Aléssio Romano,
Estacionei o carro na garagem da casa, deixando o motor morrer lentamente. A casa de praia estava completamente isolada, longe de qualquer olhar curioso, e a brisa do mar batia suavemente nas árvores ao redor. Bianca e eu não dissemos uma palavra durante todo o caminho. O silêncio entre nós era tão espesso que parecia ocupar o carro inteiro. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas algo tinha mudado naquela noite. E, por mais que eu tentasse ignorar, meus pensamentos não paravam de girar em torno do que aconteceu no clube.
Olhei de relance para Bianca. Ela ainda estava sentada no banco ao lado, de cabeça baixa, como se estivesse imersa nos próprios pensamentos. Sua postura indicava tensão, e suas mãos estavam entrelaçadas no colo, como se segurasse algo invisível com força. Eu não conseguia ler sua expressão, e isso me irritava. Eu precisava entender o que diabos estava acontecendo.
— O que foi aquilo? — perguntei finalmente, quebrando o silêncio que parecia interminável. Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, mas não pude evitar. Eu precisava de respostas.
Ela levantou a cabeça devagar, virando-se para me encarar. Seu olhar era confuso, perdido, como se ela mesma não soubesse o que dizer.
— Eu não sei. — Bianca respondeu, sua voz baixa e hesitante. — Também queria saber.
O tom dela me irritou ainda mais. Eu não esperava que ela soubesse tudo, mas eu precisava de algo, qualquer coisa que explicasse como as coisas tinham saído tanto do controle.
— Você sabe que aquilo não fazia parte do plano. — continuei, cruzando os braços. Meus dedos estavam tensos, e eu apertava a lateral do volante, tentando controlar minha frustração. — Aquilo que aconteceu entre nós... foi longe demais.
Ela desviou o olhar novamente, como se estivesse tentando se proteger de algo que não sabia lidar. Eu a observava, esperando por qualquer sinal que me desse uma pista do que ela estava pensando. Mas Bianca sempre foi difícil de ler. Mesmo quando parecia vulnerável, havia uma barreira invisível entre nós.
— Olha, eu sei que isso não deveria ter acontecido. — ela começou, finalmente me encarando. Sua voz estava mais firme agora, mas ainda havia um toque de incerteza. — Eu tentei seguir o plano, mas... não sei. Algo mudou. Eu não consegui parar e você também não.
Algo mudou. Claro que algo mudou. Eu também senti isso, mas não queria admitir. Aquilo que deveria ser uma simples encenação tinha se transformado em algo real. Havia uma linha que nós dois cruzamos, e agora não havia como voltar atrás.
— O que isso significa? — perguntei, inclinando-me um pouco em sua direção. — Você estava completamente entregue naquele momento. Eu também. Mas... por quê? Minha voz estava menos dura agora, mas ainda carregava o peso da situação. Eu precisava entender o que aquilo significava para nós.
Ela respirou fundo, passando a mão pelos cabelos e olhando pela janela.
— Eu não sei, Aléssio. — ela respondeu, finalmente soltando todo o ar que parecia estar segurando. — Eu não sei o que isso significa. Mas, de alguma forma, eu não consegui resistir. E não foi só eu.
Ela estava certa. Eu também não tinha resistido. Mas por quê? Por que algo que deveria ser puramente profissional tinha se tornado pessoal tão rapidamente?
— Isso não pode continuar assim. — Falei, tentando reafirmar algum controle sobre a situação. — Você sabe que não temos espaço para distrações. O que aconteceu foi um erro, e precisamos nos manter no controle daqui em diante. Você tem 18 anos e eu 32 somos bem diferentes, de mundos distantes.
Ela assentiu lentamente, o silêncio voltou a se instalar entre nós, mas dessa vez era diferente. Havia algo não dito, algo que ambos sentíamos, mas não sabíamos como lidar.
Depois de alguns minutos de silêncio absoluto, eu decidi sair do carro. Não podia ficar ali parado, esperando que algo fizesse sentido magicamente. Abri a porta, o ar fresco da noite batendo no meu rosto, e caminhei até a frente da casa. Ouvi Bianca sair logo em seguida, seus passos leves ecoando pela garagem.
A casa de praia era grande, com uma estrutura moderna e linhas elegantes, mas o que realmente chamava a atenção era a vista para o mar. As ondas batiam suavemente nas rochas.
Bianca se aproximou, ficando ao meu lado na entrada da casa. Havia algo no silêncio entre nós que era reconfortante, mas ao mesmo tempo, inquietante. Era como se ambos estivéssemos tentando processar o que tínhamos sentido no clube, mas sem saber como expressar isso em palavras.
— O que acontece agora? — perguntou ela, finalmente quebrando o silêncio.
— O que aconteceu lá foi... um deslize. Mas precisamos seguir em frente. Estou te ajudando, te aperfeiçoando para você voar sozinha daqui a alguns anos.
Ela assentiu, e, por um momento, pensei que isso seria o fim da conversa. Mas, então, Bianca deu um passo à frente, virando-se para mim, com uma expressão séria.
— E quanto a nós? — perguntou ela, sua voz mais suave. — Isso que aconteceu entre a gente... vamos fingir que nunca aconteceu? sério isso? É isso que está me falando?
A pergunta dela me pegou de surpresa. Eu sabia que seria difícil ignorar o que aconteceu, mas não estava pronto para lidar com isso agora.
Mas, ao mesmo tempo, não podia negar que o que aconteceu entre nós era real. Algo dentro de mim estava começando a mudar, e eu sabia que isso complicaria as coisas ainda mais. Eu nunca misturei negócios e sentimentos, e essa era uma regra de ouro para mim.
— Por enquanto, precisamos focar no que é mais importante. — disse, tentando manter a voz firme. — Não estou pensando em relação no momento.
Bianca parecia insatisfeita, mas não contestou. Apenas assentiu, o olhar perdido e distante.
Entramos na casa logo em seguida, ainda sem dizer muito. O clima entre nós estava carregado de uma tensão silenciosa, algo que eu sabia que não iria desaparecer tão cedo. Precisávamos de uma pausa, um tempo para processar tudo o que tinha acontecido. E, no fundo, eu sabia que aquela casa de praia não nos daria o tempo ou o espaço para fugir dessa realidade.
Dentro da casa, tudo era impecável. O ambiente era aconchegante, com tons neutros e móveis modernos, mas não era o conforto que eu procurava ali. Eu precisava de uma estratégia, algo que me desse o controle de volta sobre a situação.
— Vai para o seu quarto. — falei, sem olhar diretamente para ela. — Amanhã estaremos em viagem para casa.
Ela hesitou por um momento, talvez esperando que eu dissesse algo mais, mas no fim, ela simplesmente assentiu e se afastou, caminhando para o corredor que levava aos quartos.
Fiquei sozinho na sala, olhando para a lareira apagada à minha frente. Minha mente estava a mil, e, apesar de todo o cansaço, sabia que não conseguiria dormir tão cedo. O que aconteceu no clube tinha mudado tudo, e agora, precisávamos lidar com as consequências disso.
Por mais que eu tentasse, não conseguia esquecer o toque de Bianca, a forma como ela reagiu a mim, e o desejo que senti por ela. Era perigoso, e eu sabia disso. Mas, ao mesmo tempo, era impossível negar que algo entre nós havia mudado para sempre.
Naquela noite, na solidão daquela casa de praia, entendi que o controle que eu sempre tive sobre minha vida estava começando a escapar pelos dedos. E tudo por causa do maldito desejo reprimido.