Ao entrar na sala de Lorenzo, Enrico percebe a proximidade dos dois, a troca de olhares e os toques sutis ao entregar os documentos, deixa bem clara que a cumplicidade que tinham antes ainda estava ali. Ele se dá conta de que logo, logo tudo que Alice lhe disse, não passará de palavras bem construídas para não levantar suspeitas de sua verdadeira motivação.
— Alice, posso falar com você em particular? — ele pergunta surgindo na sala.
Assim que notam a presença dele, ele percebe que Lorenzo e Alice se afastam sutilmente. Alice assente e se levanta, indo para fora da sala com Enrico, ele a conduz para um lugar mais afastado da sala de Lorenzo.
— O que você quer falar comigo? — pergunta Alice.
— Você também ainda gosta dele, não é? Porque ele, eu não tenho nem dúvidas, ele nem se esforça em esconder. Eu só não quero que você use meu caso para poder de alguma forma ficar perto dele e reconquistar ele.
— Mas eu não estou. Eu realmente estou aqui pra te ajudar. — disse.
— Eu só quero que fique bem claro que não vou permitir que você brinque com o coração do meu irmão de novo e se for por causa dele que está aqui, já acho melhor você ir se retirando e deixando o espaço livre pra alguém que queria ajudar de verdade. — disse ele num tom ríspido.
— Não é por isso que estou aqui, eu estou pra te defender e houver uma chance de você ser inocente, saiba que farei todo o possível para que você não seja preso. Sei que é difícil acreditar em mim, mas já provei meu comprometimento com o caso.
Ele assente, apesar de ainda estar desconfiado e sai logo em seguida, a deixando sozinha. Lorenzo coloca o rosto para fora da porta, depois de ver seu irmão passar desacompanhado. Ele vê Alice mexendo no celular e vai até ela.
— Está tudo bem? O que ele queria com você? — perguntou.
Alice estava terminando de responder sua chefe que havia pedido para ela se preparar para voltar, pois tinham uma reunião com um cliente e teria que participar, mas sentiu certo alívio ao ver a mensagem da chefe, como se fosse um sinal para sair dali.
Demorou alguns minutos para deixar o celular no bolso e olhar para Lorenzo.
— Sim. Nada de mais, eu preciso ir. — disse ela.
Passou na sala dele apressada, pegando sua bolsa e mais uma vez ela saiu sem justificativa nenhuma. Lorenzo sabia que era algo importante pela forma que ela saiu, então se dirigiu para a sala de Enrico.
— O que você disse pra ela? — perguntou direto.
Enrico não demorou nenhum minuto para assimilar sobre o que ele estava falando.
— Só disse a verdade. E você não é burro, sabe que ela só aceitou representar o caso pra ficar perto de você.
— Acho que você está viajando. — Lorenzo fala, entrando na sala.
— Qual é Lorenzo, eu vejo o jeito que você olha pra ela. — diz ele meio alterado.
— Isso não significa nada. Você estava lá quando ela disse que seria profissional.
— Ah é, só até terminarem de cuidar do meu caso, depois ela vai fisgar você e nem vai ter dificuldades. — diz num tom debochado.
— E desde quando isso te importa.
— O que importa é vocês não se distraírem durante o MEU caso. — disse num tom de voz alterado.
— Pode ficar tranquilo quanto a isso. Eu dou minha palavra. — diz Lorenzo.
Em seguida, ele sai da sala.
Alice voltou para a casa alugada de Uber, e já foi começando a ajeitar suas coisas e no final da tarde, Alice já tinha organizado tudo, não teve tempo de pegar o telefone antes, então no meio do caminho até o aeroporto que conseguiu mandar uma mensagem para Lorenzo.
Mensagem para Lorenzo:
Desculpe sair da empresa daquela forma, mas é que mais cedo minha chefe me ligou e preciso voltar para minha cidade urgente, mas se precisar de algo, é só me mandar mensagem que volto novamente.
[...]
Alice desceu do avião sentindo o cansaço pesar em seus ombros. O voo era sempre a parte mais tranquila, porém, foi longo o suficiente para deixá-la ansiosa por uma boa noite de sono em sua cama.
Pegou sua mala na esteira e seguiu para o táxi mais próximo, o chamando. No caminho para casa, apoiou a cabeça no banco, observando as luzes da cidade piscarem do lado de fora, estava começando a anoitecer e já podia sentir o cheiro característico da noite.
Ao chegar em casa, sentiu o alívio imediato de estar no próprio espaço, foi tirando os sapatos e deixou as malas próximas à porta, alongando os dedos dos pés. Antes de qualquer coisa, olhou ao redor do ambiente, procurando por Lavínia.
— Cheguei. — A voz saiu carregada de exaustão.
Logo Lavínia apareceu com uma colher de p*u nas mãos e um pano de prato.
— Finalmente! — disse se aproximando e dando um abraço em Alice. — E aí, como foi?
Assim que se afastaram, Alice se jogou no sofá, fechando os olhos por um segundo antes de começar a contar tudo que tinha acontecido, fora dos detalhes do caso. Relatou o voo, a comida que não era grande coisa, a criança que chorou quase o tempo todo. Contou da correria no desembarque, da fila imensa para pegar a mala.
— Enfim, tô moída. Mas e você, alguma novidade?
— Digamos que sim, mas te conto depois, vou tomar um banho primeiro. — Alice disse e já foi andando na direção do quarto.
Depois de tomar um banho rápido, vestiu um pijama confortável e foi direto para a cama, sem forças para jantar, adormeceu.
No outro dia, o despertador tocou cedo, e Alice precisou de alguns minutos para criar coragem e sair da cama. Tomou um banho, prendeu os cabelos coque simples e foi tomar café reforçado enquanto organizava os documentos da reunião.
— Bom dia. — Lavínia falou.
— Bom dia.
— Nossa que look é esse?
— Tenho uma reunião muito importante hoje, aí me levantei um pouco mais cedo pra revisar tudo.
— Entendi. Mas vai dar tudo certo, você é uma ótima profissional.
— Obrigada amiga. — Alice sorriu para ela.
Lavínia foi até a cafeteira e a ligou na tomada, colocando os ingredientes necessários para coar o café rapidamente.
Depois de um café bem reforçado, Alice se sentia mais preparada para ir trabalhar, na volta teria que passar no mercado, e quem sabe poderia até comprar algo para comemorar, se a reunião fosse realmente bem-sucedida. Saiu de casa com esse pensamento, pronta para enfrentar o dia.