Fala, Professor!

4621 Palavras
11 Vitinho, um amigo de outro ramo, foi dormir lá em casa. Ele trabalhava no Café com Letras até a madrugada. E morava depois do fim do universo. Quando chegou, me contou que havia chupado o taxista, um daqueles da Josefine que gostavam de comer viado. Normalmente isso acontecia. Ele sondava o motorista, vendo se havia ambiguidade. E começava a puxar assunto, que puxava riso, que puxava o zíper. E o topete. Ele tomou banho. Assistimos a um episódio Desperate Housewives. E desengatamos a conversar até o olho doer. Começamos a bocejar e a nos despedir da conversa. Mas ele olhou fixamente para a porta do meu quarto, tão pálido de morte... Levantou, sem me falar o que era, vasculhou o quarto com o olhar. E me disse: "Tem uma velha na sua cama." Afundei as costas no sofá: "O quê?!..." ... "Tem uma velha sentada na sua cama..." "Para de brincadeira, bicha, porque eu sou assustada!" ... "É sério!... Eu vi uma toalha sacudindo na porta, mas não dava pra ver quem era..." "Eu já falei pra senhora pa-rar de brin-ca-dei-ra!" ... "Num tô brincando não!", disse, com aquela cara que a gente faz quando quer provar a verdade. Dei um pulo, para cortar a palhaçada. Fui ao quarto. Não havia velha nenhuma. Bufei: "Palhaçada..." ... "Não é palhaçada. Ela está do seu lado esquerdo agora... Está rindo pra você, disse que te conhece... Que é pra você tomar cuidado quando for tomar banho... Tem coisa r**m lá..." Minha barriga doeu. Fingi que não ligava pra brincadeira de terror. Eu mesmo era fã do gênero. Só que comecei a sentir uma expiração desdentada ao meu ouvido. Recuei, cambaleando pra trás. Assim fui, de ré, até a cozinha. Ele ficou lá, parado, como se tivesse ido buscar a minha alma. Tomei um copo d'água. Voltei. Vitinho estava na mesma posição, me olhando por trás do olhar, com a testa apontada para baixo. Fiquei mudo, expressando com birra minha insatisfação. Me joguei no sofá, observando aquela estátua tentando ganhar vida. Quando olhei para o chão, vi... Ela rastejava, em riscos pacientes e diabólicos. Minha garganta travou. Não consegui engolir saliva. Entrei em desespero. Não contive o grito de horror quando ela deu um galope. E parou. "Ahhh! Socorrooooo!" E empoleirei no encosto, apontando para a coisa, que se movia em direção ao meu fim. Vitinho olhou e, num lance inacreditável de bailarina acrobata, deu um pulo descomunal no sofá, aos prantos, juntando seu pavor ao meu. Urrávamos desafinadamente, chamando a atenção do condomínio. Um vizinho gritou "cala a boca, viado!" E berrávamos escandalosamente. Num ímpeto de sobrevivência, me atirei ao chão, corri como alien, abri a porta. Catei uma vassoura. Vitinho dava pulinhos com os joelhos, cobrindo o rosto, já então vermelho e com laguinhos nos olhos. Toquei-a com a vassoura. Ela entrou debaixo do sofá. Vitinho se jogou no chão, arrastando-se em campo de guerra. Atirou-se na cozinha. Ela saiu. Veio em nossa direção. Como golfe da morte, meti-lhe a vassoura, jogando-a em direção à escada. Tranquei a porta, arremessei o cabo ao chão. E desatei num choro sentido, misturando lágrimas com catarro, me borrando todo do mais profundo trauma. Vitinho se mantinha na cozinha, com os ouvidos cobertos. Corri para a área de serviço. Peguei um pacotinho com naftalinas. E, diante da fresta da porta, fiz barreira com as bolinhas que cheiram a dor de cabeça. Aos poucos, recuperados, voltamos ao sofá e nos metemos a conversar sobre a mulher da tolhada. Ele me contou toda a história... A mulher só queria o bem. Por isso ela gostava de ficar perto de pessoas perturbadas. Porque elas não mentem sobre o bem. *** Combinamos que precisávamos dormir. O desgaste da imaginação sugara nossas forças. Já na cama, sem a velha, recebi mensagem de Lily: "Tem coisa estranha acontecendo... Um galho de árvore acertou meu carro hoje... Quando cheguei em casa, a maçaneta caiu..." Eu contei brevemente o que havia acontecido. Ela digitou: "Boa noite. Te amo." 12 Fomos convocados para uma celebração de Natal na escola no dia 23 de dezembro. Muita gente já com viagem marcada, como eu, que tinha família no interior, teve que se reprogramar às pressas para não perder ponto com as freiras. Elas adoravam prorrogar nossa angústia. Todo ano marcavam reunião de pais no sábado anterior ao dia das mães. Pedi várias vezes, roguei pra que revissem o calendário do ano seguinte. "Minha mãe mora a cinco horas daqui..." Mas, todo ano, eu tinha que viajar no sábado à noite, almoçar com minha mãe no domingo e voltar no mesmo dia. Porque me colocavam para dar o primeiro horário das segundas-feiras. *** Caminhávamos em procissão, uma professora com cara de santa escravizada carregava o menino Jesus. Irmã Lorelay flutuava, de mãos postas, com expressão de sepultamento. Normalmente, as freiras pretas ou com menos instrução eram escaladas para trabalhar na portaria, no refeitório ou numa das salas de artesanato, lugares ocultos, que a gente descobria que existiam por acaso, quando abria a porta por engano e se deparava com uma irmã imobilizada de rotina. Mas no Natal podiam se misturar, como se fizessem parte da realeza celestial. Subimos para a capela. Padre Rômulo nos esperava, à frente do altar. Me olhou com boca de ceia. Todo mundo cantava Noite Feliz como se carregasse o próprio caixão. Eu acelerava a música mentalmente, pra ver se acabava logo. O menino Jesus foi colocado na manjedoura. E veio aquela ladainha de fim de ano, de votos para o ano seguinte, que seria sempre o mesmo. Ou pior. Irmã Marlinda sentou-se no primeiro banco, pendendo as mãos, entrelaçadas sobre o hábito, com as extremidades da boca despencadas, as sobrancelhas levemente arqueadas e os olhos semiabertos. Parecia uma vela borrocada. *** Descemos para o refeitório. As mesas todas enfeitadas. Um presépio enorme e aceso. Tudo muito lindo de feiura. Me sentei com os professores perseguidos, longe dos bajuladores. Cochichamos sobre aquela encenação de espantalhos. Irmã Marlinda nos flagrou e disse com os olhos que ficássemos calados. Em seguida, fez a leitura de um texto de padre pop. E nos autorizou a comer. Pelo menos aquilo eu faria: comer para esquecer. Enchi o prato de tudo. Claro que não havia álcool, embora soubéssemos que algumas irmãs bebiam escondido. Irmã Lorelay se juntou às poucas freiras pretas. Serviu-se do mínimo de salada. A cada dia, emagrecia mais, pálida, desencarnando. Em poucos meses sumiria para dentro de si mesma. Padre Rômulo passou de mesa em mesa, com aquele sorrisinho de g**o de confessionário. Quando chegou à nossa mesa, disse que obedecêssemos as lições de Cristo. E que vivêssemos para o bem. Ao me abraçar, acariciou meu ombro. *** As freiras sem curso superior entraram, carregando enormes caixas de papelão, que foram dispostas no chão. Irmã Marlinda colocou-se ao centro. Pediu atenção total. "Agora, vamos aos presentes!", anunciou, feliz e fulminante. As caixas foram abertas. E de dentro se retiraram embrulhos coloridos, com cartões pendurados. Eram nominais. Ela fez a chamada, que também servia como lista de presença de presídio. Quando peguei o meu, ela falou: "Tenho certeza de que fará bom uso, é o que espero..." E começamos a desembrulhar o mistério. Dentro, um tecido branco. Abrimos. E o refeitório foi aos poucos clareando com aqueles panos, o mesmo utilizado nos hábitos. Sorrimos falsamente. E cada um se pôs a experimentar aquele jaleco de hospital, que caía até os joelhos. Foi então que ela explicou: "Temos notado que muitas professoras não se vestem com o decoro necessário. E de agora em diante o uso do jaleco é obrigatório para todos... Cada um está recebendo dois... E foram muito bem passados..." E, depois de um silêncio em que ela mastigou um pensamento, ouvimos: "Nos vemos no início de fevereiro, todos trajados apropriadamente... Essa é nossa mensagem mais importante de Natal: que cada um vista a própria consciência..." *** Saí apressado. Abri o porta-malas, joguei os jalecos. Pensei melhor. Peguei-os novamente. Embolei. Joguei-os de novo. Pensei mais. Esfreguei-os aos livros. Fiz uma pausa. Peguei uns cadernos de atirei por cima. Quando fui abrir a porta do carro, notei que havia um furo na fechadura. "Gente..." Tentei abrir. Nada. Dei a volta. Consegui entrar pela porta do carona. "Gente..." Olhei o interior. Nada de anormal. "Gente..." Dei a partida. E saí. Muitos professores tiveram o carro roubado por ali. Muitos pais também. "Gente..." O que teria acontecido? Um buraco, que parecia ter sido feito com furadeira, exatamente no miolo da fechadura... Pensei em carro dobrando a esquina da escola e batendo exatamente naquele ponto. "Gente..." Acelerei. Queria chegar logo em casa. Precisava arrumar a mala para a viagem de Natal. Mas o mistério do buraco na fechadura me seguia. E parecia que um carro preto também. Um Corolla. Parei no semáforo da UFMG. Ele diminuiu a velocidade, piscou e emparelhou. Não dava pra ver quem era. O insulfim era do mais forte. Pensei em furar o sinal. Mas havia PM perto. O sinal abriu. Dei o máximo que pude. Já sabia de cor os radares. O Corolla colou à minha traseira. Qualquer freada brusca seria catastrófica. Me senti acuado. Quando eu pegava uma reta, ele trançava atrás de mim, simulava ultrapassagem, bem rente, depois diminuía e tirava um triz da traseira. *** Subi para o Padre Eustáquio. Peguei alguns atalhos que eu conhecia. Perdi-o de vista. Um alívio tomou conta de todo o carro, como se eu tivesse sobrevivido a um acidente. Desci a minha rua. O retrovisor continuava me tranquilizando. Apontei o dedo para o controle remoto do portão. Reduzi a marcha. Dei uma panorâmica. E estatelei. Parei no meio da rua. Nenhum carro atrás. Mas o Corolla estava mais abaixo. Pensei em dar ré, pegar a rua de cima. Mas um flash de lucidez me disse o óbvio: ele sabia meu endereço. E o Palmitão me veio à mente. Abri o portão, que, rangendo e devagar, fez que com a aflição me subisse à boca. Entrei, imediatamente acionando o controle. Enquanto eu manobrava na vaga, não tirava os olhos do restinho a se fechar. Ejetei o CD Melhores da Pan. E sequer prestara atenção no que havia tocado. Abri o porta-luvas para guardá-lo. E... E vi um embrulho. "Gente..." Peguei. Subi correndo, pulando degrau de dois em dois. Eu morava no quinto andar. Prédio pequeno, sem elevador. A chave não entrava. Consegui. A chave não fechava. Enfim. Olhei pela janela, que dava para a rua. O Corolla ainda estava lá, estático, terrível, profundo. Fui para o meu quarto e me tranquei nele. Eu sempre fazia isso. Me trancar sozinho quando algo avançava inexplicavelmente sobre mim. Desfiz o embrulho. Uma sacola transparente, contendo algo meio duro, meio mole. Abri. Examinei. "Gente..." Joguei sobre a cama. Era uma focinheira, do tipo de pitbull, com a frente em grade rígida. O interfone tocou. Senti um choque explodindo em minha cabeça. E continuava a tocar. Abri a porta do quarto. Olhei de novo pela janela. Em meu alcance de visão, não detectei o carro. "Gente..." Atendi o interfone. 12 "Quem é?!...", perguntei, com voz falha. ... Eu me senti preso em minha própria imensidão. "Quem é?!..." Desligou. Voltei para a janela. O Corolla reaparecera. Piscou. E seguiu adiante. Peguei o celular e liguei para Lily. Ela não atendeu. Mandei mensagem, falando que tinha sido perseguido, que estava angustiado, com fala travada, com medo até mesmo de pegar estrada pela manhã. Não obtendo resposta, xinguei. Olhei de novo a focinheira, pousada na cama, prestes a avançar sem dentes. Relutante, busquei o número do Palmitão. Digitei: "Por que você está fazendo isso comigo?! Me deixa em paz!" Achei o tom meio desesperado. Apaguei. Tentei amenizar os pensamentos, que se entrecortavam, esbarrando uns nos outros, soltando faíscas. Por fim, escrevi: "Qual é a sua?..." Esperei aqueles segundos de indecisão sofrida. Enviei. Liguei para Dimitri e Malone. Também não atenderam. Na afobação, tinha me esquecido que era sexta, dia de Mary in Hell. Tentei Vitinho. E ouvi uma voz mole e debochada: "Vi-a-doooo..." Expliquei pra ele o apavoramento todo. Falava, tentando me agarrar à frase seguinte, para não esquecer, pra não faltar com a própria angústia. Ele disse não estava entendendo nada, que tinha ido ao Shopping Cidade para um blind date. E que não tinha gostado do cara. Queria falar mais de si mesmo. Mas um "ãããiii, ãããiii, me soltããã!..." se enfiou na ligação. E o telefone ficou mudo. Liguei de novo. Uma voz grossa misturada com vento atendeu. "Quem tá falando?", perguntei, preocupado com a sonseira de rua de Vitinho. ... "Esse telefone não é mais dele não, blza? Se ligar de novo a gente mata ele!" E socou um end no meu ouvido. Aterrorizado, liguei para Natasha Vogan, amigo em comum. Nada. Todo mundo havia resolvido desparecer, que é o que acontece nessas horas. Tentei Lily novamente. Depois de uma espera que servia também pra que eu me situasse anida tremendo na realidade, ela atendeu. O batidão do Mary in Hell deixava sua voz em fundo de poço. Tentei falar. Mas ela veio com uma narrativa bêbada. Catei, em meio a pedaços vazados de Beyoncé... Lily estava na pista. Dimitri apareceu e lhe disse algo ao ouvido. Ela não entendeu. Ele então segurou sua mão e a enfiou no bolso da calça. Ela apalpou. Um pano. Tirou. Era uma cueca. Dimitri estava trepando com um cara, dentro do carro, na frente da Mary. Alguma joelhada de prazer fez o veículo avançar na calçada, acertando a parede. Ele vestiu o jeans. Antes da fuga, catou a cueca. Deixou o cara lá, sozinho, pelado, atraindo curiosos de fila. Com ódio, desliguei. Sem saber mais o que fazer, escrevi para Malone, desabafando que eu precisava falar com alguém, era urgente, mas que Lily e Dimitri não me davam atenção. Xinguei os dois. Mas, por engano de lerdo, acabei enviando a mensagem para Lily. Antes mesmo de me sentir envergonhado, recebi uma resposta do Palmitão: "Gostou do presente?..." Me senti corajoso, o que não era propriamente um sentimento, mas uma simulação de estado de alma para situações de emergência. E telefone para ele. ... "Fala, fessô..." "p**a que pariu, me deixa em paz! Arrombar meu carro, colocar essa merda de máscara, me seguir na rua, me interfonar..." Ele explodiu em gargalhada. Falou: "A primeira parte é obra minha... A segunda, não..." Pigarreou. E concluiu, preciso e sufocante, como uma lâmina no olho: "Quando eu quiser, você vai estar à disposição..." Gritei pra ele se f***r, ameacei ir à polícia, denunciar, fazer o escarcéu. Me deitei no chão, em "x". Fiquei apenas ouvindo sua respiração vulcânica do outro lado. Ele falou: "Vai tomar um banho e dormir..." Me virei para o lado, formando suporte com o cotovelo e apoiando a cabeça em concha de mão. Perguntei: "Quem é você?..." Ele diminuiu o ritmo da respiração. Ouvi um risco de isqueiro. Uma primeira tragada bem escavada e uma baforada oca, provavelmente terminada em "o". E ouvi: "Não interessa quem sou eu..." Após nova tragada, agora terminada em sopro de beiço, fechou: "Interessa o que farei de você..." 14 Não vou falar do Natal. Foi o velório do menino Jesus de sempre: aquele monte de parente morto rezando com a gente, cascata de choro que dava pra ouvir da rua, soluços emendados a frases de saudade, Noite Feliz cantada com voz de pré-desmaio... E cada um com uma rabanada de derrota, terminando choro em seu quarto. Ponto. *** Ainda na noite anterior, Vitinho me ligou da casa de Natasha Vogan. Ele tinha sido assaltado. Falou aos prantos do tapão que levara. De como ficou de beicinho por horas. E do cheiro de bandido impregnado em cada célula. "Ai, foi horrível, irmã, hor-rí-vel!!!" Resolvi não render com ele o assunto do Palmitão. Eu não poderia queimar um dia de férias com aquilo, embora as lacunas me martelassem vez por outra: o Corolla preto, que Dimitri disse ser síndrome persecutória minha, "ainda que verdadeira...", as intenções por trás da focinheira, a verdadeira identidade do meu stalker. Minha memória fisionômica nunca foi boa. Eu era capaz de identificar qualquer prova não assinada apenas passando olho em letra de aluno, mas puxar histórico pela cara era uma tortura para mim. E os alunos crescem e se despem da idiotia pedagógica. É só sair da escola pra virar gente. Viram outros de si mesmos. *** Poucos antes do reveillon, que Lily, Malone e eu decidimos passar em João Pessoa, fui chamado para um processo seletivo em uma escola de religiosos no Padre Eustáquio. Pensei que minha sina seria servir a católicos. Lembrei do meu analista falando em "profecia autorrealizada", de como eu vivia em ciclos que abocanhavam um a auréola do outro, terminando sempre diante do corpo de Cristo. Mas eu precisava de dinheiro e de uma estratégia para me livrar das freiras. O ano seguinte não seria fácil: recebemos e-mail de trabalho no dia 24 de dezembro mesmo, cobrando elaboração de mais material extra. Puxei meus arquivos da escola e constatei, com ódio imenso, que eu produzira mais de cem páginas de material didático (um pequeno livro) gratuitamente, sob o assédio das freiras. Os professores tinham medo de acionar o sindicato. As escolas católicas eram uma máfia sacra. Colocavam qualquer rebelde numa lista n***a. O que nos deixava desempregados por antecipação. Eu já tinha concluído o doutorado, mas caíra no autogolpe de não fazer concurso, com medo de mudança. Pavor de ter que interromper o prolongamento da adolescência. *** No aeroporto, recebi ligação da diretora da nova escola, me felicitando por eu ter ficado em primeiro lugar na seleção. E me convidando para fazer parte da equipe. Fiquei feliz por automatismo. Agradeci. E combinei de fazer os exames admissionais assim que voltasse de viagem. *** Mas, enfim, era disso que todo mundo precisava: João Pessoa. Nós três havíamos tido um ano de términos desastrosos. Estávamos naquela fase de descrédito com a paixão, buscando p*****a bruta. Ninguém queria mais sofrer de dependência amorosa, ainda que intuíssemos que cairíamos nela a qualquer momento. Mas os resquícios da vontade de sofrer ainda pulsavam: Malone andava encantado com um ítalo-brasileiro-uai, que Lily e eu chamávamos no paralelo de Bosetto. Lily mantinha um rolo com uma garota linda e sofrida, com cabelo de miojo, que conhecera na balada. Dizia que precisava se esforçar muito para evitar o perigo: "Sapatão se apaixona no segundo encontro.." Eu administrava uns três rosquinhas mabel. E Dimitri já pensava em mudança para São Paulo. Queria se casar com o cabeludinho gostoso da noitada na Bubu. *** A pousada era de um suíço que se casara com uma brasileira, vendedora de artesanato em Zurique. Os dois falavam m*l do Brasil, diziam que éramos primatas, mas escolheram vir pra cá, onde os ricos podem mais. Tinham dois dálmatas, que substituíam os donos em simpatia e humanidade. *** A Praia de Tambaba era dividida em duas: o lado esquerdo, dos curiosos vestidos; o direito, completamente murado e rodeado por um cinturão de rochas de nenhuma castidade, era o dos naturistas. Passamos pelo portal, lemos os avisos (proibido tirar fotos ou filmar, proibido f********o etc). Um monte de veto para estimular desejo. O que era ótimo. Um cara fiscalizou nossas bolsas. Pediu que tirássemos a roupa ali mesmo. Senti um arrepio de ultraje. E um medinho gostoso. Mas foi só ficar pelado e ver que ninguém ligava para nada (o que era uma forma mentirosa de alimentar t***o) que nos vimos numa liberdade vigiada sem precedentes de tão boa. Fiquei com medo de ficar de p*u duro. E segurava uma canga para alguma emergência. Malone caminhava como ator pornô rico. Lily, com cara de sapatona à paisana. Eu era o tiozão, que agenciava os dois. Nos acomodamos perto de um coqueiro. Esticamos o braço. E um garçom peladíssimo de maravilhoso nos atendeu. Malone e eu nos entreolhamos, querendo. Lily falou: "Hum, hum... acho que vou querer uma água de coco... hum..." E para nós, abrindo toda sua brancura na canga, disse: "Quero esse sol todinho dentro de mim..." *** Malone e eu achamos um laguinho entre rochas, tão azul, que parecia céu condensado. O mar do Nordeste era morno e só amolecia o necessário. E o melhor, o prêmio máximo, que dignifica qualquer praia: não havia crianças. Boiamos surdamente naquele paraíso. Fechei os olhos. A claridade sobre minhas pálpebras fechadas permitia que visse desenhos pintados pelos finíssimos vasos sanguíneos. As leves ondulações faziam de mim um à deriva do prazer. Meus alunos sempre diziam que eu erotizava tudo. "Fessô só pensa em falo..." E eu perguntava se eles eram capazes de não ver o falo, depois de entendê-lo. Riam de mim, mas com boca cúmplice. Explicava que eu também era capaz de ver fendas e grutas úmidas. Era só desejar. *** Malone me chamou: "Mamis, põe reparo..." Um cara com uma tatuagem tântrica que lhe abocanhava a cintura entrou na cratera de paraíso. Tinha cabelo curto, quase um tapete. Talhado em academia, não era bonito, nem feio, mas atraente nos meios termos. Ele alisou o peito, descendo até o p*u, levemente inflado. Tamanho M. Deu um mergulho, sua sombra de tubarão humano atravessou, emergindo do outro lado, escorrendo em caldo prateado, de frente para nós. O sol esmagava o planeta. As gaivotas pareciam móbiles de berço. Elas pendiam em meu devaneio, que foi ganhando espaço, dominando tudo, meus remos de braços, minhas pernas bailando ao fundo. O melhor do devaneio é quando a realidade fica em segundo plano. E assim foi... Como só nós três estávamos ali, ninguém tinha desculpa para olhar para outra coisa. E assim não perdemos tempo despistando vontades. De vez em quando, um sorria para o outro. Eu, que antes fazia círculos para fora com os braços, mudei de rota e passei a dar abraços nas ondulações. Sorri para Malone, que conseguia algo difícil para mim: boiar com os pés para fora, estendendo e contraindo os dedos. Ele afundou de uma só vez. Pegou impulso e pulou, submergindo novamente em fração de segundos. Tempo suficiente para o víssemos duro. Uma prancha após um salto. Quando reapareceu, parecia um chafariz de músculos. O caldo salgado escorria de sua boca e se estilhaçava nas ondulações. Boiou então, movendo a cintura para a frente e para trás, sem desviar de nós todo o foco. Malone me disse: "Bora?..." Gesticulei afirmativamente. Olhei para trás, para a pequena formação rochosa, a uns dois metros de nós. Nadei até ela. Malone me seguiu. Apoiamos os braços. Em seguida, o peito. E viramos a cabeça para ele, que tomara pé, mantendo-se visível do abdome para cima. Empinamos as bundas, ainda sem marca de sunga, mas desenhadas de desbotamento. E começamos a nadar, sem sair do lugar, com as pernas abertas. Ele levou uma das mãos ao umbigo, subindo ao peito, acariciando os m*****s. A outra ficou submersa. Também descemos uma das mãos. Enquanto ele se tocava por baixo, nós o recebíamos por cima, em ondinhas mornas, gostosas, em nossos miolos. Que piscavam como água viva. Eu fui o primeiro. Com o rosto colado ao antebraço e virado para ele, sem deixar de puxá-lo para dentro de mim um só instante, os olhos totalmente apontados para a linha flutuante em seu abdome, mordi o lábio inferior. Eu queria que ele gemesse antes de nós. Mas não. Ele viu primeiro: a água espatifada de pernadas, e a espuma que se formou, cheia de gotas embranquecidas. Afundamos. E numa braçada esgotada, voltamos. Limpamos o excesso de sal dos olhos. E olhamos. Sua metade ainda estava lá. 15 Alugamos um carro. Lily gostava de dirigir. E dominou a estrada. Em Natal, passamos pouco tempo. A Praia da Ponta n***a era linda. Mas tinha um problema. E constatamos logo que chegamos. m*l estacionamos, e um guardador pediu um cigarro. Já tinha um enfiado em cada orelha. Demos. Ele abriu um maço na nossa cara e guardou. Quando descemos rumo à praia, uma senhora pediu um cigarro. Demos de novo. Ela o meteu na orelha. Um cara que lavava varanda deixou a mangueira de lado e nos fez sinal de tragada com o dedo. Demos, já nervosos. Antes de desembarcar na areia, verificamos nossos maços. Em poucos segundos estávamos cercados de gente, filando. Lily falou que tínhamos poucos. "Tem muito, eu vi...", um cara reclamou, contaminando os demais. Chegamos finalmente à areia, sem cigarro. *** Resolvemos descer até Recife. Paramos em um motel, para descansar. Malone se escondeu no porta-malas. Cogitamos deixá-lo lá um tempinho, de s*******m. Mas só a ideia em si foi prazerosa. Eu pensei em minha claustrofobia. E sabia que eu morreria facilmente sem ar, estrebuchando. O quarto tinha uma banheira. Espalhamos sais de banho, formando um enorme castelo de espuma. Pelados, nos metemos nela. Tiramos uma foto, até agora secreta (e vai continuar). Na cama, Lily fez minhas sobrancelhas. Eu adorava a dor fina da pinça. Ela se detinha nos fios maiores, que extraía devagar, me causando arrepio bom de tortura. Em retribuição, massageei seus pés. E brinquei com o cotonete em seus ouvidos. Prazeres mínimos enormes. *** Um contato de um contato do rebuceteio indicou uma menina a Lily. E ela nos apresentou Recife, que amamos. Havia um bar na rua da boate Metrópole. Resolvemos fazer um esquenta lá. Percebi que o sotaque pernambucano me excitava. E queria ver se o mineirês tinha o mesmo efeito. Mas era aquela coisa: cada cidade tinha seus códigos de pegação. E me lembrei que, em Buenos Aires, se a gente conversa antes de beijar, significa amizade. Um moreno introspectivo e de cabelo raspadinho (eu poderia parar a descrição por aqui), muito fofo e com uma bundinha de lamber sem parar sentou-se numa mureta, me encarando. Fiquei nessa de vai-não-vai, prolongando desnecessariamente o charme. Um outro, que descobri ser primo dele – e a cópia melhorada de Caio Castro, que virou instantaneamente Caio Mastro –, me chamou num canto: "p***a, você tá fraco... pega logo!" Aproveitou e pediu pra eu dar a deixa a Malone. Mas Malone entrou numa de que não lidaria bem com a ideia de trair Bosetto. Lily, indignada com a possibilidade de se desperdiçar Caio Mastro, ficou vermelha, deu sermão. "Cê tá ficando completamente louco! Eu mesma pegava logo..." Eu me aproximei do moreno. Era o tipo de chegada diferente. Tinha que ter conversa misturada com esfregadinhas. Quando ele se apresentou – "Ralph..." –, saquei logo o risco: eu já estava com paixão pré-aprovada. Aquele nome latido baixo...Senti meu estômago gozar. E o medo me fez ficar apatetado. Ele era envergonhado e ousado, o que piorava e muito minha situação. Se fosse apenas carne de boate, vá lá, mas não: era de primeira. Lily sacou meu amarelamento. Chegou ao meu ouvido. Sussurrou, em tom de cobrança: "Vai fundo, a gente não tá aqui pra desperdiçar futuro!..." Ele roçou meu joelho. Riu sacaninha. Tirou um cigarro. Também peguei um. E ficamos fumando como se não estivesse acontecendo nada. Se ele não desse o primeiro passo, senti que tudo estaria perdido. Eu seria uma farsa para mim mesmo. Insisti mentalmente: "É UM PRÉ-APROVADO!" Mas ele deu. Segurou meu dedo mindinho. Eu parecia um virgem acuado. Enroscou. Consegui reagir, fazendo anelzinho com ele, que se aproximou, não para me beijar. Mas para sentir meu pescoço. Cafungou. "p**a que pariu! Eu tenho que fazer alguma coisa!" Mas ele fez. Subiu. E com o nariz brincou com a minha orelha. Apertei nosso anel. Queria que ele me tirasse daquele risco de perdê-lo. Mas ele tirou. Desembocou em minha boca. *** A boate Metrópole tinha uma área externa. Nos sentamos no chão mesmo. Eu já estava de novo dentro de mim. E, quanto tocou Mariah, eu já caminhava para dentro dele. Meti a língua com vontade em seu beijo. E chupei seu "ah..."
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