Deus, Leandro, melhore essa cara. Você está dando bandeira.

1061 Palavras
Leandro Solto o ar, angustiado, e digo simplesmente: — Vamos. O clima já tinha acabado há muito tempo. Ela assente em silêncio, e eu, sentindo-me como um condenado sendo levado para a execução, pego as malas e as carrego para fora do apartamento. Cada passo que dou parece mais pesado do que o anterior, como se minhas próprias dúvidas e frustrações fossem o peso que me arrasta. Caminhamos juntos até o elevador, mas o silêncio entre nós é sufocante. Tento desviar os olhos dela, mas o olhar triste que Isabela lançou antes ainda queima em minha mente. O que ela espera de mim? Que eu dê minha aprovação para algo que contradiz tudo o que acredito? No carro, o clima é ainda pior. Não trocamos nenhuma palavra enquanto as ruas do Rio passam ao nosso redor. O silêncio está carregado, cheio de pensamentos não ditos e sentimentos que lutam para sair. Porra! Minha maior frustração é saber que Carlos vetou minha proposta de me infiltrar junto com ela. Isso me consome por dentro, me deixa possesso. Enquanto Isabela pensa com o coração, querendo enfrentar o mundo sozinha, e Carlos, meu chefe, age com a frieza da razão, eu fico preso nesse fogo cruzado entre os dois. Razão e coração se chocando como ondas em uma tempestade dentro de mim. Suspiro, tentando liberar um pouco da tensão acumulada. É inútil. Isabela lança um olhar rápido na minha direção, e por um momento nossos olhos se cruzam. Seus olhos castanhos brilham sob a luz da rua, e algo dentro de mim se quebra. Meu peito aperta, minhas mãos se fecham com mais força ao redor do volante. Eu queria ser mais forte. Queria conseguir sufocar o que sinto por ela. Essa situação já é complicada o suficiente, mas os sentimentos que nutro por Isabela tornam tudo infinitamente pior. Nosso trabalho nos coloca em uma linha tênue, uma linha que não podemos cruzar. É perigoso. É proibido. Mas o que eu posso fazer se não consigo? O tempo que passamos juntos, lado a lado, trabalhando, confidenciando, se conectando... Tudo isso me marcou de um jeito que não consigo reverter. Eu a desejo. E esse desejo é tão intenso, tão desesperado, que às vezes sinto que ele vai me consumir por completo. ⌚⌚⌚⌚⌚ Minutos depois, no apartamento de Rafael... A sensação de algo perfurando meu peito é tão real que quase me dobro, como se pudesse aliviar a dor. Vejo o beijo que Rafael dá em Isabela, e sinto como se meu coração estivesse sendo esmagado. Minha mente lateja com um pensamento insistente: esse é o começo da sedução desse desgraçado. Minhas mãos se fecham em punhos dentro dos bolsos para não fazer besteira, mas a vontade de socá-lo é quase incontrolável. "Sim. Ela é minha." Queria poder gritar isso. Queria que ela entendesse, com apenas um olhar, o quanto aquilo me machucava. Vamos, Isabela, não se envolva com esse cara. Tento dizer isso com os olhos enquanto ela cruza o olhar comigo. Ela sorri para ele mais uma vez quando ele murmura algo em seu ouvido, e a pontada no meu coração se intensifica. Começo a andar inquieto pela sala, incapaz de controlar a raiva que pulsa em mim. As imagens deles juntos, a proximidade, as risadas... É o suficiente para me deixar enjoado. Não posso perder a cabeça. Repito para mim mesmo como um mantra. — Somos só nós, por enquanto? — ouço Isabela perguntar a Rafael. — O pessoal costuma chegar tarde. Aceita uma bebida? — Ele pergunta, olhando para mim com aquela pose de superioridade irritante. — Aceito, obrigado. — Respondo seco, quase cuspindo as palavras. Preciso de algo para anestesiar os nervos. — O que vai beber? — Uísque duplo. Isabela me olha surpresa. Ela sabe que não costumo beber tanto. Quando pego o copo que Rafael me estende, viro o líquido em um só gole, sentindo a ardência descendo pela garganta enquanto tento me acalmar. A cobertura é luxuosa, moderna, com móveis de design impecável. Olho ao redor, mas nada disso me impressiona. Respiro fundo, tentando me controlar, mas sinto os olhos de Isabela fixos em mim. Sei que ela está me observando, talvez preocupada que eu faça algo que estrague tudo. Dou as costas para todos e vou até a sacada, tentando me recompor. Olho para a vista do Rio de Janeiro iluminado à noite, mas mesmo a beleza da cidade não é capaz de apagar o amargor que sinto. Deus, isso é um castigo. Isabela não sabe, mas Carlos me proibiu de estar aqui. Ele não queria que eu me envolvesse ainda mais, talvez por ter visto meu estado de raiva quando ela insistiu em pegar esse caso. Mas como posso ficar longe, sabendo que ela está se colocando no meio de um ninho de cobras? Volto para perto de Rafael e Isabela, tentando me misturar à conversa. — Isabela me disse que você está desempregado — comenta Rafael, lançando-me um olhar curioso. Eu fito os dois, tentando esconder minha irritação. — Estou — respondo seco. Rafael me encara por um momento antes de perguntar: — Qual é a sua profissão? — Sou um faz-tudo. Mecânico, encanador, eletricista, motorista... — Digo sem muita emoção. Ele sorri, com aquele ar de superioridade que me dá vontade de socá-lo. — Então logo encontrará algo. Forço um sorriso. — Tenho certeza disso. O toque da campainha nos interrompe, e Rafael se afasta para atender. Olho para Isabela, que me dá um leve sorriso, tentando me tranquilizar. — Deus, Leandro, melhore essa cara. Você está dando bandeira. LEmbre-se que aqui é Ricardo Félix, entre nesse papel. Aperto os lábios, tentando controlar minha expressão. — Você trouxe o celular? Escondeu bem? — Pergunto baixo, já angustiado. Ela assente e sussurra de volta: — Sim. Fica tranquilo. Aos poucos, a cobertura começa a se encher de pessoas. Casais elegantes, suas esposas com vestidos caros e joias brilhantes. Poucos homens estão sozinhos, como eu. Rafael parece completamente à vontade com Isabela. Ele a apresenta a todos com um orgulho que me deixa ainda mais irritado. Observo-a desaparecer no meio da multidão, seus olhos brilhando, seu sorriso fácil conquistando cada pessoa com quem fala. Sinto um nó no peito e, sem conseguir me conter, sirvo outra dose de uísque. O líquido desce como fogo, mas não é suficiente para apagar a tempestade dentro de mim.
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