Darcy, no entanto, seguiu para a reunião intrigado com Elizabeth. Ela não parecia ter mais do que vinte anos, o rosto era de mocinha inexperiente e ele, contraditoriamente, sempre fora apaixonado por mulheres maduras. Ao menos passado a fase da adolescência. Entretanto, algo nela lhe chamava a atenção, ele não sabia dizer o que. Talvez fosse o olhar expressivo, ou até mesmo o timbre de voz, muito bem articulado, por sinal. Contudo, Darcy não imaginava dar de cara com a garota da carona. Todavia, achou agradável encontrá-la novamente.
Já Elizabeth ficou desenhando em sua mente, qual seria o tipo de mulher ideal para ele. Refinada e elegante, sem dúvidas, daquelas de parar o trânsito e capaz de correr em cima de um salto agulha. Esse foi o perfil que sua mente criara.
Charlene, por sua vez, não escondia a animação pelo belo rapaz ter aparecido novamente. Tinha muita curiosidade em vê-lo, visto que a colega de trabalho já o encontrara sem querer, garantindo que ele era muito bonito e igualmente educado.
Ela não esperava nada menos de um Darcy, óbvio que ele teria de ser um gentleman. Ou não mereceria carregar o peso de ter um nome daqueles, esse era o seu pensamento e ponto final.
Entrementes, Lizzie seguiu para a casa naquele dia, um tanto curiosa para saber o porquê de Darcy ter escolhido sua cidade para empreender. Onde ela morava até dispunha de alguns hotéis modestos, restaurantes e um shopping. Não chegava a ser como uma grande metrópole, mas dava para o gasto. Tendo isso em mente, conjeturou que haveria dezenas de outros lugares possíveis para um novo empreendimento desse porte. Lugares mais necessitados, ou digno de tal construção, até porque a cidade não tinha tanta demanda para um grande hotel no momento. Elizabeth meneou a cabeça afastando aqueles pensamentos e chegou em casa. Queria novamente contar à Cecília o reencontro peculiar de mais cedo.
— Lizzie, que coincidência fantástica vocês terem se encontrado duas vezes em tão pouco tempo. - A irmã mais velha afirmou sorridente.
— Não há nada de fantástico nisso, Cecil. Ele só foi comprar alguns doces, nada demais. - Fingiu pouco caso.
Afinal, não queria assumir que mantinha a mesma linha de raciocínio da irmã. Era realmente muito estranho que Darcy escolhesse justo a bomboniere que ela trabalhava para entrar. Visto que havia algumas outras naquela mesma rua.
Inclusive, ao longo dos dias, descobriu que o prefeito da cidade daria uma festa de boas vindas ao novo morador. Pois, com um projeto daquele porte, geraria mais empregos, renda e até mais turistas, por que não? A festa aconteceria já no final de semana, não havia tempo a perder. Além disso, todos estavam curiosos para conhecerem o belo empresário com nome de personagem literário. Os rumores diziam que era muito bonito e educado. Lizzie podia afirmar com convicção que as suposições eram verdadeiras. Salvo claro, quando ele ralhou por ela ter atravessado a rua sem olhar, colocando em risco o andamento de sua importante reunião. No entanto, o próprio Darcy acabara voltando atrás, sem nenhum encorajamento e demonstrara genuína preocupação com a integridade física de Lizzie. Essa atitude deveria ser levada em consideração, de fato.
Ela afastou a nuvem de pensamentos que sobrevoavam sua cabeça e se concentrou no trabalho, seria uma longa semana.
Porém, perto do trabalho dela, Darcy quebrava a cabeça para resolver a parte burocrática de construir algo tão grandioso quanto ele gostaria. Queria um edifício imponente, que valesse a pena o trabalho e o sacrifício de ficar em uma cidade tão pequena aos seus olhos. Todavia, os investidores da região eram osso duro de roer e da forma como as coisas estavam caminhando, ele não teria o necessário para algo na magnitude desejada. Fora que Melania estaria chegando nos próximos dias e essa informação era deveras importante. Ele teria de aguentá-la murmurando o tempo todo e questionando sua sensatez por ter feito aquela escolha.
E, para piorar tudo, o prefeito muito gentilmente estava organizando uma recepção para lhe dar boas vindas. Como Darcy se negaria a comparecer ao evento? Isso seria extremamente r**m para sua imagem e até para o seu caráter. Pensou que precisava de companhia para ajudá-lo a conter a noiva e, também, para sobreviver ao evento com todas aquelas pessoas desconhecidas.
Gustavo teria de vir ao seu encontro para auxiliá-lo, esse era o papel dos amigos, não? Dar apoio quando o outro mais precisava? Decidiu, então, convidá-lo para visitar à cidadezinha o quanto antes.
(...)
— Animada para a festa? - Charlene indagou a recente amiga.
— Estou sim, finalmente você poderá conhecê-lo e desmaiar de amores por razões mais sólidas. - Brincou.
Constatando que a colega de trabalho só sabia suspirar pelos cantos e balbuciar o nome de Darcy.
— Isso é verídico, acho que nunca mais dormirei depois de colocar meus olhos nele. - Respondeu de forma sonhadora.
— Acho que nem um homem bonito daqueles merece o esforço de ficar sem dormir. - Elizabeth retrucou em tom de zombaria.
— Oras, deixa de ser chata, Lizzie. O amor nos deixa insones. - Resmungou passando o troco para uma cliente aleatória.
— Vocês está falando de Darcy? - A cliente intrometeu-se na conversa.
— Estamos sim, estou muito ansiosa para conhecê-lo! - Charlene afirmou sorridente.
— Eu o vi esses dias e posso dizer com convicção que homem mais bonito não há nessa região. - Afirmou abrindo um sorriso ainda maior que o da balconista.
Lizzie revirou os olhos por saber que mulheres, adolescentes e todo o resto do s**o feminino da cidade, cairia matando em cima do p***e coitado. Tinha até pena do indivíduo, pois elas avançariam sobre ele como formigas em cima de um doce. Doce muito suculento, por sinal.
"Céus, eu não posso ser uma delas."
— Vocês sabem que ele é muito noivo, não é? - Elizabeth jogou a cartada que tinha na manga para tentar minimizar os males.
— Nem tudo é perfeito. - Charlene soltou um muxoxo.
— E noivo não é casado! - A outra retorquiu.
Elizabeth acabou deixando pra lá, ele já era adulto, podia se defender sozinho.
(...)
Alguns dias mais tarde, no final de semana, todos estavam eufóricos com a iminente apresentação do belo empresário. Os ânimos dos que ainda não o tinham encontrado por acaso, fervilhavam de curiosidade para conhecê-lo. Todos queriam colocar os olhos no jovem Darcy.
Inclusive a mãe das meninas Boaventura.
— Cecília, você é a mais linda da cidade. Por certo que esse Darcy vai colocar os olhos em você! - Especulava de forma sonhadora.
— Pare com isso, mamãe. Lizzie disse que ele é noivo. - Repreendeu espontaneamente.
Mas, imediatamente se arrependeu da gafe, Elizabeth tinha pedido segredo sobre o fato de já tê-lo conhecido.
— Lizzie, você já o conhece e nem nos contou nada? Como pode ser tão egoísta. - Ralhou com a filha do meio.
Cecília lançou um olhar com um implícito pedido de desculpas e a irmã sorriu. Sabia que ela não tinha falado por m*l e não havia nada demais em já conhecer Darcy.
— Sim, ele quase me atropelou sem querer. - Murmurou sem demonstrar seus reais sentimentos sobre o assunto.
— Nossa, que bela maneira de se fazer conhecida! Mas, ainda assim, você foi mais rápida que todas nós. Finalmente agiu com a cabeça. - Retrucou fazendo as duas filhas revirarem os olhos de desgosto.
A mãe às vezes era inacreditável, como Lizzie se jogaria em frente a um carro em movimento só para conhecer alguém. E como saberia quem era esse tal Darcy. Elizabeth acabou abstraindo dua demonstração de ignorância e terminou de se arrumar. Tinha escolhido a melhor roupa do armário, esperava estar apresentável caso o encontrasse. Não que fizesse alguma diferença, mas seria bom sentir-se segura pelo menos uma vez diante dele.
Cecília, por sua vez, não precisava de muito para ficar bonita. Ela tinha os cabelos castanho-escuros e olhos esverdeados, combinação terrivelmente harmoniosa.
— Me ajudem! - Ouviram os gritos da mais nova e foram ao seu socorro imediatamente.
Só se deram conta que era para ajudá-la a se arrumar, depois da carreira até o quarto da irmã.
Ambas suspiraram de alívio ao mesmo tempo. Imaginaram que a caçula sofrera algum acidente doméstico ou algo do tipo e ficaram felizes ao constatarem que a emergência não era tão séria assim.
Depois de arrumá-la, no entanto, finalmente a família Boaventura seguiu para a praça da Cidade.
O local não era muito grande, mas possuía o tamanho ideal para comportar as pessoas que compareceriam ao evento. O prefeito não tinha poupado esforços para a decoração e para a comida. Também havia um palco improvisado e um DJ no canto, tocando algumas músicas de batida rápida.
Lizzie e Cecília sorriram uma para a outra, era bom ter uma distração. Principalmente por Elizabeth ver a irmã finalmente saindo de casa.
O restante da família já tinha se dispersado, cada um para um canto. O Sr. e a Sr. Boaventura, por sua vez, foram para longe da muvuca e do barulho. Ficando ambos em uma mesinha mais afastada, Sophia havia se perdido com alguns amigos da escola. Portanto, só restaram as duas mais velhas e isso era bom. Assim poderiam conversar sobre o assunto que fosse sem que o diálogo caísse na boca de toda a cidade.
— Onde será que está esse Darcy? - Cecil inqueriu curiosamente.
Queria muito saber como ele era. Afinal, a irmã tinha ressaltado tanto sobre sua aparência e bons modos.
— Sua resposta já foi respondida, Darcy está vindo em nossa direção. - Lizzie sibilou sentindo o coração acelerar do nada.
Darcy aproximou-se com toda a sua altivez e cumprimentou as irmãs de forma educada.
— Boa noite, Elizabeth.
— Boa noite, Sr. Darcy. - devolveu o cumprimento. - Essa é minha irmã, Cecília.
— Muito prazer, Cecília. - Gracejou abrindo um sorriso em direção a moça. - Elizabeth, por favor, não me chame de senhor. Devo ser apenas alguns anos mais velho que você. - Pediu em tom de brincadeira.
Ela sorriu encabulada, sabia que ele era muito novo. Porém, seria estranho chamá-lo só pelo nome, era tão íntimo e Darcy era tão... Suntuoso.
— Tudo bem. - Assentiu constrangida. - E o que está achando da festa? - Tentou puxar assunto.
— Está tudo muito agradável, vim direto do trabalho. Mas estou aguardando minha noiva e o primo dela que estão a caminho. - Explicou despretensiosamente.
— Certo, então apreciem a festa. - Lizzie falou, tentando manter-se impassível diante da informação que recebera.
— Vou deixá-las à v*****e. - Afirmou girando os calcanhares e indo em direção ao prefeito.
Cecília, que se mantinha em silêncio até o presente momento, finalmente abriu a boca.
— Socorro, Lizzie. Ele é realmente maravilhoso!
— Pois é. - Elizabeth limitou-se a dizer. - E logo mais nós conheceremos a mulher que o fisgou. - Deu de ombros fingindo não se importar.
Porém, no fundo ela sabia que se importava.