Capítulo 3: Procissão das Almas - Mariana

658 Palavras
Lá pelos lados do bairro São Gonçalo, vivia Maricota de Todos os Santos, mulher de língua ferina que passava o dia falando da vida alheia. Por desentender-se com os moradores do referido bairro, mudou-se para a Rua Dom Silvério. Carregando má fama, fechava-se em casa durante o dia, e, à noite, tão logo ouvia o sino de correr ou de recolher tocado na Câmara, punha-se à janela, para no dia seguinte relatar aos quatros ventos tudo o que viu. Sexta-feira da Paixão, à noite, já com calos nos cotovelos de tanto ficar debruçada na janela, ouviu o soar de um bumbo: bum..bum...bum...Pendurou-se mais e aguçou olhos e ouvidos. De repente, soar de matraca e vozes esganiçadas cantando a canção: - Reza mais; - Reza novena e trezena; - Reza mais; Pra alma que morreu sem cumprir pena! Continuou observando e viu figuras sem rostos, vestidas de n***o, carregando velas. Uma cruz n***a, ladeada de véus da mesma cor, abria o cortejo. Ao centro, a morte com a foice. O cortejo chegou à janela, onde Maricota estava, e um dos participantes aproxima-se dela e lhe diz: - Mulher, a noite é dos mortos. Guarde esta vela para mim. Maricota ficou felicíssima. Recuperara a confiança popular. Retornando a procissão, outro participante aproxima-se dela e diz: - Mulher, guarde a sua língua, amanhã estaremos juntos em outras paragens. Pegue a minha vela! Na manhã seguinte: quando Maricota procurou a vela, encontrou um osso de canela humana. Desmaiou! Chamaram o padre e o médico, mas Maricota havia morrido. A segunda lenda diz respeito a uma senhora que cuidava de tudo na igreja local. Lá permanecia dia e noite; por isso apelidaram-na de "Barata de Igreja". Era secretária, faxineira, etc. Formou-se no Colégio Providência, uma jovem fazendeira, que além de linda e educada, era muito piedosa. Noiva de importante figura local, fora convidada pelo padre, a secretariar as reuniões pastorais e a ensinar catecismo às crianças. A velha “Barata de Igreja“ desesperou. Ninguém poderia substituí-la. Arquitetou, então, um plano para desmoralizar a honesta jovem. Divulgou na localidade que a moça era mula sem cabeça, ou seja, namorada do padre. O boato não fez efeito. Ela intensificou o ataque. Pegou os sapatos velhos do padre e colocou-os à noite sob a cama da moça. Conseguiu então seu intento. O pai da jovem escurraçou-a, expulsou de casa. O noivo desfez o casamento. Desiludida a bela jovem transformou-se em peregrina. Acostumada à vida confortável, vivendo ao relento e m*l alimentada voltou a padre Viegas, mas não fora reconhecida pelos que a viram. Bateu à porta de uma casa e pediu água. Ao retornar, trazendo-lhe o que foi pedido, a jovem estava morta. Como qualquer estranha, naquela época, ela foi velada na igreja. À noite, quando todos rezavam, chegou ao velório a Barata de Igreja. A Morta levantou-se, sentou-se sobre o caixão e disse: - Está aqui entre nós quem me caluniou. Quem me matou. - A velha caluniadeira saiu correndo e foi confessar-se. O padre lhe deu como penitência, recolher as penas de todas as aves abatidas pelos moradores do Município de Mariana. Pressurosa, a velha catou tudo e, sorridente, foi dizer ao padre que já cumprira a penitência. O padre lhe disse: - Carregue todos os balaios cheios para o alto do Morro do Galego. A velha obedeceu. - Agora to remida, né padre? - Aguarde, disse o padre, um vento forte para espalhar as penas. E quando a Barata de Igreja preparava-se para receber a absolvição, o padre lhe disse: - Cate pena por pena, quando acabar, procure-me. Por isso, na noite de sexta-feira da paixão ouve-se o caminhar de uma mulher resmungando: - Balaio de pena pesado. Assim, junto com a figura da morte, vai a Mulher da Pena, espalhando Pena pela cidade. Essas duas lendas são encenadas na tradicional Procissão das Almas ou Procissão do Miserere, realizada pelas ruas da cidade de Mariana, aos cinco minutos do sábado de Aleluia.
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