinto à vontade com ele. Me divirto.
Como morava à algumas quadras, ele me acompanha pelas ruas geladas até meu apartamento.
- Obrigado por me proporcionar uma noite incrível! - ele diz sorrindo - Espanhóis são legais, mas nada supera encontrar alguém que veio do mesmo lugar que a gente!
- Obrigada pela noite, eu gostei bastante - digo um pouco tímida.
Ele beija o meu rosto e se vai.
Entro e vou pro meu quarto. Me deito na cama e observo a foto sobre a mesinha.
- Um dia eu vou te tirar dai! - digo olhando o sorriso dela - Não só daí, mas daqui também! - aponto pro meu peito.
Abraço a travesseiro e durmo.
No dia seguinte, vou pra aula. O Miguel se senta do meu lado. Rimos e trocamos algumas frases durante a aula.
No intervalo, comemos juntos conversando sobre assuntos variados.
À noite, nos encontramos no bar novamente.
- Boa noite, Cinderela sem sapatinho de cristal! - ele diz olhando pra minha sapatilha e rindo.
- Vou encarar como um elogio, levando em conta que eu nunca quis ser uma princesa! - respondo rindo e me sentando.
- Sabe que eu adoro o fato de você não ser aquelas meninas frescas, que usam montes de maquiagem e dão a impressão que estão sempre querendo impressionar!
- Vou te contar um segredo: eu não quero te impressionar! - sussurro.
- É justamente por isso que você me impressionou! - ele diz me deixando sem graça.
Pedimos cervejas e passamos mais algumas horas rindo e conversando. Os assuntos se tornaram mais profundos, mas ainda não me sinto à vontade pra falar sobre ela.
Ele me acompanha até a minha casa novamente.
- Você poderia me convidar pra conhecer seu apartamento qualquer dia desses, né? - ele pergunta rindo assim que paramos de andar.
- Não abusa, eu te conheço só tem dois dias e já saímos duas vezes!
- Os números me são favoráveis! - ele exclama rindo.
- Bobo! - rio também.
- Seu sorriso é lindo! - ele diz com uma cara abestalhada.
- Nem vem de história! Não vou te convidar pra conhecer minha casa! - digo rindo.
Ele ri também.
Isso se repetiu a semana toda. No sábado, fomos pra balada.
Preciso confessar que me sentia bem com ele. Ele me fazia rir e esquecer os problemas e aflições.
Os dias foram passando, e com eles as semanas e os meses.
Com quatro meses ali, o Miguel já era meu melhor amigo, só não superava o Matheus, que era quase meu irmão.
Todas as noites, antes de dormir, repetia pra foto da Heloisa que um dia ela sairia da minha mesinha de cabeceira, assim como sairia do meu coração.
Um dia estávamos na sala da minha casa fazendo um trabalho da faculdade a Mel, o Miguel e eu.
- A gente precisa usar o texto que o professor passou como base! - exclama o Miguel.
- Isso limita a minha liberdade criativa! - digo.
- Se não usarmos o texto, teremos a nossa nota limitada! - Miguel ri - Você decide o que vai querer limitar!
- Eu nem sei onde enfiei aquele texto! - digo - Me ajuda a procurar? - pergunto à ele.
- Com todo o prazer!
Nos levantamos e vamos pro meu quarto. Reviro minha mesa de estudo, meus livros e as pastas que guardo os textos, mas não consigo achar.
- Guardei o texto em um buraco n***o! - digo me virando pra ele.
Ele está parado do lado da minha cama com a foto da Heloisa nas mãos.
Vou até ele e puxo a foto. Coloco ela virada pra baixo na mesinha.
- Não toque nessa foto nunca mais na sua vida! - digo séria.
- Ok! - ele diz levantando as mãos - Eu não sabia que era tão importante pra você!
- Mas é! - exclamo sem desfazer a cara amarrada.
- Achei o texto! - Mel exclama na porta do quarto.
Saímos do quarto e voltamos pra sala pra fazer o trabalho.
Algumas horas depois, o namorado da Mel chega e a leva pra jantar fora. Eu e o Miguel permanecemos no apartamento terminando o trabalho.
- Desculpa pela foto - ele diz me encarando - Você ficou tão séria depois daquilo.
- Não tem que se desculpar por nada. Você não tinha como saber! - digo dando um sorriso amarelo.
- Quem é ela?
- Não quero falar sobre isso! - digo desviando o rosto.
- Tudo bem! - ele diz - Não vamos falar!
- A quanto tempo a gente se conhece? - pergunto rindo sem olhar pra ele.
- Três ou quatro meses! - ele diz - Mas parece que faz uma vida!
- Eu te encho tanto a paciência que não é possível que seja tão pouco tempo? - pergunto, agora olhando pra ele.
- Você é a minha chata favorita! - ele exclama me puxando e me fazendo cócegas.
Me debato no sofá, começo a cair e ele tenta me segurar. Acabamos caindo os dois no tapete da sala.
Permanecemos deitados, rindo, um ao lado do outro.
Aos poucos o riso passa, mas permanecemos assim, olhando pro teto, de barriga pra cima.
- Ela é minha ex - digo depois de muito tempo.
Ele se vira pra mim e fica me olhando.
- Não vai me dizer nada? - pergunto virando a cabeça pra olhar pra ele.
- Estou esperando você me contar o porque a foto é tão importante! - ele diz sem desviar os olhos dos meus.
Assim, deitados no chão, conto pra ele toda a minha história com a Heloisa. Ele ouve em silêncio.
Quando termino, ele toca meu rosto e limpa algumas lágrimas teimosas.
- Obrigado por confiar em mim! - ele me diz.
- Obrigada por ser alguém confiável.
A Mel chega e nos vê no chão.
- O que aconteceu com vocês? - ela pergunta rindo enquanto nos levantamos.
- É uma longa história! - Miguel exclama me puxando do chão.
Ela balança a cabeça e vai pro quarto dela.
- Tá um pouco tarde! - ele diz olhando o relógio - Vou indo nessa.
Ele começa a juntar as coisas da mesa. Seguro sua mão.
- Dorme aqui? - peço ainda segurando sua mão sobre a mesa.
- Posso? - ele abre um sorrisão.
- Claro que pode! Vai dormir no sofá!
Preparamos um café e sentamos na sacada.
- Eu também tenho uma história triste - ele diz olhando pra fora.
- Quer me contar? - pergunto pegando a mão dele.
- É a primeira vez que vou dizer que quero com sinceridade - ele me olha e sorri - Eu conheci o amor da minha vida aos seis anos, quando me mudei de cidade. Ela era minha nova vizinha. O nome dela era Vanessa e ela tinha o sorriso mais lindo que eu já vi. Crescemos juntos e, quando dei meu primeiro beijo aos 12 anos, foi com ela. Eu sempre fui um bobo apaixonado por aquela menina. Quando ela fez 15 anos, pedi ela em namoro. Aos 18 noivamos e aos 19 sofremos um terrível acidente de carro. Eu não deveria ter bebido e dirigido. Ela morreu nos meus braços repetindo que a culpa não era minha... depois disso, nunca mais amei outra mulher! - ele me olha com lágrimas descendo pelo rosto.
Levanto e limpo as lágrimas do rosto dele. Ele me abraça e não consigo evitar de chorar também.
- A Vanessa tinha razão, a culpa não foi sua, foi um acidente! - digo sem solta-lo.
- Eu sou tão grato por Deus ter te colocado no meu caminho. Eu me sinto tão aliviado depois de ter te contado isso. - ele diz me apertando no abraço.
- Também me senti melhor depois de te contar! - digo.
- Agora também somos parceiros de bad! - ele ri assim que me solta.
Rio pelo fato de ele transformar tudo num sorriso.
Senta novamente na minha cadeira e termino meu café segurando a mão dele.
Depois arrumo cobertas e travesseiro pra ele e vou pra cama. Durmo aliviada depois de ter desabafado com ele.
Acordo no dia seguinte com ele pulando na minha cama.
- Vai se atrasar! Vamos, Sarah! - ele diz enquanto me balança - Se não levantar agora, vou mexer na sua foto.
- Se tocar nela eu te mato! - digo ainda de olhos fechados.
-Caraca, como eu não havia percebido que ela é a cantora que é sua ex?! Ela é bonita pra caramba!
Abro os olhos e me sento rapidamente na cama. Ele não estava com a foto e ria da minha cara.
- Aprendi a te chantagear! - ele diz gargalhando - Vou sempre dizer que vou pegar a sua foto!
- Nada de chantagens! - digo pegando a foto - Olha bem pra ela porque vai ser a última vez que você vai vê-la!
- Maluca! O que vai fazer?
Abro a gaveta da mesinha de cabeceira e jogo o quadro dentro.
- Eu deveria jogar no lixo, mas tirar do meu campo de visão já é suficiente!
Ele aplaude.
- Parabéns! É um grande passo!
Me levanto e vou pro banheiro, tomo banho e me arrumo pra aula.
Quando chego na cozinha, ela está infestada com um cheiro maravilho e o Miguel está cozinhando.