Ele me afasta e, com aqueles olhos verdes intensos, passa-os pelo meu rosto, examinando cada detalhe com uma precisão quase desconcertante, como se estivesse tentando decifrar os pensamentos mais íntimos que guardo. Eu posso sentir o peso de seu olhar em minha pele, algo que me deixa exposta e ao mesmo tempo me fascina.
— Estou rindo de mim — digo, os lábios se curvando em um sorriso travesso, mas uma sensação estranha, como um prenúncio, me impede de relaxar completamente. — Dançando com um desconhecido desse jeito.
A risada dele, grave e envolvente, é baixa, quase um sussurro, mas logo desaparece, como se se desse conta da seriedade que toma conta de meu rosto.
— Você é diferente, mesmo — ele diz, o olhar dele fixando-se em mim, como se estivesse tentando descobrir o que eu escondo por trás da fachada. — Senti isso.
Meu corpo reage antes de minha mente, como se uma força invisível estivesse me empurrando para ele. Um arrepio percorre minha espinha quando, com um gesto firme, ele me puxa de volta para seus braços, e eu me vejo em sua posse. O toque dele é forte, impositivo, mas também profundamente sensual, e algo dentro de mim se contorce, misturando fascínio e alerta.
Ele aproxima o rosto, o perfume almiscarado dele preenchendo o espaço entre nós, misturando-se ao calor que emana de seu corpo. A proximidade dele é sufocante e tentadora, e por um momento, sou incapaz de pensar em mais nada além da sua presença.
— Hum, gosto do seu cheiro — ele murmura, os lábios quase roçando meu cabelo, o calor de sua respiração fazendo meu corpo tremer. — Maçã verde, azedinha como a dona.
A palavra "azedinha?" chega como uma faca cortando o ar, e por um segundo, meu ego tropeça, surpreso, antes de ele dar continuidade, não me permitindo espaço para reagir.
— Mas acho ótimo isso. O doce é muito enjoativo.
Sua voz, tão próxima e carregada de um tom que eu não sei identificar, me faz esquecer por um momento tudo o que estava em minha mente. Antes que eu consiga responder, dois homens surgem ao nosso lado, interrompendo o momento tenso e carregado de eletricidade.
— Dante, precisamos ir — um deles diz, a urgência em sua voz clara, e o nome dele, dito daquela forma, atinge-me como um soco no estômago. Dante Ferreira de Souza?
O coração dispara, e um frio percorre minhas veias. Eu o encaro melhor. Sim, é ele. Tudo nele exala uma aura de poder, de perigo, de algo que se esconde nas sombras e que não pode ser ignorado. A imagem que eu tinha dele nas fotos era apenas uma fração do que ele realmente é.
Dante me afasta suavemente, mas seus olhos permanecem fixos em mim, como se não quisesse que eu escapasse do seu olhar. O sorriso de antes desaparece lentamente, substituído por algo mais sério, mais penetrante. Ele me observa, como se tentando ler minha alma.
— Você está bem? Parece atordoada...
Atordoada? Ele sequer faz ideia do que estou sentindo, mas não posso deixar isso transparecer. Forço um sorriso e limpo a garganta, tentando parecer mais composta do que realmente estou.
— Eu... estou bem. Acho que minha pressão caiu um pouco.
O homem ao lado de Dante repete, mais impaciente agora:
— Vamos, Dante!
Ele dá um aceno breve, mas antes de ir, me lança um último olhar. Seus olhos parecem atravessar todas as minhas defesas, como se estivesse vendo mais do que qualquer pessoa jamais viu.
— Tenho alguns negócios para resolver. — Sua voz é baixa, quase íntima, mas a ironia que escorre das suas palavras é palpável. — E, a propósito, seu namorado é um tremendo i****a.
A surpresa me atinge, e meu coração dá um salto, mas ele não me dá tempo para reagir antes de se afastar, seus passos ecoando pelo ambiente como se o chão tremesse com o peso de sua presença.
Respirando fundo, caminho até o bar, minhas pernas levemente trêmulas. Cada segundo daquela interação ainda está fresco em minha mente, como uma tatuagem impossível de apagar. Eu acabei de dançar com Dante Ferreira, e, de alguma forma, sabia que isso não seria o último encontro entre nós.
Sento-me em um dos banquinhos altos, tentando processar tudo, mas meu olhar percorre o salão, em busca de Leandro. Será que ele percebeu?
Não parece. Dante estava muito diferente das fotos que vi, sem barba, com a cabeça raspada, mais suave de aparência, mas ainda assim carregando uma força indiscutível. Algo mais animal e profundo estava por trás daquele semblante.
Então, quando viro o rosto, meu coração quase explode quando Rafael Souza se aproxima, tomando lugar ao meu lado. A tensão aumenta, e uma pergunta se instala na minha mente: “Será que estou prestes a mergulhar ainda mais fundo nesse mundo perigoso, ou será que estou apenas começando a entender o jogo?”
Ele ajeita os punhos da camisa com uma calma desconcertante, mas seus olhos azuis, que brilham com uma intensidade quase hipnótica, não saem de mim. Ele me observa com a mesma atenção que Dante, mas de uma forma muito diferente. Menos impetuosa, mais cautelosa.
— O que vão querer beber? — O barman pergunta, interrompendo o pesadelo em forma de pensamento.
— Uísque. — Responde Rafael, com um sorriso leve, ainda sem desviar o olhar de mim.
— Um refrigerante. — Respondo rapidamente, tentando não transparecer o turbilhão dentro de mim.
Rafael solta uma risada baixa, uma risada profunda que reverbera na minha pele, e eu sinto uma tensão crescente no meu peito.
— Um refrigerante? — Ele pergunta, e o sorriso dele, que mistura provocação e um certo fascínio, me deixa sem palavras. — Você acabou de dançar com o meu irmão e é do tipo que toma apenas um refrigerante?
Eu congelo. Ele viu. Droga, ele viu!