Essa é a vida de Dante Ferreira.

1116 Palavras
No dia seguinte entro no departamento, Leandro está conversando com Carlos. Logo que ele sente minha presença, seus olhos voam para mim. Ele está sexy, como sempre. A camiseta branca justa no corpo, colete e preso a ele uma bandoleira carregando duas pistolas semiautomáticas 9 mm. Sua expressão está fechada, "desgostoso", essa é a palavra que se encaixa com ele e não preciso falar com ele para entender o motivo. Ele, no mínimo, estava remando contra por eu ter me infiltrado na casa de Rafael Ferreira. Mas sem sucesso, percebo isso quando vejo agora o sorriso que Carlos está me dando, e agora entendo melhor seu mau humor. Meu chefe se move em minha direção. — Meus parabéns. Ótimo trabalho. — Obrigada. E obrigada por ter confiado em mim. Leandro se aproxima de nós. — Leandro, acerte os detalhes com sua parceira. E Isabela, quero o relatório de ontem à noite. — Está certo. Pode deixar. Depois que ele sai, Leandro me encara. Ele está abatido. Eu suspiro. — Que detalhes são esses que quer acertar comigo? Leandro pega meu braço; parecem garras. — Vamos até sua mesa. Quando eu me sento na minha cadeira, ele puxa uma para ele e, depois de passar a mão nos cabelos, me encara. — Não vou poder me infiltrar com você na casa de Rafael. Carlos acha que seria desperdício de trabalho. Ele me deu outro caso para averiguar. Você entendeu a gravidade disso tudo? Eu acho ótimo. Ele só atrapalharia. — Não. Ele, como eu, percebeu que eu estarei neutra naquela casa. Vou apenas estar de ouvidos abertos para entender os passos de Rafael e tentar descobrir mais coisas sobre Dante. E não teria mesmo como eu infiltrar você. Leandro — p***a, Isabela. Isso vai me comer por dentro. Saiba disso. Eu quero que ela sinta a dor em minhas palavras. Eu quero que ela sinta cada segundo de agonia que eu sinto desde que ela resolveu assumir esse posto. Ainda mais agora, que ela se infiltrou nessa maldita família. Seu lábio inferior treme, e ela baixa os olhos, longe da minha raiva. — Olhe para mim. — Eu peço. Isabela ergue o rosto. Eu a olho fixamente, tiro do bolso um celular e o coloco sobre a mesa. — Você falará comigo todas as noites. Manteremos contato. Guarde-o em um local seguro. Ele já está programado para vibrar. Se alguma coisa acontecer, quero que me ligue. — Está certo. Eu respiro profundamente e tento equilibrar minha voz: — Não me oculte nada. Qualquer perigo, qualquer coisa. Mesmo que para você possa parecer insignificante. E tente se evadir do local se você se sentir em perigo. Minha cabeça está quase explodindo de desgosto, e vejo ela apenas sorrir para mim com um aceno. — Diga que entendeu! Merda! — Entendi. Qualquer ameaça de perigo eu te comunico. Deixando escapar um suspiro chateado, eu direciono meus olhos assassinos para Carlos, que nos dá uma olhada da porta com um sorriso. Maldito! Isabela não tem experiência necessária para esse trabalho. Então, do nada, eu sinto a mão dela no meu braço. O toque queima a minha pele, me aquecendo através de meus ossos. Não me sinto assim desde... desde a última vez que a beijei. — Leandro. Eu a encaro ofegante, com febre no olhar. — Fica bem. — Ela diz suavemente. Eu sorrio para ela de modo frio e me levanto. Vou até a minha mesa, pego a pasta de Dante Ferreira e jogo na mesa dela. — Olha isso! Essa é a vida de Dante Ferreira. Ele pode não puxar o gatilho, mas é o cara que faz o dinheiro sujo virar negócio limpo e sustenta essa máquina toda. Tudo isso aqui só funciona por causa dele. Então não vem me pedir pra ficar calmo. Estarei na minha mesa. Isabela Eu vejo Leandro se afastar. Ele se senta em sua cadeira, que tem como ângulo de visão a minha mesa. De lá, com certeza, ele irá observar a minha reação ao ver aquelas fotos. Por mais chocantes que sejam, eu preciso passar tranquilidade. Abro a pasta com um leve tremor nas mãos e vejo uma mulher e um homem. Ambos nus, ensanguentados na cama. Ela tem um buraco no peito e ele na face, o que o deformou. m*l posso ver o rosto dele. As outras fotos não são diferentes. Vários homens mortos em vários pontos: na rua, estrada, em valas, em quartos de hotéis. Começo a ler a ficha e o parecer dos investigadores. São sempre as mesmas falas: cobrança de dívida, gangues rivais, pessoas ligadas ao tráfico. Pelo que li, tivemos alguns sucessos prendendo alguns homens que fazem o serviço sujo. Mas é só. Pelo que leio no relatório, eles assumiam a culpa pelos assassinatos, mas não abrem o bico. Não entregam os chefões do tráfico. Tinha uma outra divisória na pasta. Lá eu pude ver outras fotos: eram homens mortos dentro da cadeia. Possíveis testemunhas contra o esquema, mas elas nunca foram ouvidas, pois foram riscadas do livro dos vivos. Eu solto o ar dos pulmões. Fecho a pasta e ergo meu rosto. Não consigo me mover por um momento, tal a intensidade do olhar de Leandro. Eu fico apenas olhando para ele, sentindo seus olhos negros sobre mim. A impressão que eu tenho é que eles me tocam. Lembro-me, então, de respirar. O encarando ainda, me levanto e vou até ele. Coloco a pasta em sua mesa. — Já vi tudo que tinha que ver. — E? — E nada. Ele trava os dentes, mas não me diz nada. Com meu coração galopando, eu me afasto dele e sigo em direção à sala de café. Lá vejo Tânia caminhando em minha direção. Uma senhora de cinquenta anos, cabelos negros e olhos perspicazes. Trabalha como investigadora administrativa na Polícia Civil, sempre com a habilidade de ligar pontos e encontrar conexões que ninguém mais percebe. Eu pego a jarra de café e me sirvo de uma xícara. Estou aqui agora só para me afastar dos olhos de Leandro. Hoje está dose. Ele não para de me olhar como um pitbull pronto a atacar. É uma forma de pressão psicológica para eu desistir do caso. — Parabéns. O que mais se fala aqui é do seu sucesso na missão. Depois de beber um gole, eu digo para ela em tom de brincadeira: — Verdade? — Leandro não gostou nada. — Ela se aproxima mais de mim, com aquele olhar de quem enxerga além das palavras. — O que há entre vocês dois? Eu congelo instantaneamente e, então, relaxo. A encaro com o rosto impassível; a mentira flui facilmente de meus lábios: — Rivalidade. Acho que é isso.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR